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terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

O que muda na prática se Covid virar endemia?

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Alguns países europeus anunciaram que mudarão a forma como eles lidam com a doença provocada pelo coronavírus, com praticamente nenhuma das restrições adotadas nos últimos dois anos. Entenda o que muda na prática e se medidas do tipo fazem sentido no contexto atual.
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TOPO
Por André Biernath, BBC

Postado em 08 de fevereiro de 2022 às 08h40m

Post.- N.\ 10.201

Menino de máscara em bicicleta passa em frente a grafite mostrando profissional de saúde injetando seringa de vacina em um coronavírus Sars-CoV-2 em Gaza, no dia 31 de dezembro. — Foto: Mohammed Abed / AFP
Menino de máscara em bicicleta passa em frente a grafite mostrando profissional de saúde injetando seringa de vacina em um coronavírus Sars-CoV-2 em Gaza, no dia 31 de dezembro. — Foto: Mohammed Abed / AFP

Ao longo das últimas semanas, países como Reino Unido, França, Espanha e Dinamarca decidiram que a Covid-19 não será mais encarada com uma pandemia e começará a ser tratada como uma endemia em seus territórios.

Com isso, a doença provocada pelo coronavírus deixará de ser vista como uma emergência de saúde e muitas das restrições — uso de máscaras, proibição de aglomerações e exigência do passaporte vacinal — cairão por terra.

Embora anúncios do tipo fossem esperados, eles causaram muita confusão: em alguns casos, a endemia foi interpretada como o fim da Covid — quando, na verdade, estamos muito longe disso (e é bem possível que essa doença nunca desapareça).

Mas, afinal, o que uma endemia significa na prática? Os países europeus acertaram na decisão? E será que o Brasil também vai chegar nessa mesma etapa logo mais?

Uma palavra, múltiplas interpretações

Para começo de conversa, vale esclarecer que uma endemia não é necessariamente uma boa notícia.

Ela apenas significa que há uma quantidade esperada de casos e mortes relacionadas a uma determinada doença, de acordo com um local e uma época do ano específicas. E esses números nem aumentam, nem diminuem.

A infecção pelo herpes simples, que provoca feridas na boca e na região genital, é uma endemia. Estima-se que pelo menos dois terços da população mundial com mais de 50 anos já tiveram contato com esse vírus. Apesar de incômodo, esse quadro não está relacionado a grandes complicações ou risco de óbito.

Por outro lado, outras doenças bem mais sérias e mortais, como tuberculose, Aids e malária, também são endêmicas. Só na malária, estima-se que cerca de 240 milhões de casos e 640 mil mortes aconteçam todos os anos, segundo as estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS).

A questão, portanto, tem a ver com a estabilidade nas estatísticas relacionadas com aquela enfermidade. Quando esses números fogem do controle, a situação evolui para uma epidemia (se o problema for localizado numa região) ou para uma pandemia (caso a crise se alastre por vários continentes).

Num evento do Fórum Econômico Mundial realizado no final de janeiro, representantes de várias instituições discutiram todos esses conceitos e debateram quando a Covid-19 poderia ser realmente classificada como uma endemia.

Por que algumas pessoas não pegam Covid, mesmo tendo contato com infectados? Entenda
Por que algumas pessoas não pegam Covid, mesmo tendo contato com infectados? Entenda

Na visão do imunologista Anthony Fauci, líder da resposta à pandemia dos Estados Unidos, endemia significa "uma presença não disruptiva sem a possibilidade de eliminação [de uma doença]".

De acordo com a avaliação do especialista, o coronavírus não será extinto e passará, aos poucos, a afetar os seres humanos de forma similar a outros agentes causadores do resfriado comum.

Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergologia e Infecções dos EUA, em foto de 22 de dezembro de 2020 — Foto: Patrick Semansky/Pool/Reuters
Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergologia e Infecções dos EUA, em foto de 22 de dezembro de 2020 — Foto: Patrick Semansky/Pool/Reuters

Na mesma ocasião, o médico Mike Ryan, diretor executivo do Programa de Emergências em Saúde da OMS, também bateu nessa tecla. "Nós provavelmente nunca vamos eliminar esse vírus. Depois da pandemia, ele se tornará parte de nosso ecossistema. Mas é possível acabar com a emergência de saúde pública."

Ele também reforçou que endemia não é sinônimo de coisa boa. "Ela só significa que a doença ficará entre nós para sempre. O que precisamos é diminuir a incidência, aumentando o número de pessoas vacinadas, para que ninguém mais precise morrer [de Covid]", completou.

Michael Ryan, diretor-executivo do programa de emergências da Organização Mundial da Saúde (OMS) — Foto: Christopher Black/OMS
Michael Ryan, diretor-executivo do programa de emergências da Organização Mundial da Saúde (OMS) — Foto: Christopher Black/OMS

A hora e a vez da Covid?

De um lado, os cientistas se mostram reticentes em já encarar a Covid-19 como uma endemia, pela falta de parâmetros e de uma estabilidade nas notificações por um período mais prolongado.

