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segunda-feira, 4 de outubro de 2021

'Uchuu', a simulação mais exata e completa do universo que te permite 'viajar no tempo'

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Cientistas do Japão, Espanha e outros países recriaram a evolução do universo com um supercomputador. E eles disponibilizaram o programa gratuitamente para todos os usuários interessados.
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Por BBC

Postado em 04 de outubro de 2021 às 13h35m


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Uchuu nos permite visualizar a matéria escura e como ela é distribuída, por exemplo, em um objeto supermassivo como um grande aglomerado de galáxias (skiesanduniverses.org) — Foto: IAA-CSIC via BBC
Uchuu nos permite visualizar a matéria escura e como ela é distribuída, por exemplo, em um objeto supermassivo como um grande aglomerado de galáxias (skiesanduniverses.org) — Foto: IAA-CSIC via BBC

Uma equipe internacional de pesquisadores não apenas criou um universo virtual inteiro. Ela também o tornou disponível gratuitamente para todos com acesso à Internet.

Uchuu, termo que significa universo em japonês, é a simulação mais realista do cosmos feita até hoje.

O projeto foi desenvolvido pelo Observatório Astronômico Nacional do Japão (NAOJ) em colaboração com o Instituto de Astrofísica de Andalucía (IAA-CSIC), o Centro de Supercomputación de Galicia (CESGA) e a rede acadêmica e de pesquisa espanhola RedIRIS.

Outros grupos de pesquisa do Japão, EUA, Argentina, Austrália, Chile, França e Itália também participam da iniciativa.

A simulação nos permitirá estudar a evolução do universo com um nível de detalhe e informação sem precedentes, praticamente desde depois do Big Bang até o presente.

"Uchuu visa basicamente recriar como o universo se formou, toda a estrutura, tudo o que vemos desde quando o universo estava apenas em sua infância e tinha 400 mil anos", disse o cosmólogo Francisco Prada, professor do Conselho Superior de Pesquisa Científica da Espanha (CSICdo Instituto de Astrofísica da Andaluzia (IAA) à BBC News Mundo (serviço de notícias em espanhol da BBC).

"Conseguimos, com um supercomputador intensamente dedicado ao projeto, recriar toda a física envolvida, basicamente todas as equações da gravidade de Einstein e os componentes energéticos e materiais do universo, bem como todos os processos envolvidos numericamente."

A simulação, que já está disponível na nuvem do CESGA, permitirá aos cientistas focar em diferentes momentos da história do universo e facilitará a compreensão de fenômenos como a evolução das galáxias e a formação de buracos negros.

Supercomputador

A simulação foi possibilitada pelo supercomputador ATERUI II, o mais poderoso dedicado exclusivamente à astrofísica, que pertence ao Observatório Astronômico Nacional do Japão.

"Outros grandes computadores como o Mare Nostrum em Barcelona podem ter muito mais processadores. Mas a vantagem do ATERUI é que ele se dedica a poucos projetos em astrofísica", diz Prada.

"E isso permite que você tenha uso exclusivo por muito tempo para poder fazer uma simulação como essa, que de outra forma seria impossível. Tivemos a sorte de usar o ATERUI por um ano inteiro 48 horas todos os meses exclusivamente. Este é um enorme privilégio."

ATERUI II é o computador mais poderoso do mundo dedicado exclusivamente à astrofísica — Foto: NAOJ via BBC
ATERUI II é o computador mais poderoso do mundo dedicado exclusivamente à astrofísica — Foto: NAOJ via BBC

Tomoaki Ishiyama, da Chiba University no Japão, foi o responsável pelo desenvolvimento e execução do código que criou a simulação.

O resultado "são três petabytes de dados, o equivalente a quase um milhão de fotos de um telefone móvel de 12 megapixels", disse Ishiyama, segundo a agência EFE.

A simulação consiste em 2,1 bilhões de partículas em um cubo virtual de 9,6 bilhões de anos-luz de lado, uma dimensão comparável à metade da distância que existe entre a Terra e as galáxias mais distantes observadas, diz o CSIC.

Todos os dados para análise estão guardados no CESGA, centro misto do CSIC e da Junta de Galicia, podendo também ser descarregados online através do servidor IAA.

Evolução da galáxia

Uchuu permitirá aos cientistas estudar detalhadamente diferentes momentos e cenários da história do universo, ao longo de mais de 13 bilhões de anos.

