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terça-feira, 5 de maio de 2020

Fitch mantém nota de crédito do Brasil, mas coloca perspectiva como negativa

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Em nota, a agência apontou que a revisão reflete a deterioração das perspectivas econômicas e fiscais do país e riscos por incerteza política e pandemia.  
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 Por G1  05/05/2020 18h21    
 Atualizado há uma hora  
 Postado em 05 de maio de 2020 às 19h30m  

      Post.N.\9.256  
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Fitch muda perspectiva de nota do Brasil de estável para negativa
Fitch muda perspectiva de nota do Brasil de estável para negativa

A agência de classificação de risco Fitch manteve a nota de crédito do Brasil em BB-, mas revisou a perspectiva para negativa. Em nota, a agência apontou que a revisão reflete a deterioração das perspectivas econômicas e fiscais do país, e os riscos negativos tanto por conta da incerteza política quanto sobre a duração e intensidade da pandemia de coronavírus.

A nota do Brasil está em BB- desde fevereiro de 2018, dias após o governo desistir de votar a reforma da Previdência em razão da intervenção no Rio de Janeiro. Com a nota, o rating do Brasil está 3 degraus abaixo do grau de investimento.
Fitch rebaixa a nota do Brasil e muda perspectiva de negativa para estável — Foto: Karina Almeida / G1 
Fitch rebaixa a nota do Brasil e muda perspectiva de negativa para estável — Foto: Karina Almeida / G1

Período de estresse
Em relatório, a Fitch avalia que o Brasil entrou no atual período de estresse com um balanço fiscal fraco e baixo crescimento econômico. "A pandemia e a recessão relacionada vão incrementar ainda mais o endividamento público, erodindo a flexibilidade fiscal e aumentando a vulnerabilidade e a choques", diz o texto.

Apesar disso, a nota de crédito é mantida pela economia grande e diversificada do país, alto rendimento per capita em relação a seus pares e uma capacidade de absorver choques externos apoiada pelo câmbio flexível e reservas internacionais robustas, entre outros.

A Fitch aponta que a economia brasileira deve ter uma retração de 4% em 2020, com riscos negativos. "O crescimento médio de -0,6% nos últimos 5 anos reflete uma recuperação lenta após a longa recessão de 2015/2016", aponta a agência. Para 2021, a estimativa é de um crescimento de 3%, conforme o país se recupera da pandemia. Uma recuperação mais rápida, no entanto, pode ser prejudicada por incertezas fiscais, políticas e sobre reformas.

A estimativa também é de piora nas contas públicas: o déficit público deve chegar a 13% do PIB, uma vez que as finanças permanecem estruturalmente fracas e vão sofrer com a crise atual.

Ambiente político
A agência ressalta ainda que o ambiente político brasileiro é marcado por um "relacionamento volátil" entre o Executivo e o Congresso, que foi mais contaminado nas semanas recentes pela saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça, e suas acusações de que o presidente Bolsonaro teria interferido na Polícia Federal.

"Ainda que a administração e o Congresso tenham trabalhado juntos para aprovar uma importante reforma previdenciária em 2019 e as recentes medidas de emergência para apoiar a economia, fricções periódicas reduziram a previsibilidade dos resultados econômicos e políticos e nublaram as perspectivas de reforma após a pandemia.
Moro diz em depoimento que sofreu pressão de Bolsonaro para trocar comando da PF do Rio
Moro diz em depoimento que sofreu pressão de Bolsonaro para trocar comando da PF do Rio

Perda do grau de investimento
O Brasil está há mais de 4 anos sem o grau de investimento. A S&P foi primeira a tirar o selo de bom pagador do país, em setembro de 2015, ação que foi seguida pelas outras duas grandes agências internacionais, Fitch e Moody's.