"Isso ainda não foi bem estabelecido. Quais são os números de casos, hospitalizações e mortes pela doença aceitáveis, ou esperados, todos os anos?", questiona a epidemiologista Ethel Maciel, professora titular da Universidade Federal do Espírito Santo.

Por outro, é inegável que o avanço da vacinação e os recordes de novas infecções impulsionadas pela ômicron nos últimos dois meses garantiram um alto nível de proteção, especialmente contra as formas mais graves da doença.

Até o momento, 53% da população mundial já recebeu ao menos duas doses da vacina. E as projeções publicadas no periódico The Lancet pelo Instituto de Métricas em Saúde da Universidade de Washington, nos EUA, indicam que, dado o alto grau de transmissibilidade da nova variante, metade das pessoas do planeta terão sido infectadas entre novembro de 2021 e março de 2022.

"É muita gente com imunidade", avalia o infectologista Julio Croda, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Esse aprimoramento das defesas do organismo garante uma proteção contra as complicações da Covid, relacionadas à hospitalização e morte, ao menos por alguns meses.

"Graças à imunidade obtida pela vacinação e, em menor grau, pelo alto número de infecções, a doença se tornou menos letal", diz Croda, que também é presidente da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical.

Testes de Covid: diferenças entre PCR, antígeno e autotesteTestes de Covid: diferenças entre PCR, antígeno e autoteste

A Covid chegou a ter uma taxa de letalidade de 1 a 2%. Atualmente, esse número está em 0,25%, segundo alguns registros nacionais e internacionais.

Croda explica que essa taxa de 0,25% ainda é o dobro do que ocorre na gripe (que fica em 0,1%). Mesmo assim, houve uma diminuição de praticamente dez vezes na mortalidade por covid que era observada há poucos meses.

E isso, mais uma vez, tem a ver com a imunidade adquirida ao longo desse tempo.

Os vírus e nosso sistema de defesa fazem um verdadeiro cabo de guerra. Quando surge uma doença infecciosa nova, a corda pende com mais frequência para o patógeno, já que nossas células imunes não fazem a menor ideia de como combater a ameaça.

Com o passar do tempo — e a disponibilidade de vacinas seguras e efetivas — o jogo começa a virar, e o sistema imunológico "aprende" a lidar com o inimigo. Nessa situação, mesmo que o agente infeccioso consiga invadir o organismo, suas consequências tendem a ser menos preocupantes.

É justamente isso que parece estar acontecendo com a Covid: dois anos e poucos meses depois dos primeiros casos, o número de indivíduos com algum nível de proteção é suficientemente alto para que não ocorra mais um aumento na demanda por leitos no mesmo patamar das outras ondas, em que o sistema de saúde chegou a entrar em colapso.

Resumindo, pelo observado até agora, a Covid ainda não pode ser comparada com a gripe e está longe de ser um resfriado comum, mas parece caminhar para chegar mais próximo disso algum dia no futuro. 
O que muda na prática?

Os países europeus que já classificam a Covid-19 como uma endemia em seus territórios acabaram (ou acabarão em breve) com a maioria das restrições que marcaram os últimos 24 meses.

De forma geral, não haverá mais necessidade de uso de máscaras em locais fechados, não será preciso mostrar o comprovante de vacinação e as aglomerações estarão completamente liberadas.

Num discurso recente no Parlamento do Reino Unido, o primeiro-ministro Boris Johnson disse que, "conforme a Covid se tornar endêmica, nós precisaremos substituir as requisições da lei pela orientação, de modo que as pessoas infectadas com o vírus sejam cuidadosas umas com as outras".

Maciel entende que alguns cuidados devem permanecer mesmo assim, ainda que a situação fique menos grave.

"O vírus vai continuar circulando. Mesmo que as medidas não sejam mais obrigatórias, é importante que todos tomem alguns cuidados quando necessário", orienta.

A epidemiologista avalia que é preciso empoderar e ensinar as pessoas, para que elas avaliem o risco de cada situação e tomem as medidas para proteger a si e a todos ao redor.

Um sujeito com sintomas de gripe ou Covid, por exemplo, deve trabalhar de casa, se possível, para não colocar em risco os demais colegas. E, caso tenha que sair, ele pode usar máscara para, assim, evitar a transmissão do vírus para os contatos próximos.

"É a mesma coisa que acontece com a infecção pelo HIV. Ter uma relação sexual sem preservativo te coloca numa situação de risco, mesmo que essa doença seja considerada hoje uma endemia", compara.

Que fique claro: o alívio nas políticas restritivas não significa que elas foram inúteis ou não deveriam ter sido adotadas no passado. É consenso entre os especialistas que todas essas medidas salvaram muitas vidas num momento em que não existiam outros meios para barrar a infecção e suas complicações.

Hoje em dia, possuímos ferramentas testadas e aprovadas — vacinas e remédios — para lidar com a Covid e torná-la menos ameaçadora para a grande maioria da população.