"Pela primeira vez podemos estudar na mesma simulação tanto objetos muito pequenos quanto objetos enormes, tanto galáxias com massas menores que nossa Via Láctea quanto aglomerados de galáxias muito grandes, ou mesmo vazios enormes, mantendo a mesma resolução. Isso não havia sido possível ainda em uma mesma simulação."

"É como se em outra simulação você pudesse estudar apenas carros. Mas com nossa simulação nós conseguimos estudar de um skate até um avião ou um superpetroleiro, e também poderíamos ver como todos esses objetos estão distribuídos tanto em uma planície ou no Himalaia ou nas águas do oceano, em ambientes muito diferentes de densidade da matéria."

"As galáxias do universo estão distribuídas no que chamamos de estrutura de grande escala: existem grandes vazios, onde existem muito poucas galáxias, existem filamentos, existem grupos como a Via Láctea e Andrômeda e depois existem grandes objetos que são mil vezes mais massivos do que a nossa Via Láctea."

A simulação permite ver, por exemplo, como pequenas galáxias se agregam (se fundem) ao longo da história e formam outras maiores, algo chamado de formação hierárquica da estrutura do universo, explica Prada.

"Foi assim que a Via Láctea se formou. Ela vem 'comendo' muitos objetos minúsculos e isso faz parte da história da formação da galáxia."

A simulação também permitiria estudar a colisão de duas galáxias que possuem buracos negros muito massivos que podem produzir ondas gravitacionais.

"Galáxias massivas como a Via Láctea têm um buraco negro. É essencial entender o crescimento dessas estruturas porque isso também tem relação com a taxa de acréscimo de matéria dos buracos negros, como eles se formam."

Ao fundo você pode ver toda a distribuição da matéria no universo. Fazendo um zoom, é possível ver em detalhes um aglomerado de galáxias que tem mil vezes a massa da Via Láctea. E com zoom ainda maior, se vê pequenas galáxias orbitando ao redor de um objeto mais massivo (skiesanduniverses.org) — Foto: IAA-CSIC via BBC
Ao fundo você pode ver toda a distribuição da matéria no universo. Fazendo um zoom, é possível ver em detalhes um aglomerado de galáxias que tem mil vezes a massa da Via Láctea. E com zoom ainda maior, se vê pequenas galáxias orbitando ao redor de um objeto mais massivo (skiesanduniverses.org) — Foto: IAA-CSIC via BBC

'Óculos de matéria escura'

Uma característica fundamental sobre o Uchuu é que ele incorpora não apenas matéria visível, mas também a misteriosa matéria escura e energia escura.

A matéria comum, composta de átomos, representa menos de 5% da energia total do universo.

A matéria escura, uma forma de matéria que não interage com a luz e só é detectável por seus efeitos gravitacionais, representa cerca de 25%. O resto, 70%, é o que os cientistas chamam de energia escura.

Na visualização Uchuu disponível no YouTube, por exemplo, se enxerga a matéria escura e como ela se distribui em um objeto supermassivo, como poderia ser um grande aglomerado de galáxias.

"Nossa simulação tem todos os ingredientes, todos os parâmetros que conhecemos hoje nas proporções certas", disse Prada.

As imagens do Uchuu são equivalentes a "colocar óculos especiais" para visualizar a matéria escura.

"Houve um momento na história do universo em que a gravidade teve que competir com a energia escura porque, se você tivesse apenas a gravidade, toda a matéria começaria a entrar em colapso."

"No entanto, chega um momento na história do universo em que essa energia escura começa a dominar que não sabemos o que é, mas sabemos em termos práticos que é como uma força repulsiva, como uma pressão contra a gravidade,", explicou Prada para a BBC News Mundo.

"Um dos grandes desafios para Uchuu é que por ter simulado toda a estrutura do universo e ser capaz de comparar todas as estatísticas que observamos — por exemplo, quantos grandes aglomerados de galáxias temos, quantos grandes vazios, como o as galáxias estão agrupadas —, poderemos interpretar melhor a natureza da energia escura e da matéria escura, que até hoje não sabemos o que é."

"Entende-se que a matéria escura é uma partícula elementar, mas não sabemos o que é. E a energia escura não se tem nem ideia dela, entende-se que o universo está se expandindo rapidamente no momento mais tardio, mas não sabemos o que causa essa expansão acelerada."