Com os rebaixamentos que se seguiram, a nota do Brasil recuou para o patamar de 2005. O país conquistou o grau de investimento pelas agências internacionais Fitch Ratings e Standard & Poor’s pela primeira vez em 2008. Em 2009, conseguiu a classificação pela Moody's. Veja gráfico abaixo:
Histórico das notas do Brasil  — Foto: Infografia: Rodrigo Cunha e Diana Yukari/G1Histórico das notas do Brasil — Foto: Infografia: Rodrigo Cunha e Diana Yukari/G1

Entenda a classificação das agências
As agências têm uma longa escala de classificação, com mais 20 notas. Em resumo, são dois terrenos e uma muralha. Quem está a partir de um determinado nível tem o carimbo de grau de investimento.

Quanto mais longe do muro, mais eficiente, confiável, robusta é a economia e menor o seu risco. O triplo A, por exemplo, é a nota da Alemanha. Alguns fundos de investimento só colocam dinheiro em países desse terreno. Do outro lado é o grau especulativo. Países arriscados, com economia problemática e menos confiável. Os investidores pensam duas vezes antes de entrar.

Alguns fundos de pensão internacionais, de países da Europa ou os Estados Unidos, por exemplo, seguem a regra de que só se pode investir em títulos de países que estão classificados com grau de investimento por agências internacionais. Por isso, essa "nota" permite que o país receba recursos de investidores interessados em aplicar seu dinheiro naquele local.

Segundo analistas de mercado, historicamente, países costumam levar cerca de 5 a 10 anos para recuperar o selo de país bom pagador.

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Com pandemia, produção industrial tomba 9,1% e tem pior março desde 2002

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Trata-se também da queda mensal mais acentuada desde a greve dos caminhoneiros de maio de 2018 (-11%). Setor fechou o 1º trimestre no vermelho, com queda de 2,6% frente aos últimos 3 meses de 2019. 
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 Por Darlan Alvarega e Daniel Silveira, G1        
 05/05/2020 09h01  Atualizado há 34 minutos  
 Postado em 05 de maio de 2020 às 10h00m  

      Post.N.\9.255  
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Produção de veículos caiu 28% em março e foi segmento que exerceu maior pressão no resultado setor, segundo o IBGE. — Foto: Divulgação/HyundaiProdução de veículos caiu 28% em março e foi segmento que exerceu maior pressão no resultado setor, segundo o IBGE. — Foto: Divulgação/Hyundai

A produção industrial brasileira desabou 9,1% em março, na comparação com fevereiro, conforme divulgou nesta terça-feira (5) o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostrando um forte impacto da pandemia de coronavírus e das medidas de isolamento social no setor e na atividade econômica.

Trata-se do pior resultado para meses de março da série histórica da pesquisa, iniciada em 2002. É também a queda mensal mais acentuada desde maio de 2018 (-11%), quando o setor foi afetado pelas paralisações provocadas pela greve dos caminhoneiros.
Na comparação com março do ano passado, a queda foi de 3,8%, quinto resultado negativo seguido nessa comparação.

Com o tombo de março, a produção industrial passou a acumular no ano uma retração de 1,7%. Em 12 meses, tem queda de 1%.
Produção industrial mensal — Foto: Economia G1Produção industrial mensal — Foto: Economia G1

Queda de 2,6% no 1º trimestre
A indústria registrou queda de 2,6% no 1º trimestre, na comparação com o 4º trimestre. É a maior queda desde o segundo trimestre de 2018, que pega exatamente a greve dos caminhoneiros, quando caiu 2,7%, destacou o gerente da pesquisa André Macedo.

Com o resultado de março, o patamar de produção retornou a nível próximo ao de agosto de 2003, ficando 24% abaixo do pico histórico, alcançado em maio de 2011 – em fevereiro essa distância era de 16,4%. O tombo de agora levou o setor a uma posição pior que a registrada com a greve dos caminhoneiros, em maio de 2018, quando o patamar ficou 23,9% abaixo do pico.

Vale lembrar, que o início das medidas restritivas provocadas pela pandemia e o período de confinamento não atingiu todo o mês de março. O que a gente observa é que houve uma força maior das consequências do isolamento social no final do mês, com um número maior de plantas industriais concedendo férias coletivas e interrompendo a sua produção, afirmou o pesquisador.