E, claro, caso surja uma nova variante agressiva e com capacidade de escapar da imunidade, será preciso instaurar novamente muitos desses cuidados preventivos que começam a ser abandonados em certas partes do mundo.

Além das questões relacionadas à prevenção, outra mudança significativa da endemia envolve a vigilância: a forma como os casos são detectados e notificados é bem diferente.

Durante os últimos dois anos, muitos países fizeram uma busca ativa de infectados, mesmo aqueles que nem apresentavam sintomas típicos da Covid. Foram montadas tendas de testagem em diversos locais e kits de diagnóstico eram distribuídos gratuitamente (ou vendidos por um preço baixo) para os cidadãos — no Brasil, foram poucas as cidades ou os estados que lançaram uma política nesses moldes.

Aqueles indivíduos que testavam positivo eram então monitorados e orientados a ficar em quarentena. Na sequência, as pessoas com quem eles tiveram contato próximo nos dias anteriores eram comunicadas a também buscar os exames.

Durante uma pandemia ou uma epidemia, essa estratégia permite cortar as cadeias de transmissão do vírus na comunidade e evita que a situação cresça e gere uma bola de neve, que desemboca em um aumento massivo de hospitalizações e mortes.

Com a endemia, todo esse amplo programa de testagem, isolamento e rastreamento de contatos deixa de fazer sentido.

"Passa-se então para um modelo de vigilância sentinela, em que não é necessário testar todo mundo que apresenta sintomas de infecção respiratória", explica Croda.

"Um sistema que concentre os testes nos hospitais ou nos ambulatórios de atenção primária é custo-efetivo e ajuda a identificar padrões no número de casos."

"Se a vigilância notar um novo crescimento em determinada região, é possível intervir cedo, antecipando campanhas de vacinação ou disponibilizando de mais testes para aquele local", completa o especialista.

Ainda nesse contexto endêmico, a ciência ainda não sabe ao certo como será o futuro da vacinação contra a Covid. Será que todos deverão tomar uma quarta dose? Ou haverá a necessidade de reforços anuais, a exemplo do que ocorre com a gripe?

"É possível que precisemos de vacinas adaptadas de acordo com o surgimento de novas variantes, para proteger principalmente os grupos mais vulneráveis, como idosos, pacientes imunossuprimidos e crianças", antevê Croda.

É cedo para decretar uma endemia?

As decisões tomadas por alguns países europeus geraram algumas controvérsias no meio acadêmico.

Num artigo publicado na revista especializada Nature, o pesquisador Aris Katzourakis, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, criticou o que ele considera um "otimismo preguiçoso".

"Como virologista evolutivo, fico frustrado quando gestores públicos invocam a palavra 'endemia' como uma desculpa para fazer pouco, ou não fazer nada. Existem mais coisas que podem ser feitas do que aprender a conviver com rotavírus, hepatite C ou sarampo endêmicos", escreveu.

Katzourakis também diz que é um erro pensar que a evolução dos vírus sempre os tornam mais "bonzinhos".

"Lembre-se que as variantes alfa e delta são mais virulentas que a versão original detectada em Wuhan, na China. E a segunda onda da pandemia de gripe espanhola em 1918 foi muito mais mortal que a primeira", argumenta.

"Pensar que a endemia é leve e inevitável não é apenas errado, mas perigoso: deixa a humanidade à mercê de muitos anos da doença, incluindo ondas imprevisíveis e novos surtos. É mais produtivo considerar o quão ruim as coisas podem ficar se continuarmos a dar ao vírus oportunidades de nos enganar. E daí então podemos fazer mais para garantir que isso não aconteça", finaliza.

Para Croda, só o tempo dirá se a decisão dos países europeus foi certa ou errada. "Isso depende muito de fatores que não controlamos. Nesse meio tempo, pode surgir uma nova variante extremamente contagiosa, com escape imunológico e maior risco de hospitalização e óbito", especula.

"É justamente para evitar que isso aconteça que precisamos ofertar vacinas para todos, especialmente para aqueles que ainda não tomaram nenhuma dose. Essa deveria ser a prioridade número um do mundo inteiro", acrescenta.

Maciel concorda. "Quando a transmissão está muito alta, tudo pode acontecer, inclusive o surgimento de novas variantes.", alerta.

"E o Brasil, além de seguir com a vacinação, precisa ampliar o acesso aos tratamentos contra a Covid, como os anticorpos monoclonais e os antivirais, que já são usados em outros países", complementa.

Onde o Brasil se encaixa nesse debate?

Por ora, ainda é muito cedo para falar de endemia no nosso país, explicam os especialistas. Estamos na crista da onda da ômicron, com recordes no número de casos e um aumento expressivo nas hospitalizações e nas mortes por Covid durante os últimos dias.

O Instituto de Métricas em Saúde da Universidade de Washington, nos EUA, projeta que o Brasil deve atingir o pico de óbitos relacionados a essa nova variante no meio de fevereiro. A partir daí, os números devem cair novamente e se estabilizar durante o mês de março.