Diferentes instantes da história do Universo — Foto: IAA-CSIC via BBC
Diferentes instantes da história do Universo — Foto: IAA-CSIC via BBC

Francisco Prada explica: "Esta imagem mostra quatro instantes da história do universo, o presente está abaixo e o passado está acima. E as três colunas correspondem a diferentes regiões do universo".

"Por exemplo, o da direita é muito interessante porque mostra o processo de formação de um grande vazio."

"Se formos para o presente, você verá que a densidade de galáxias lá é muito baixa, existem grandes regiões que têm um déficit, um vácuo de galáxias, então podemos voltar no tempo e ver como isso se formou."

"Na primeira coluna você vê um objeto semelhante à Via Láctea; é como se colocássemos óculos no céu e víssemos matéria escura."

"Se em vez disso eu der a vocês uma imagem do que só pode ser visto pelo telescópio, seria uma bela galáxia como as das imagens do Hubble, mas vemos toda a matéria escura, porque em nossa própria galáxia deve haver milhares de pequenos objetos que são matéria escura."

"E no meio você vê um aglomerado de galáxias que é um objeto mil vezes mais massivo."

Da Argentina e do Chile

A cientista Sofía Alejandra Cora, do Instituto de Astrofísica de La Plata, da Argentina, também participa do projeto Uchuu.

Cora é pesquisadora independente do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica (Conicet) e professora associada da Faculdade de Ciências Astronômicas e Geofísicas da Universidade Nacional de La Plata.

"O principal objetivo da minha participação neste projeto é gerar um catálogo de galáxias a partir dos dados da simulação de Uchuu, que considera apenas matéria escura."

"Para fazer isso, as informações sobre as propriedades dos halos de matéria escura e a forma como eles crescem e se fundem ao longo do tempo são tomadas como base", ela explicou à BBC News Mundo.

"E um modelo semi-analítico de formação e evolução de galáxias é aplicado, levando em consideração vários processos físicos que determinam as propriedades das galáxias", continuou ele.

"Um modelo semi-analítico consiste em um conjunto de receitas analíticas simples que modelam diferentes processos físicos que afetam o gás e as estrelas que constituem uma galáxia."

"A versão mais recente do modelo usado por nosso grupo de trabalho na Argentina está descrita em um artigo nos Montlhy Notices da Royal Astronomical Society. Esta tarefa está em desenvolvimento."

'Pela primeira vez, podemos estudar objetos muito pequenos e objetos muito grandes na mesma simulação, mantendo a mesma resolução', diz Prada. (skiesanduniverses.org) — Foto: IAA-CSIC via BBC
'Pela primeira vez, podemos estudar objetos muito pequenos e objetos muito grandes na mesma simulação, mantendo a mesma resolução', diz Prada. (skiesanduniverses.org) — Foto: IAA-CSIC via BBC

Cristian Vega Martínez, pesquisador do Departamento de Astronomia e do Instituto de Pesquisa Multidisciplinar em Ciência e Tecnologia da Universidade de La Serena (ULS), no Chile, também participa do projeto.

"Um dos grandes desafios do Uchuu foi administrar e publicar a grande quantidade de dados que uma simulação desta categoria pode produzir".

"Este tipo de simulação pode facilmente gerar centenas de terabytes", disse Vega à BBC News Mundo.

"Portanto, estamos trabalhando ativamente para projetar as técnicas para manipular esses dados, fornecer uma maneira direta de compartilhá-los e fornecer ferramentas para seu uso."

Ele contribui com sua experiência na área de formação de galáxias e simulações de evolução, e seu conhecimento de computação de alto rendimento.

"Os dados publicados devem ser fornecidos de uma forma que possa ser útil para a comunidade", diz.

"Simulações desse tipo, que permitem modelar grandes volumes do universo (que simulam as estruturas que definem onde as galáxias se formam), são necessárias para poder contrastar nossas teorias físicas de formação de galáxias e da evolução do universo , com os resultados de grandes experimentos modernos (telescópios) ".