Segundo Macedo, os efeitos da pandemia sobre a produção industrial tendem a se prolongar, ao contrário do ocorrido com a greve dos caminhoneiros, que foi um movimento pontual.
Pelo que a gente observa, você tem uma continuidade desse movimento de queda para o mês de abril e meses seguintes. Aquela queda da greve dos caminhoneiros foi reposta logo no mês seguinte, em junho, algo que a gente não vai conseguir observar pelo mês de abril, avaliou. 
Queda generalizada em março
Segundo o IBGE, houve queda de produção em todas as quatro grandes categorias do setor e em 23 dos 26 ramos pesquisados, evidenciando o aprofundamento das paralisações em diversas plantas industriais, devido ao isolamento social por conta da pandemia de Covid-19.

Entre as atividades, a queda que exerceu a maior pressão no índice geral foi a de veículos automotores, reboques e carrocerias (-28%), pior resultado desde maio de 2018(-29%). "O movimento de quarentena fez com que muitas empresas interrompessem o seu processo de produção, seja concedendo férias coletivas ou paralisando as atividades por determinados períodos, destacou Macedo.
23 dos 26 ramos industriais pesquisados registraram queda em março, segundo o IBGE — Foto: Divulgação23 dos 26 ramos industriais pesquisados registraram queda em março, segundo o IBGE — Foto: Divulgação

Outros destaques negativos em março foram os ramos de confecção de artigos do vestuário e acessórios (-37,8%), bebidas (-19,4%), couro, artigos para viagem e calçados (-31,5%), produtos de borracha e de material plástico (-12,5%), máquinas e equipamentos (-9,1%), produtos de minerais não-metálicos (-11,9%), produtos têxteis (-20,0%) e móveis (-27,2%).

As únicas altas foram registradas nos ramos de impressão e reprodução de gravações (8,4%), de perfumaria, sabões, produtos de limpeza e de higiene pessoal (0,7%) e de manutenção, reparação e instalação de máquinas e equipamentos (0,3%).

Você observa em algumas atividades um resultado positivo que guardam relação com esse momento de isolamento social, mas que são insuficientes para fazer qualquer movimento de alta do setor, observou Macedo.
Dentre os produtos que tiveram alta na produção, segundo o pesquisador, estão papel higiênico, absorvente, fraldas descartáveis, desodorante, sabão, detergente, sabonete, shampoo, desinfetante, sabão em pó, sabão líquido, seringas, agulhas, cateteres, luvas de borracha, óculos de proteção e caixões, entre outros. 
Resultado por grandes categorias
Já o resultado de março entre as grandes categorias econômicas, o maior tombo foi na produção de bens de consumo duráveis, afetado principalmente pela menor produção de automóveis. Confira:
  • bens de consumo duráveis: -23,5%
  • bens de capital: -15,2%
  • bens de consumo semi e não-duráveis: -12,0%
  • bens intermediários: -3,8%
Repercussão e perspectivas
O tombo da indústria em março veio acima do esperado. As expectativas em pesquisa da Reuters com economistas eram de queda de 4,7% na variação mensal e de 1,6% na base anual.

"O resultado veio ligeiramente pior do que esperávamos e sugere que devemos ter quedas significativas nos outros ramos da atividade e o PIB deve recuar de fato este ano 5%", avaliou André Perfeito, economista-chefe da Necton.

O setor industrial do país chegou a ensaiar uma melhora no começo do ano, com dois meses seguidos de ganhos, mas a perspectiva de recuperação mais firme foi desmantelada pelas consequências da pandemia em meio a férias coletivas, paralisações e menor consumo das famílias e demanda interna.

De acordo com último boletim Focus do Banco Central, o mercado financeiro passou a projetar retração de 3,76% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2020. Já a previsão dos analistas para a produção industrial no ano é de uma queda de 2,75%.

Pesquisa divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou que a pandemia de coronavírus derrubou a confiança do empresário industrial para mínimas históricas na passagem de março para abril.

Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua Mensal (PNAD Contínua) do IBGE, mostraram que o número de postos de trabalho na indústria caiu -2,6% no 1º trimestre (ou menos 322 mil pessoas), na comparação com o 4º trimestre.

Com a crise, o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (NUCI) da indústria brasileira atingiu em abril o menor patamar já registrado, segundo levantamento da Fundação Getulio Vargas. O indicador alcançou o percentual de 57,5% em abril, menor valor da série histórica iniciada em janeiro de 2001. Isso significa que, em média, o setor industrial operou com pouco mais da metade da sua capacidade total. Os segmentos mais impactados foram os de vestuário, veículos e couros e calçados.
Veja cuidados que a indústria deve ter para retomar as atividades
Veja cuidados que a indústria deve ter para retomar as atividade

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segunda-feira, 4 de maio de 2020

Anticorpo que neutraliza o novo coronavírus é identificado por cientistas em testes de laboratório

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Anticorpos fazem parte do sistema de defesa do corpo humano contra infecções. Pesquisadores estrangeiros conseguiram neutralizar o vírus em células in vitro.  
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 Por Carolina Dantas, G1      
 04/05/2020 18h17  Atualizado há 10 minutos  
 Postado em 03 de maio de 2020 às 19h00m  


      Post.N.\9.254  
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SARS-CoV-2, o novo coronavírus, responsável por causar a Covid-19. — Foto: Scientific Animations/Wikimedia Commons/DivulgaçãoSARS-CoV-2, o novo coronavírus, responsável por causar a Covid-19. — Foto: Scientific Animations/Wikimedia Commons/Divulgação

Cientistas da Universidade de Utrecht, do Erasmus Medical Center e do Harbor BioMed publicaram nesta segunda-feira (4) a descoberta de um anticorpo capaz de neutralizar o Sars CoV-2, coronavírus responsável pela Covid-19.

Os anticorpos são proteínas produzidas pelo próprio corpo humano capazes de reconhecer e neutralizar micro-organismos, como vírus e bactérias. Eles são produzidos pelos linfócitos B, células do sistema imunológico. São eles que lutam contra invasores como o novo coronavírus.

A equipe de pesquisadores estrangeiros já estudava anticorpos direcionados ao Sars CoV, vírus da mesma família que causou uma epidemia na China em 2002. E, assim, o grupo pensou em testar o painel de opções descoberto também para o novo coronavírus, o Sars CoV-2, responsável pela atual pandemia em 2020.

"É um trabalho muito preliminar. Mas é o primeiro publicado, eu sei que tem outros que estão até mais adiantados. Eles [pesquisadores] já trabalhavam com anticorpos, e tinham esse que era metade humano e metade rato. Eles imunizaram os ratos, e tinham esse painel de anticorpos. Adaptaram em uma versão para os humanos", disse a pesquisadora Ana Maria Moro, do Instituto Butantan, que também pesquisa a produção de anticorpos monoclonais neutralizantes no Brasil.

De acordo com Berend-Jan Bosch, líder da pesquisa na Universidade de Utrecht, o novo anticorpo foi capaz de neutralizar o Sars Cov-2 em células in vitro. O artigo foi publicado pela revista "Nature Communications". O co-autor Frank Grosveld, do Erasmus Medical Center e diretor-científico da Harbor BioMed, disse o anticorpo é "totalmente humano":
"O anticorpo usado neste trabalho é 'totalmente humano', permite que continue mais rapidamente o desenvolvimento e reduz potenciais efeitos colaterais relacionados ao sistema imunológico", disse Grosveld.
A detecção de anticorpos é um dos mecanismos científicos mais importantes para criação de tratamentos e vacinas contra micro-organismos. Para Ana Maria Moro, um ponto importante do estudo é que o anticorpo detectado não impede a entrada do vírus na célula.
"Fizeram um anticorpo humano, mas eles não sabem ainda como neutraliza exatamente. Isso eu achei um ponto de interrogação. E só fizeram ensaio em células de laboratório", disse Ana Maria.
A cientista do Instituto Butantan, em São Paulo, tem um projeto financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) que também desenvolve em laboratório anticorpos para um novo tratamento de pacientes com a Covid-19.