Portanto, estamos alguns passos atrás do que é observado em outras partes do mundo, onde os números já estão se estabilizando.

Para garantir uma situação mais tranquila por aqui, também é preciso ampliar a cobertura vacinal com a terceira dose. No momento, 23% dos brasileiros tomaram o reforço, número muito aquém do ideal. Vários estudos já mostraram que essa aplicação do imunizante é essencial para proteger contra a ômicron e seus efeitos mais graves no organismo.

Croda entende que, com o passar do tempo, vários países devem seguir os passos dos europeus e começarão a encarar a Covid sob uma nova ótica.

"E a América do Sul pode até ter uma vantagem nisso, já que é o continente com a maior cobertura vacinal contra a Covid do mundo", compara.

"Assim que a onda da ômicron passar, podemos ficar numa condição muito melhor para diminuir as restrições", diz.

Para entender como os gestores públicos enxergam essa discussão e se já há algum planejamento para que o país entre nessa fase de transição, a BBC News Brasil entrou em contato com o Conselho Nacional de Secretários da Saúde (Conass) e com o Ministério da Saúde.

Por meio de uma nota de esclarecimentos, o Conass declarou que "o avanço da vacinação no Brasil, que hoje já alcança mais de 75% do público-alvo vacinado com as duas doses, é o primeiro passo para que o país caminhe para superar a pandemia da covid-19, porém, a introdução da variante ômicron mostrou a complexidade do enfrentamento do vírus e sua alta capacidade de mutações."

"A rápida transmissão desta variante criou uma nova pressão na rede assistencial e o aumento de óbitos. Não é possível considerar de caráter endêmico uma doença que traz esse peso na assistência e que tenha essa alta morbimortalidade. Superar a pandemia não quer dizer que não teremos mais casos e óbitos pela covid-19, mas não temos parâmetros ainda para saber o quanto de casos e óbitos serão considerados esperados e, dessa forma, tratados como endêmicos", continua o texto.

"As atenções e os esforços atuais devem estar voltados para garantir a ampliação e manutenção dos leitos clínicos e UTI covid, além da intensificação das campanhas de incentivo para que todos os brasileiros completem o esquema vacinal, incluindo a dose de reforço. Ainda não é o momento para baixar a guarda e decretar o controle da pandemia no Brasil", conclui o Conass.

O Ministério da Saúde não enviou resposta até a publicação desta reportagem.

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segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

Como drones armados estão criando 'nova era da guerra'

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Mais de 100 países e grupos não ligados a governos hoje já contam com os chamados veículos aéreos não tripulados.
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TOPO
Por BBC

Postado em 07 de fevereiro de 2022 às 12h25m

Post.- N.\ 10.200

Drone americano MQ-9 Reaper em missão de treinamento — Foto: Getty Images via BBC
Drone americano MQ-9 Reaper em missão de treinamento — Foto: Getty Images via BBC

Não é incomum que, em História militar, um único sistema de armamento se torne símbolo de todo um período de guerras.

Pode-se pensar, por exemplo, no arco longo usado pelos arqueiros ingleses na Batalha de Agincourt, na Idade Média, ou nos tanques fortemente blindados que protagonizaram os combates terrestres da Segunda Guerra Mundial.

O veículo aéreo não tripulado americano MQ-1 Predator, um tipo de drone armado, tornou-se ícone do conflito de contra-insurgência travado pelos Estados Unidos em países como Afeganistão e Iraque.

Aquele era o período do chamado "momento unipolar" após o fim da Guerra Fria, quando os EUA, diante da dissolução da União Soviética, foram alçados à posição isolada de superpotência global dominante.

O status simbólico dos drones se consolidou quando o Predator – originalmente concebido apenas para reconhecimento aéreo – foi armado com mísseis Hellfire.

Seu sucessor, o Reaper, já foi projetado especificamente para ser um drone assassino ("hunter-killer", na nomenclatura em inglês, traduzido literalmente como "caçador-assassino").

Tem alcance maior que o antecessor e pode carregar um peso maior de munição, sendo capaz de atingir os alvos americanos quando menos esperam. Acredita-se, por exemplo, que drones Reaper tenham sido usados ​​para matar o general iraniano Qasem Soleimani fora do aeroporto de Bagdá em janeiro de 2020.

Por um breve período, apenas Estados Unidos e Israel (com sua própria indústria de drones) foram capazes de realizar essas operações. Pode-se dizer que esta foi a primeira era do drone de combate.

No entanto, as coisas mudaram drasticamente.

Uma nova era de guerra de drones já se iniciou, envolvendo muito mais agentes. E o uso de veículos aéreos não tripulados (UAVs, sigla criada a partir do termo em inglês) passou da guerra de contraterrorismo ou contra-insurgência para o combate convencional em grande escala.

À frente, ainda, uma nova terceira era de guerra de drones acena, à medida que a tecnologia se torna cada vez mais sofisticada e conectada à inteligência artificial.