"É uma imagem do objeto de maior massa que temos na simulação de Uchuu. Você vê a distribuição da matéria escura neste objeto que corresponde a um enorme aglomerado de galáxias", diz Prada — Foto: IAA-CSIC via BBC
"É uma imagem do objeto de maior massa que temos na simulação de Uchuu. Você vê a distribuição da matéria escura neste objeto que corresponde a um enorme aglomerado de galáxias", diz Prada — Foto: IAA-CSIC via BBC

'Dar acesso a outras pessoas'

Para Francisco Prada, um dos principais motivos da importância do Uchuu é a sua disponibilidade gratuita.

"Como cientista, eu acredito na responsabilidade de dar acesso a outros cientistas que não têm a possibilidade de fazer essas simulações para que eles possam fazer ciência de alto nível, de última geração", disse.

"Tornamos isso público para todos os cientistas do mundo, e não apenas para os cientistas, mas também para todas as pessoas que possuem a Internet."

"E também na Galícia temos os dados, para que as pessoas possam entrar lá e fazer a análise dos dados sem precisar fazer download em casa. Por isso também disponibilizamos a capacidade informática, porque normalmente essa capacidade informática não está disponível a qualquer um."

A simulação, análise e divulgação pública dos dados foram financiadas por instituições públicas no Japão e na Espanha.

"O custo deste projeto é muito alto e há poucos grupos no mundo que podem fazer este projeto."

"Estamos na era do Big Data, onde o que Uchuu gerou é muito maior do que a quantidade de dados armazenados pelo YouTube, Amazon e Google juntos."

"Conseguimos realmente disponibilizar gratuitamente a pesquisa de pontapara a sociedade e os cientistas, isso é o que considero muito animador."

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Nobel de Medicina 2021 vai para David Julius e Ardem Patapoutian por descobertas sobre temperatura e toque

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Vencedores dividirão o prêmio, que totaliza 10 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,1 milhões). As láureas em Física, Química, Literatura e Paz serão entregues ao longo da semana; já a de Economia será divulgada na próxima segunda (11).
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Por Lara Pinheiro, g1

Postado em 04 de outubro de 2021 às 09h40m


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Nobel de Medicina 2021 vai para David Julius e Ardem Patapoutian
Nobel de Medicina 2021 vai para David Julius e Ardem Patapoutian

David Julius e Ardem Patapoutian são os ganhadores do Prêmio Nobel 2021 em Medicina, anunciou a Academia Real das Ciências da Suécia nesta segunda-feira (4), por descobertas sobre receptores de temperatura e toque no corpo humano.

As descobertas explicaram como o calor, o frio e o toque podem iniciar sinais em nosso sistema nervoso. "Os canais identificados são importantes para muitos processos fisiológicos e condições de doença", afirmou o comitê.

O conhecimento está sendo usado para desenvolver tratamentos para uma série de doenças, incluindo dores crônicas.

  • David Julius utilizou a capsaicina, um composto da pimenta malagueta que induz uma sensação de queimação, para identificar um sensor nas terminações nervosas da pele que responde ao calor.
  • Ardem Patapoutian usou células sensíveis à pressão para descobrir uma nova classe de sensores que respondem a estímulos mecânicos na pele e órgãos internos.

Os vencedores dividirão o prêmio, que totaliza 10 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6,1 milhões).

David Julius e Ardem Patapoutian  — Foto: Reprodução/Twitter Nobel Prize
David Julius e Ardem Patapoutian — Foto: Reprodução/Twitter Nobel Prize

Ao entregar o prêmio, a Academia ponderou que "essas descobertas revolucionárias lançaram atividades de pesquisa intensas, levando a um rápido aumento em nossa compreensão de como nosso sistema nervoso sente o calor, o frio e os estímulos mecânicos. Os laureados identificaram elos essenciais que faltavam em nossa compreensão da complexa interação entre nossos sentidos e o meio ambiente".