Segundo ela, esta é a primeira publicação de uma universidade sobre um anticorpo contra o Sars-CoV-2. Como tem acesso a informações mais restritas, disse que uma empresa da Coreia do Sul também conseguiu o feito em laboratório, mas sem publicação em revista científica.
"Eles identificaram uma sequência. Não quer dizer que eles tenham um produto pronto para usar. Precisa fazer estudo em macacos, precisa fazer as linhagens", disse Ana Maria.
Entenda algumas das expressões mais usadas na pandemia do covid-19
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CORONAVÍRUS


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    Endividamento se acentua e pode ser um dos legados da crise do coronavírus

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    País tem 60 milhões de negativados e, com a crise, um terço dos brasileiros já precisa gastar mais do que consegue ganhar.
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     Por Raphael Martins, G1  
     04/05/2020 - 07h33 Atualizado há 4 horas  
     Postado em 04 de maio de 2020 às 11h40m  


        Post.N.\9.253  
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    Dívidas podem ser o futuro do brasileiro — Foto: Igor Jácome/G1Dívidas podem ser o futuro do brasileiro — Foto: Igor Jácome/G1

    Os primeiros efeitos da crise causada pelo novo coronavírus são visíveis nas ruas. Agora, o cenário começa a aparecer também nos dados econômicos — e, mais à frente, o que pode sobrar para as pessoas físicas é o endividamento e o nome negativado nos serviços de proteção ao crédito.

    Na última semana, a Sondagem do Consumidor, publicada pelo Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), mostrou que 28,6% dos brasileiros está em situação de "estresse financeiro". O indicador mede a parcela da população que está gastando suas reservas ou se endividando para pagamentos correntes.

    Medido desde 2009, o percentual referente a abril deste ano é o novo recorde. Em junho de 2016, um dos momentos mais dramáticos do biênio de recessão no país, o índice anotava 28,5%. Em relação a março, o aumento foi de 5,3 pontos percentuais.

    O estresse financeiro dá as primeiras mostras da redução de renda no país, mesmo com as medidas tomadas pelo governo de injeção de recursos na economia. Tanto o auxílio emergencial de R$ 600, quanto o benefício pago a quem teve jornadas e salários reduzidos não conseguiram repor os ganhos anteriores à crise.
    Indicador de estresse financeiro: um recorde na série histórica — Foto: Economia G1Indicador de estresse financeiro: um recorde na série histórica — Foto: Economia G1

    Não bastasse, boa parte dos dependentes dos pagamentos relatam atraso para ter acesso ao dinheiro, que os obriga a atrasar compromissos.
    "Em 2016, estímulos como a liberação do FGTS foi destinado, em parte, para a organização financeira, quitação de dívida e para consumo de bens e serviços", diz Viviane Seda, coordenadora de sondagens do Ibre/FGV. 
    "Dessa vez, é difícil algo assim acontecer porque a redução de renda é tamanha que todo o recurso será consumido com o básico para sobrevivência. Não tem margem para pagar dívidas."
    Com a demanda de pagamentos represada, a economista ressalta que a pressão sobre o consumo atinge até as faixas de renda mais altas pesquisadas pelo Ibre. Enquanto os mais pobres serão obrigados a gastar tudo o que recebem, os mais ricos seguram o consumo por conta da incerteza com a economia, emprego e com a própria continuidade da pandemia.

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    Sardenberg comenta números do seguro-desemprego e o apagão estatístico

    O impacto, portanto, deve se prolongar até a retomada das atividades. Será mais leve em bens de consumo essenciais e mais pesado em bens duráveis, como veículos e eletrodomésticos, que demandam mais capital e planejamento.

    "Uma redução deste tamanho na renda demanda um tempo de adequação ao orçamento das famílias. A dívidas precisam ser alongadas e o crédito indireto, por meio de parcelamentos, deve facilitar o consumo no futuro", diz Seda. "A recuperação em V é praticamente impossível porque vai demorar para as pessoas se restabelecerem."