Os ataques de drones desempenharam um papel fundamental em conflitos recentes, ajudando a reforçar a posição do governo da Etiópia, por exemplo, diante das ações dos rebeldes da Frente de Libertação Popular do Tigray (FLPT).

As armas foram adquiridas da Turquia e do Irã. Também há relatos de que o governo etíope teve acesso aos veículos aéreos não tripulados chineses Wing Loong II através dos Emirados Árabes Unidos.

Destroços de tanque na Etiópia após ataque de drone: arma já tem sido usada em conflitos regionais — Foto: Getty Images via BBC
Destroços de tanque na Etiópia após ataque de drone: arma já tem sido usada em conflitos regionais — Foto: Getty Images via BBC

Os Emirados também forneceram drones de fabricação chinesa para o general Khalifa Haftar, considerado um aliado, que os utilizou na brutal guerra civil da Líbia, conflito que se seguiu à derrubada do ditador Muammar Kadhafi em 2011.

Nesse caso, considera-se que os drones armados tiveram impacto decisivo, contribuindo para a sobrevivência do governo internacionalmente reconhecido em Trípoli. Eles desempenharam papel parecido no conflito de Nagorno-Karabakh no ano passado: os drones fornecidos pela Turquia foram um dos fatores que permitiram às forças do Azerbaijão tomar o controle do enclave disputado com a Armênia.

O 'caçador-assassino': MQ-9 Reaper

MQ-9 Reaper — Foto: Getty Images via BBC
MQ-9 Reaper — Foto: Getty Images via BBC

  • Câmera na ponta dianteira, além de câmeras e sensores acoplados em uma unidade na parte de baixo
  • Parte traseira em formato de "V", para melhorar a estabilidade
  • Munido de míssil ou bomba guiados por GPS ou laser
  • Comprimento: 10,97 metros
  • Altura: 3,66 metros
  • Envergadura: 21,12 metros
  • Velocidade máxima: 463km/h

Ataques de drones muitas vezes levantam complexos dilemas legais e morais. Sua precisão depende da tecnologia em que se baseiam. A esperança de que seu uso possa ser restringido de alguma forma por tratados de controle de armas provou ser ilusória.

Embora os EUA tenham relutado em exportá-los para qualquer um além seus aliados mais próximos, outros não fazem muitas distinções.

Mais de 100 países e grupos não ligados a governos hoje já têm drones.

Nesse sentido, a disseminação de veículos aéreos não tripulados parece um fato dado, diz Paul Scharre, diretor de estudos do Center for a New American Security (Centro para uma Nova Segurança Americana, em tradução literal).

"A China é de longe o principal exportador global de drones armados", pontua. "Mas eles não são acessíveis apenas às principais potências militares. Potências médias como Irã e Turquia têm acesso à tecnologia de drones e estão vendendo sistemas no exterior."

Segundo ele, "a tecnologia comercial de drones está tão amplamente disponível que qualquer um poderia construir um drone de ataque DIY [de "do it yourself", ou faça você mesmo] rústico por algumas centenas de dólares".

"E alguns grupos terroristas o fizeram", completa.

A proliferação, na visão do especialista, não chega a ser surpresa, já que os drones são uma opção barata de incrementar a força aérea dos países.

"Estados e grupos não ligados a governos que não podem comprar caças podem comprar drones. E embora os drones não tenham a mesma capacidade dos caças, eles dão a esses atores acesso a algum tipo de poder aéreo. Combinados com tecnologias digitais que tornam possível a vigilância em alta definição e ataques com precisão, os drones podem ser bastante letais para as forças terrestres."

O uso recente de veículos aéreos não tripulados em conflitos regionais e guerras civis dá um indicativo do papel que os drones podem desempenhar em conflitos armados no futuro.

Em meio a seu envolvimento na guerra da Síria, a Rússia usou os campos de batalha como espaços de testes para a incorporação de drones em sua ordem de batalha de forma mais ampla.

"A frota de drones da Rússia na Síria conduziu missões cruciais de inteligência, vigilância e reconhecimento, conectando alvos identificados com a artilharia russa, sistemas de foguetes de lançamento múltiplo e aeronaves", diz Samuel Bendett, membro da Programa de Estudos sobre a Rússia do Center for Naval Analyses (Centro de Análises Navais), nos EUA.

"Esse conceito está agora redefinindo como os militares russos lutam hoje e como vão combater no futuro, dando às forças uma imagem 24 horas por dia do campo de batalha, algo que os generais não tinham antes."

A guerra civil no leste da Ucrânia (guerra de Donbass, com início em 2014), que, apesar das negativas de Moscou, tem contado com envolvimento militar russo, também dá sinais importantes sobre como os veículos aéreos não tripulados podem vir a ser usados.

Vários tipos de drones de fabricação russa foram abatidos no leste da Ucrânia. Bendett diz que o trabalho de inteligência e o reconhecimento continuam sendo sua missão principal, "mas também têm outro papel importante na guerra eletrônica, com uma classe especial de drones russos adaptados para esse fim".

A guerra eletrônica é caracterizada pelo esforço para localizar forças inimigas pelos sinais que elas enviam e, a partir daí, isolá-las ao bloquear suas comunicações.