David Julius e Ardem Patapoutian, vencedores do Nobel de Medicina 2021, por descobertas sobre temperatura e toque — Foto: Jonathan NACKSTRAND / AFP
David Julius e Ardem Patapoutian, vencedores do Nobel de Medicina 2021, por descobertas sobre temperatura e toque — Foto: Jonathan NACKSTRAND / AFP

David Julius, um dos vencedores do Nobel de Medicina de 2021, em foto de 3 de novembro de 2019 no NASA Ames Research Center. Ele ganhou o Nobel junto com o o também norte-americano Ardem Patapoutian. — Foto: Peter Barreras/Invision/AP
David Julius, um dos vencedores do Nobel de Medicina de 2021, em foto de 3 de novembro de 2019 no NASA Ames Research Center. Ele ganhou o Nobel junto com o o também norte-americano Ardem Patapoutian. — Foto: Peter Barreras/Invision/AP

  • Ardem Patapoutian nasceu em 1967 em Beirute, no Líbano. Recebeu o doutorado em 1996, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech) em Pasadena, EUA, e foi pesquisador de pós-doutorado na Universidade da Califórnia em San Francisco. É cientista e professor na Scripps Research, Califórnia, e pesquisador do Instituto Médico Howard Hughes, em Maryland, desde 2014.

O comitê do prêmio divulgou, em um tuíte, uma foto de Patapoutian com o filho, Luca, assistindo à cerimônia de premiação logo após saber que tinha ganhado o Nobel:

No ano passado, o prêmio de Medicina foi para três cientistas, pela descoberta do vírus da hepatite C.

A láurea em Medicina é sempre a primeira a ser anunciada. Os prêmios em Física, Química, Literatura e Paz serão entregues ao longo da semana; já a láurea em Economia será divulgada na próxima segunda (11). Veja o cronograma:

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domingo, 3 de outubro de 2021

Como nosso cérebro pode nos deixar mais pobres (e o que fazer para evitar)

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Estudos têm mostrado que tomamos decisões irracionais que prejudicam nossa saúde financeira com frequência. Entenda quais são os erros mais comuns e como evitar essas 'armadilhas' mentais.
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TOPO
Por João da Mata, BBC

Postado em 03 de outubro de 2021 às 13h15m


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Estudos têm mostrado que tomamos decisões irracionais que prejudicam nossa saúde financeira com frequência — Foto: Getty Images via BBC
Estudos têm mostrado que tomamos decisões irracionais que prejudicam nossa saúde financeira com frequência — Foto: Getty Images via BBC

Você está navegando em uma loja online e fica tentado a comprar um produto.

É um pouco mais caro do que a sua conta bancária permite, mas se torna a coisa mais urgente do mundo naquele momento. E se o preço aumentar e você perder a oportunidade? E se esgotar?

Tomado pelo impulso, você faz as contas de cabeça e decide comprar. Não precisa nem colocar o número de cartão, que já está salvo no navegador.

Dias depois, vem o arrependimento. Ou pior, o endividamento.

Nos últimos anos, estudos nas áreas de economia comportamental e neuroeconomia têm mostrado que essas situações - em que tomamos decisões irracionais que prejudicam nossa saúde financeira - acontecem com frequência.

Mas quais são os nossos erros econômicos mais comuns? E como não cair nas "armadilhas" do nosso cérebro?

Uma boa maneira é entender o que essas áreas de estudo têm descoberto e aplicar os ensinamentos no nosso dia a dia.

Você é racional?

Não faça nada por impulso sem antes avaliar se a culpa não vai estragar a festa, aconselha neurocientista — Foto: Getty Images via BBC
Não faça nada por impulso sem antes avaliar se a culpa não vai estragar a festa, aconselha neurocientista — Foto: Getty Images via BBC

"A economia tradicional olhou por muito tempo para o indivíduo como alguém racional, frio e objetivo e que vai querer maximizar o seu bem-estar, seu lucro, seu ganho financeiro e interesse próprio", afirma a professora Renata Taveiros, coordenadora do Curso de extensão em neurociência e neuroeconomia na FIA.

As tomadas de decisão inconsistentes, que fogem da racionalidade, eram consideradas anomalias. Ou seja, não viravam objeto de estudos.

Mas no final dos anos 70, um grupo de pesquisadores revolucionou a economia ao olhar justamente para essas anomalias.

Surgia o campo da economia comportamental, cujo maior nome é o psicólogo - isso mesmo, um psicólogo - Daniel Kahneman, vencedor do prêmio Nobel em 2002.

"Eles abrem esse espaço de conversa para que a gente possa perceber que tem outras coisas que influenciam a tomada de decisão, e não só a ideia de maximização da utilidade, do bem-estar e do lucro. Que coisas são essas? As emoções", explica Renata.

No final dos anos 1980, outro campo de estudos vai ainda mais fundo.