    A hora do crédito?
    O consumo travado pela queda de renda fez mudar a cesta de consumo do brasileiro, que passou a priorizar itens essenciais. E conforme a renda cai, o preço desses produtos sofre pressão.

    O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou paralisia da inflação, com variação de apenas -0,01% no IPCA-15 de abril. Mas o indicador de alimentação em domicílio subiu 3,1%. Com o aprofundamento da quarentena, a previsão de economistas é de mais aperto.
    Nesse contexto, um estudo da empresa de inteligência Boa Vista divulgado na última quarta-feira (29) mostra que 56% dos entrevistados não conseguirá pagar as contas em dia por mais de dois meses. Metade deste grupo não se mantém nem pelos próximos 30 dias e, assim, deve começar se endividar ou fazer crescer débitos já contratados.

    Para os entrevistados pela pesquisa da Boa Vista, a saída preferida é justamente a tomada de crédito. Dentre as linhas mais requisitadas, estão o empréstimo bancário (21%), compras no cartão de crédito (14%), empréstimo consignado (12%) ou em financeira (11%), chegando até o cheque especial (8%).
    Modalidades de crédito: linhas preferidas dos entrevistados têm juros altos — Foto: Economia G1Modalidades de crédito: linhas preferidas dos entrevistados têm juros altos — Foto: Economia G1

    Por outro lado, dados do Banco Central também divulgados nesta quarta mostram que a disposição dos bancos em conceder crédito em cenário de aumento de inadimplência e endividamento não acompanha a demanda.

    Desde a injeção de R$ 1,2 trilhão pelo BC em liquidez para o bancos, o crédito para as empresas teve alta de 6,4% em março, mas o saldo total para as pessoas físicas avançou apenas 0,3%. Pior: apesar de um cenário de queda de taxa de juros, as taxas do rotativo do cartão de crédito subiram de 322,6% para 326,4% ao ano, entre fevereiro e março.

    A redução média das demais linhas, também de acordo com o BC, foi sensível. Os juros nas operações com pessoas físicas passaram de 46,7% para 46,1% ao ano, também de fevereiro para março.
    "Os bancos se anteciparam em outra frente e estão esticando o prazo de carência das dívidas por 90, 120 ou 180 dias justamente para evitar empréstimo", diz Ricardo Rocha, professor de finanças do Insper. "É importante dar esse prazo para esse primeiro impacto e, lá na frente, se a taxa de juros estiverem baixas e o risco mais claro, o sistema financeiro retorna para o crédito."

    Para Rocha, a injeção de recursos por parte do Tesouro ainda deve acalmar os ânimos dos bancos, como aconteceu nos Estados Unidos durante a crise de 2008. Ajudaria, também, se o BC reduzisse custos de observância e exigências de capital para concessão de crédito. "Antes de partir para o crédito, o cliente precisa conversar com o banco", diz. "Muita gente nem sabe que os bancos estão postergando o pagamento de dívidas."