Se de um lado a Rússia pode estar algo como uma década atrás dos EUA em termos de sofisticação tecnológica, de outro pode estar à frente em termos de integração de drones em suas unidades de combate.

Os drones militares estão presentes em toda a estrutura da força militar russa, diz Bendett.

"A utilidade desse arranjo foi comprovada em combate com instâncias de unidades blindadas ucranianas. Elas foram rapidamente identificadas, suas comunicações foram interrompidas e fogo de artilharia devastador, dirigido contra elas."

A Ucrânia, por sua vez, também tem acesso a drones turcos armados, tendo-os usado contra separatistas pró-Rússia nos combates de Donbass.

Longe das situações de guerra instaurada, os drones ainda estão sendo usados ​​por grupos insurgentes e de milícias.

Assim, se a ameaça dessas armas é relativamente bem compreendida, por que é tão difícil combatê-la?

"A maioria dos drones em uso hoje são menores que as aeronaves militares tradicionais e requerem diferentes tipos de defesas aéreas", diz Scharre. "Eles voam mais devagar e próximos do solo, e isso significa que muitos sistemas de defesa aérea não são otimizados para derrubá-los."

Muitos países, ele acrescenta, estão trabalhando para desenvolver medidas contra drones. A tendência é que, com o tempo, surjam sistemas de contra-drones mais eficazes. Um desafio, no entanto, será combater ataques em massa, já que drones de baixo custo podem ser construídos em grande número.

No debate mais futurista, fala-se, por exemplo, nos chamados "enxames de drones".

Já vimos ataques de drones em massa, como o realizado em 2018 por rebeldes sírios contra uma base aérea da Rússia, que usava 13 deles. Paul Scharre ressalta, contudo, que um ataque orquestrado de drones não chega a ser um verdadeiro enxame.

"Ele não é tanto definido pelo número de drones em um ataque, mas pela capacidade de eles cooperarem juntos sem qualquer envolvimento humano."

Enxames de drones podem ser usados ​​para ataques simultâneos e multidirecionais de maneiras que podem sobrecarregar as defesas humanas. Com o tempo, ele adverte, isso poderia ter um efeito dramático na transformação da guerra.

*Jonathan Marcus é ex-correspondente de defesa da BBC e professor honorário do Strategy and Security Institute (Instituto de Estratégia e Segurança) da Universidade de Exeter, no Reino Unido.

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sábado, 5 de fevereiro de 2022

Estação Espacial Internacional vai cair na Terra em 2031, diz Nasa

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Plano de aposentar a ISS marca transição para o setor comercial nas atividades na órbita terrestre baixa, de acordo com a agência espacial americana.
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Por BBC

Postado em 05 de fevereiro de 2022 às 09h10m

Post.- N.\ 10.199

Nasa planeja jogar a ISS no Oceano Pacífico em 2031 — Foto: Nasa
Nasa planeja jogar a ISS no Oceano Pacífico em 2031 — Foto: Nasa

A Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) continuará funcionando até 2030, antes de ser lançada no Oceano Pacífico no início de 2031, informou a Nasa.

Em um relatório divulgado nesta semana, a agência espacial americana disse que a ISS cairia em uma parte do oceano conhecida como Ponto Nemo.

Este é o ponto mais distante da costa no planeta Terra, também conhecido como cemitério de naves espaciais. Muitos satélites antigos e outros detritos espaciais caíram lá, incluindo a estação espacial russa Mir em 2001.

A Nasa anunciou que, no futuro, as atividades espaciais próximas à Terra serão lideradas pelo setor comercial.

A ISS — um projeto conjunto envolvendo cinco agências espaciais — está em órbita desde 1998 e tem sido continuamente ocupada por astronautas desde 2000. Mais de 3 mil projetos de pesquisa foram realizados em seu laboratório de microgravidade.

No entanto, ela só tem aprovação para funcionar até 2024 e qualquer prorrogação deve ser acordada por todos os membros.

De acordo com a Nasa, o plano de aposentar a ISS marca uma transição para o setor comercial nas atividades na órbita terrestre baixa — a área do espaço próxima à Terra.

"O setor privado é técnica e financeiramente capaz de desenvolver e operar destinos comerciais na órbita terrestre baixa, com a assistência da Nasa", disse Phil McAlister, diretor de espaço comercial da Nasa.

Em 2020, a Nasa concedeu um contrato à empresa Axiom Space, com sede no Texas, para construir pelo menos um módulo habitável a ser conectado à ISS.

Também forneceu financiamento a três empresas para desenvolver projetos para estações espaciais e outros destinos comerciais em órbita.

A expectativa é de que esses novos projetos estejam em operação pelo menos parcialmente antes de a ISS ser aposentada.

A Nasa afirmou que queria criar uma "economia comercial robusta, liderada pelos americanos, na órbita terrestre baixa".