Unindo as descobertas da economia comportamental e as técnicas da neurociência, a neuroeconomia tenta desvendar o que acontece no cérebro dos indivíduos na hora que ele decide fazer uma compra desnecessária, por exemplo.

"Agora a gente tem a possibilidade de abrir a caixa preta, que é como os economistas se referiam à mente das pessoas. Você consegue de fato olhar e entender o que vai acontecendo no processamento cerebral na hora que o indivíduo vai tomar uma decisão", diz Renata.

"Quando você estuda neuroeconomia, cai por terra a ideia de que podemos controlar o comportamento, a tomada de decisão, tudo o que fazemos. Porque o motivador da tomada de decisão não é o aspecto racional, cortical, lógico e analítico. Ele está muito mais ligado à emocionalidade."

Aprenda a dizer 'não' a si próprio

Antes de tudo, é bom deixar claro que os afetos e emoções não são necessariamente ruins. Pelo contrário, são de suma importância para nossa sobrevivência.

"A seleção natural nos trouxe a combinação do afeto com a razão. E não foi à toa. Isso maximiza nosso acoplamento com o mundo. Quando a gente tira emoção, a gente tira empatia pelo outro. Nossas decisões se tornam mais egoístas, e a sociedade como um todo desfalece", diz o neurocientista Álvaro Machado Dias, da USP.

Mas é fato que emoções também podem nos levar a cometer erros graves, que levam ao sentimento de culpa e ao endividamento.

É nesse sentido que os ensinamentos economia comportamental e a neuroeconomia podem nos ser úteis: tornar nossa irracionalidade previsível e evitar decisões ruins.

A primeira dica parece simples, mas na prática é bem difícil. Você deve aprender a dizer não para si mesmo.

"Não faça nada por impulso sem antes avaliar se a culpa não vai estragar a festa. Entenda melhor seu 'eu futuro', com suas agendas e cobranças. Dizer não para si é como dizer não para um filho: é difícil, mas pode ser engrandecedor", aconselha Álvaro.

  • Segundo Renata Taveiros Saboia, um dos motivos que tornam tão difícil essa negação dos próprios impulsos é a facilidade cada vez maior de fazer pagamentos. QR Codes, Pix, cartões de crédito que ficam salvos em sites de compras são alguns exemplos.
Com as decisões financeiras ruins, vem o endividamento — Foto: Getty Images via BBC
Com as decisões financeiras ruins, vem o endividamento — Foto: Getty Images via BBC 

Além disso, o neurotransmissor chamado dopamina, que ativa o chamado "sistema de recompensa" do cérebro, também pode atrapalhar.

"Quando a dopamina está trabalhando, ela estimula o comportamento impulsivo. Como funciona? Você tem lá uma expectativa de ganhar algo. Pode ser dinheiro, bem-estar, prazer, uma imagem bacana diante dos outros, etc. E esse comportamento impulsivo te faz querer imediatamente aquela recompensa", explica.

Um exemplo de como esse sistema de recompensa é explorado atualmente é a gamificação do consumo. Ou seja, a transformação do ato de comprar em um jogo.

Aplicativos de supermercados e lojas online prometem recompensas (descontos, produtos grátis, etc.) ao se atingir um determinado número de pontos, por exemplo.

No Brasil, esse tipo de decisão ruim pode ser identificada nos nossos altos níveis de endividamento, diz Renata.

Um estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), de agosto de 2021, aponta que um em cada quatro brasileiros (25,6%) não conseguia quitar as dívidas no prazo naquele mês.

"A gente tem problemas muito sérios no Brasil, e todo esse estímulo para consumo que estimula o comportamento impulsivo piora ainda mais essas condições", diz a neuroeconomista.

Por isso, uma dica de ouro para evitar esse tipo de decisão impulsiva é sempre "dar uma volta a mais".

"Eu costumo colocar um adesivo no cartão de crédito dos clientes dizendo 'dê mais uma volta, espere mais um pouco, respire'. Quando a pessoa vai fazer outra coisa e volta, a dopamina baixa, já que é uma substância química que tem efeito por um tempo determinado. Logo, a sensação de 'quero, quero' vai passar e ela chegará à conclusão que pode usar esse dinheiro para outra coisa. Mas tem que ser depois, na hora não dá", explica.

Não faça contas de cabeça

Só que essas decisões ruins podem ser evitadas antes mesmo da compra. Renata Taveiros explica que quando você tem a exata noção de como anda a sua vida financeira, é mais difícil ficar endividado.