    Renegociação
    Ao passo que análises de risco são feitas, todos os grandes bancos anunciaram planos de renegociação ou adiamento de pagamentos sem aumento de juros.
    1. Banco do Brasil: Criação de linhas de crédito consignado e crédito salário, carência de 60 a 180 dias para pagamentos das primeiras parcelas em novas operações de crédito, além de prazos mais amplos de pagamentos que chegam a 72 meses no crédito automático e a 96 meses no crédito salário;
    2. Bradesco: Antecipação de IR e 13º salário a 1,79% de taxa mensal, prorrogação por 60 dias de dívidas contratadas e pagas em dia, além de manutenção da taxa contratada, com juros proporcionais à carência requisitada;
    3. Itaú Unibanco: Alongamento de contratos por até seis anos e prorrogação de parcelas para as linhas de empréstimo pessoal, cheque especial, crédito imobiliário, cartões de crédito e financiamento de veículos por até 120 dias;
    4. Caixa: No Crédito Imobiliário, a Caixa criou a possiblidade de pausa ou de pagamento parcial de até três encargos, ou renegociação dos contratos que apresentem atraso de até 180 dias, para possibilitar o acesso à pausa emergencial;
    5. Santander: Prestações vencidas a partir de 16 de março foram postergadas e o valor permanecerá inalterado, faturas do cartão com vencimento desde 15 de abril podem ser dividida em até 24 vezes com desconto de 50% na taxa de parcelamento e 60 dias de carência, financiamento de veículos também terá dois meses de prorrogação sem alterar taxas de juros.
    Com as medidas, as novas operações de crédito somam R$ 177 bilhões entre 16 de março e 17 de abril, segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Destes, quase R$ 36 bilhões foram para pessoa física. Em renovações de linhas de crédito ativas, a quantia foi R$ 23,8 bilhões e a suspensão de pagamentos, R$ 14 bilhões.
    "Tenho confiança que esse processo vai trazer uma transformação da cabeça do credor, com disposição de estar mais próximo do cliente e entender as necessidades", diz João Carlos Douat, professor da FGV, especializado em risco de crédito. "As fintechs estão aí e encontraram nichos específicos, em que há clareza para olhar setorialmente. Com a escalada do mundo digital, os bancos precisam ter a abordagens digitais para modelar melhor o crédito."
    Papel das fintechs
    Hoje, os bancos tradicionais ainda irrigam 84% do mercado de crédito, segundo o Banco Central. Mas, com o vaivém para achar um modelo ágil, o apetite das fintechs nesse mercado se intensifica.

    Para Fabio Neufeld, líder da vertical de empréstimos da Associação Brasileira das Fintechs, as empresas capitalizadas não estão pensando em pisar no freio com o aumento da demanda por crédito.

    "Os associados estão revisando políticas de crédito e formas de cobrança, lançando produto novo e refinanciamentos", diz. "Há atenção, sobretudo, na experiência com o cliente, passando segurança para que ele nem se dê conta de que não está atuando com um banco tradicional."

    Desemprego na conta
    A falta de emprego é outro dos impactos diretos no endividamento das famílias. Em fevereiro, eram 45,5% das famílias com débitos com o sistema financeiro, de acordo com o Banco Central em seus dados mais atualizados.

    Mas a tendência é de piora. Nesta quinta-feira (30), o IBGE voltou a divulgar os dados do desemprego no Brasil: são 12,9 milhões de trabalhadores parados (12,2%) no trimestre janeiro-fevereiro-março, 1,2 milhão a mais que o último resultado.

    Como boa parte das políticas de isolamento foram adotadas em meados de março, os números mostram pouco do impacto da pandemia. Mas o mercado informal já vinha ganhando força em pesquisas anteriores de emprego desde 2017. São vagas com remuneração mais baixa e que demandam adaptar o orçamento familiar.

    Trabalhadores enfrentam dificuldades para se cadastrar no seguro-desemprego
    Trabalhadores enfrentam dificuldades para se cadastrar no seguro-desemprego

    Para entender o que está por vir nos próximos meses, a métrica que resta por ora é o aumento de pedidos do seguro-desemprego. O governo federal estimou na última terça-feira (28) que a crise gerada pela pandemia do novo coronavírus provocou, até agora, cerca de 150 mil pedidos de seguro-desemprego a mais que no mesmo período de 2019.

    Somam-se a eles todos os informais que requisitaram o auxílio emergencial. Excluídos os beneficiários do Bolsa Família, receberam a renda complementar mais de 30 milhões de pessoas até esta quinta-feira (30).

    "A perda de renda é algo que tradicionalmente aparece na inadimplência, por meio de dívidas bancárias, no comércio, água e luz. Com a crise atual, a demanda por crédito deve se intensificar muito", diz Isabela Tavares, economista da Tendências Consultoria. "As medidas do BC anunciadas até agora atacam a facilitação de negócios e prazos, mas não são capazes para socorrer o aumento na inadimplência."

    AUXÍLIO EMERGENCIAL DE R$ 600


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