O setor comercial já é uma parte importante do programa espacial dos EUA, com empresas privadas responsáveis ​​pelo transporte de tripulação e carga. As espaçonaves russas Soyuz e Progress também são usadas.

De acordo com a Nasa, haverá uma economia de US$ 1,3 bilhão ao fazer a transição para o setor privado das atividades na órbita terrestre baixa, dinheiro que pode ser gasto na exploração do espaço profundo.

A economia é esperada porque a Nasa pagará apenas pelos serviços de que precisa, em vez de pela manutenção e operação da ISS.

A agência também destacou que as estações espaciais do setor privado serão mais novas e deverão exigir menos peças de reposição.

A Nasa informou que havia analisado seu orçamento para a ISS anualmente e que continuará refinando suas estimativas de economia.

O relatório de transição publicado pela agência espacial nesta semana foi divulgado após o governo do presidente americano, Joe Biden, anunciar que havia se comprometido a estender as atividades da estação espacial até 2030.

No entanto, a extensão ainda requer o apoio de parceiros internacionais, incluindo a Rússia, e o financiamento para a ISS só está aprovado atualmente pelo Congresso americano até 2024.

Em entrevista à agência de notícias russa Interfax em dezembro de 2021, o chefe do programa espacial da Rússia, Dmitry Rogozin, demonstrou disposição de trabalhar com a Nasa além de 2024.

"As atitudes valem mais do que as palavras", ele disse.

"Neste ano, nós enviamos um novo módulo Nauka para a ISS, que deve durar pelo menos 10 anos."

O chefe da Roscosmos também reclamou que as sanções dos EUA à Rússia estavam prejudicando a indústria espacial do país — e ele havia dito anteriormente que a Rússia poderia encerrar sua participação no programa da ISS se as sanções não fossem suspensas.

Os EUA e seus aliados ocidentais ameaçam impor novas sanções à Rússia se ela invadir a Ucrânia, embora a natureza exata dessas sanções ainda não seja conhecida.

A Rússia também havia dito anteriormente que devido à fadiga estrutural a ISS não seria capaz de funcionar além de 2030 — e alertou que equipamentos ultrapassados poderiam levar a falhas "irreparáveis".

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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

O perigo do mito sobre 'fortalecer' o sistema imunológico

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Por causa da pandemia, estamos todos falando sobre imunidade – mas o quanto realmente entendemos? O escritor de ciência Philipp Dettmer ajuda a esclarecer um dos mitos mais comuns sobre nosso sistema imunológico.
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Por Philipp Dettmer*, BBC — Especial para a BBC News

Postado em 04 de fevereiro de 2022 às 11h20m

Post.- N.\ 10.198

São os anticorpos do nossos sistema imunológico que nos defendem de invasores como o vírus da gripe — Foto: Science Photo Library (via BBC)
São os anticorpos do nossos sistema imunológico que nos defendem de invasores como o vírus da gripe — Foto: Science Photo Library (via BBC)

Devido à pandemia, estamos todos falando sobre imunidade – mas o quanto realmente entendemos? O escritor de ciência Philipp Dettmer ajuda a esclarecer um dos mitos mais comuns sobre o sistema imunológico.

Da próxima vez que você acordar se sentindo mal, pense no exército de soldados lutando contra milhões de inimigos por você, dentro do seu corpo.

Enquanto micro-organismos intrusos atacam centenas de milhares de células do corpo, seu sistema imunológico está organizando uma defesa complexa, se comunicando através de vastas distâncias e gerando uma morte rápida para milhões, ou bilhões, desses invasores. Tudo isso enquanto você está tomando uma ducha, levemente irritado por estar doente. Os sintomas que você está tendo – coriza, febre, dor de garganta, o mal-estar geral – na verdade são o efeito dessa batalha que está acontecendo dentro do seu corpo.

O sistema imunológico é o sistema biológico mais complexo do corpo humano, com exceção do cérebro. E está sendo assunto agora mais do que nunca.

A pandemia introduziu um novo vocabulário em nossas vidas. Falamos sobre imunidade natural em pessoas que se recuperaram de Covid, em imunidade gerada por vacinas, em doses, efeitos colaterais... De repente, esses assuntos se tornaram tão comuns em uma conversa quanto falar sobre o clima.

Mas o fato de a imunidade estar presente com mais frequência em conversa não significa necessariamente que as pessoas saibam mais sobre ela. Vamos dar um exemplo. Talvez o maior equívoco seja a preocupação em obter um sistema imunológico "fortalecido".

A internet está cheia de produtos que prometem fazer exatamente isso: de café misturados com proteína em pó, de raízes místicas da floresta amazônica a pílulas de vitaminas, a lista é interminável.

Mas o que muitas pessoas não entendem é que o sistema imunológico pode ser perigoso. Não é uma coisa que queremos que seja desencadeada dentro de nós sem limites.

Em um mundo onde a autoajuda é um grande negócio, a ideia de "fortalecer" seu sistema imunológico é muito atraente. Mas não é um sistema imunológico forte que queremos, e sim um sistema imunológico equilibrado, que mantém todos os diferentes sistemas sob controle.