"É muito importante a pessoa ter coragem e saber que vai ser muito bom se aproximar da vida financeira e olhar as contas. Muitos dizem que é difícil, mas depois que você faz isso, vem uma sensação de alívio. Se você tiver medo de olhar, vai cair em todo tipo de armadilhas mentais.", diz ela.

Uma dessas armadilhas é a "contabilidade mental" - aquela mania de fazer contas de cabeça, na maioria das vezes erradas, sobre a nossa situação financeira.

Não faça as contas de cabeça, coloque seus gastos na ponta do lápis — Foto: Getty Images via BBC
Não faça as contas de cabeça, coloque seus gastos na ponta do lápis — Foto: Getty Images via BBC

"A gente faz contas de caixinha. 'Eu ganho 100, então eu posso gastar 50 no supermercado, 20 no barzinho, só 10 no lanche, também posso ter uma parcela mensal de 15...'. Você compara 15 com 100, 10 com 100, mas não soma tudo. Depois, leva um susto e vê que está no vermelho", alerta a neuroeconomista.

Ou seja, coloque seus gastos na ponta do lápis. Some todos os seus ganhos e os seus custos de vida. Só assim você terá a real noção de quanto dinheiro pode gastar.

Cuide do seu 'eu futuro'

Uma das decisões mais importantes que precisamos tomar, pensando no nosso futuro, é a de guardar dinheiro.

É claro que o contexto da economia brasileira - com desemprego, informalidade e inflação em alta - torna isso proibitivo para muita gente.

Mas por que é tão difícil fazer isso mesmo quando há condições?

Um efeito conhecido como "desconto intertemporal" na economia comportamental pode explicar:

"Imagina que você pega um binóculo e vira ao contrário. O que acontece? O que tá lá longe fica pequenino. E o que está perto ganha um valor, um tamanho gigante", explica Renata Taveiros.

"A gente quer a recompensa imediata, agora, já, porque ela aparenta ser muito maior do que uma recompensa que é muito misteriosa, que você não sabe o que vai acontecer, lá no futuro."

Estudos neuroeconômicos mostram que algumas áreas do cérebro acionadas quando você pensa em guardar dinheiro para o seu futuro são as mesmas de quando você pensa em dar dinheiro para um estranho.

O que pode significar que, para o nosso cérebro, guardar dinheiro para o Eu futuro e dar a mesma quantia para outra pessoa é quase a mesma coisa.

Segundo Renata Taveiros de Saboia, uma solução pode ser criar um "nudge", ou seja, um empurrãozinho para que você pense com mais carinho no seu futuro.

"Uma ideia que eu costumo aplicar é usar um desses aplicativos que te deixam mais velho em uma foto. Isso te faz se conectar com aquela imagem. Aí você deve fazer o exercício de pensar o que quer para a vida daquela outra pessoa. Assim, vai criar um circuito neural que conecta o seu eu do futuro com o seu eu de hoje", diz ela.

Aprenda também a dizer 'sim' a si próprio

Mas o neurocientista Álvaro Machado Dias faz um alerta. Ainda que seja importante guardar dinheiro, é necessário também saber se permitir.

"Não assuma que se permitir é sempre ruim e nem caia na falácia de que devemos adiar continuamente o prazer para um dia poder usufruir do mesmo em intensidades maiores. Hoje, o que vemos é um mar de gente sem tesão de viver. Saia deste mar", diz ele.

De acordo com Álvaro, nem todas as decisões que tomamos na vida, sejam elas econômicas ou não, podem ser realizadas de maneira puramente racional - e nem é desejável que isso aconteça.

"Às vezes a gente é tomado por componentes emocionais, e de fato isso pode gerar desfechos ruins, inclusive arrependimento", diz ele.

"Mas a entrada em jogo desses componentes que não são formalistas, lógicos, é o que no final das contas torna as nossas decisões melhores para o grupo, espécie e cultura como um tudo", completa.

Por isso, a dica é saber alocar melhor as suas energias e preocupações:

"Não dá tempo - nem faz qualquer sentido - tentar otimizar todas as decisões. Escolha as suas batalhas. Foque nas escolhas que mais importam; são elas que, ao fim e ao cabo, definirão quem você é".

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