Estamos falando de uma coleção complexa e interconectada de centenas de bases e centros de recrutamento em todo o seu corpo. Eles estão conectados por uma superestrada, uma rede de vasos, tão vasta e onipresente quanto seu sistema cardiovascular.

Além de órgãos e infraestrutura, bilhões de células de defesa patrulham essas superestradas, ou sua corrente sanguínea, e estão prontas para enfrentar seus inimigos quando chamadas. Outras bilhões ficam de guarda no tecido do seu corpo que faz fronteira com o exterior, esperando que os invasores passem por elas. Há também trilhões de proteínas que você pode pensar que são como minas terrestres.

Seu sistema imunológico também tem universidades onde as células aprendem contra quem e como lutar, com a maior biblioteca biológica do universo, capaz de identificar e lembrar todos os possíveis invasores que você pode encontrar em sua vida.

O sistema imunológico é essencialmente uma ferramenta para distinguir "o outro", o estranho, do "eu". Não importa se o outro vai prejudicar o seu corpo ou não. Se o estranho não estiver em uma lista de convidados muito exclusiva que concede entrada gratuita, ele deve ser atacado e destruído – porque existe a possibilidade de prejudicá-lo. O que as vacinas fazem, por exemplo, é ajudar no reconhecimento desse inimigo.

Você provavelmente já entendeu a metáfora – é um sistema altamente complexo composto de muitos componentes diferentes. Um sistema imunológico que funciona bem é capaz de dosar a quantidade certa de força necessária para atacar qualquer infecção. Então a ideia de "fortalecer" esse sistema para ele ser mais agressivo é absurda.

Você não quer que o sistema imunológico seja como um jogador de rúgbi batendo nas coisas indiscriminadamente, você precisa que ele seja mais como um dançarino de balé: altamente treinado, preciso, capaz de agir rapidamente, mas dançando em harmonia com a música (o resto do corpo).

Há uma antiga palavra grega – homeostase, o equilíbrio de todas as coisas – que é o que devemos buscar.

É um sistema tão intrincado que muitas coisas podem dar errado se ele for forte demais, se estiver desregulado. Ele pode reagir exageradamente a uma infecção menor.

Esse mal-entendido é em parte resultado de uma imagem mental errada do que o termo significa. As pessoas pensam no sistema como um escudo de energia que você pode carregar. Mas ele não é isso, ele é uma infinidade de coisas ao mesmo tempo.

Na realidade, ninguém sabe quantas células de quais tipos e em que nível de atividade são necessárias para que seu sistema imunológico funcione de maneira ideal. Qualquer um que diga que sabe o que é necessário provavelmente está tentando lhe vender alguma coisa.

Pelo menos por enquanto, não há maneiras cientificamente comprovadas de tornar seu sistema imunológico mais agressivo por meio de um superalimento ou pílula. E, se houvesse, seria muito perigoso usá-los sem supervisão médica.

As pessoas preferem soluções fáceis e rápidas, mas a saúde depende de coisas muito chatas que as pessoas não querem ouvir. Exercício, uma dieta equilibrada e estresse reduzido. Todos sabemos que essas coisas são boas para nós, mas não queremos fazê-las.

O mais importante é ter uma dieta que forneça todas as vitaminas e nutrientes que seu corpo precisa, ingerindo frutas e legumes. Seu sistema imunológico constantemente produz muitos bilhões de novas células e elas precisam ser alimentadas.

Os efeitos positivos do exercício regular moderado para a saúde são conhecidos há muito tempo. A boa circulação permite que suas células e proteínas imunológicas se movam com mais eficiência e liberdade, o que as faz fazer seu trabalho melhor. O exercício também pode retardar seu declínio na velhice.

Levar uma vida menos estressante traz benefícios tangíveis à nossa saúde de várias maneiras, e uma delas é o sistema imunológico. Sem entrar em muitos detalhes, o estresse pode desencadear série de eventos que atrapalham o trabalho e o equilíbrio desse sistema.

Então, por que algumas pessoas parecem ter resfriados e gripes mais do que outras? Há três razões para isso.

A realidade é que não somos iguais. As escolhas de estilo de vida importam. Talvez você fume ou não coma tão bem quanto os outros. Talvez você tenha um trabalho muito estressante ou um trabalho que o exponha mais aos vírus, ou talvez você simplesmente seja sedentário.

E há genética. Todo mundo é um pouco diferente. Uma pessoa pode ser melhor no combate a vírus e outra no combate às bactérias.

E, em terceiro lugar, há a percepção. Todo mundo afirma conhecer alguém que diz que nunca fica doente, mas isso não é verdade.

Então, talvez da próxima vez que você acordar com o nariz escorrendo ou um pouco suado, pense no exército de ajudantes que o mantém vivo. E em vez de se sentir azarado, sinta-se agradecido.

*Philipp Dettmer é autor do novo livro IMMUNE (imune, sem edição em português) e criador do canal Kurzgesagt, um dos canais de ciência mais populares do YouTube.

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