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sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

As 'joias da coroa' que britânicos saquearam da África e agora devolvem como empréstimo

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Tesouros levados há 150 anos de Gana retornarão ao país, num empréstimo que pode servir de modelo para retornar ao país de origem, ainda que temporariamente, peças cuja posse é alvo de disputa.
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TOPO
Por BBC

Postado em 26 de janeiro de 2024 às 09h10m

#.*Post. - N.\ 11.090*.#

Um chapéu cerimonial usado por cortesãos em coroações está entre os itens que serão enviados como empréstimo a Gana — Foto: BRITISH MUSEUM via BBC
Um chapéu cerimonial usado por cortesãos em coroações está entre os itens que serão enviados como empréstimo a Gana — Foto: BRITISH MUSEUM via BBC

O Reino Unido vai enviar a Gana algumas das "joias da coroa" do país, 150 anos após saqueá-las da corte do rei Asante.

Um cachimbo da paz de ouro está entre os 32 itens que retornarão a Gana sob acordos de empréstimo de longo prazo, revela a BBC.

Serão 17 peças do Victoria & Albert Museum (V&A) e outras 15 do Museu Britânico.

O negociador-chefe de Gana disse esperar "um novo senso de cooperação cultural" após gerações de hostilidade.

Alguns museus nacionais no Reino Unido, como o V&A e o Museu Britânico, são proibidos por lei de devolver permanentemente itens de suas coleções que sejam alvo de contestação, e acordos de empréstimo como esse são vistos como uma forma de permitir que os objetos retornem a seus países de origem.

Alguns dos países que reivindicam artefatos disputados temem, porém, que empréstimos possam ser usados para sugerir reconhecimento de propriedade do Reino Unido.

Tristram Hunt, diretor do V&A, disse à BBC que os itens de ouro das joias da corte são o equivalente às britânicas "joias da Coroa".

Entre os itens que estão sendo emprestados, a maioria levada durante as guerras do século 19 entre britânicos e os Asante, estão uma espada de Estado e emblemas de ouro usados por funcionários encarregados de limpar a alma do rei.

O V&A vai enviar 17 itens, entre eles um anel de ouro Asante, um distintivo de ouro usado pelos “lavadores de alma” do rei e um cachimbo cerimonial — Foto: V&A via BBC
O V&A vai enviar 17 itens, entre eles um anel de ouro Asante, um distintivo de ouro usado pelos “lavadores de alma” do rei e um cachimbo cerimonial — Foto: V&A via BBC

Hunt diz que quando os museus detêm "objetos com origens em guerra e saques em campanhas militares, temos responsabilidade com os países de origem de pensar em como podemos compartilhá-los hoje de forma mais justa".

"Não me parece que todos os nossos museus cairão se construirmos esse tipo de parceria e intercâmbio.

Hunt enfatiza, no entanto, que a nova parceria cultural "não é restituição pela porta dos fundos", o que significa que não é uma maneira de devolver a propriedade permanente a Gana.

Os contratos de empréstimo de três anos, com opção de prorrogar por mais três, não são firmados com o governo de Gana, mas sim com Otumfo Osei Tutu II, o atual rei Asante conhecido como Asantehene, que participou da Coroação do Rei Charles em 2023.

Asantehene tem um influente papel cerimonial, embora seu reino agora seja parte da democracia moderna de Gana.

Os itens serão expostos no Museu do Palácio Manhyia em Kumasi, capital da região de Asante, para celebrar o jubileu de prata do Asantehene.

Os artefatos de ouro Asante são o símbolo maior do governo real Asante e acredita-se que sejam dotados dos espíritos dos antigos reis Asante.

Eles têm uma importância para Gana comparável aos Bronzes de Benin, as milhares de esculturas e placas saqueadas do palácio do Reino de Benin, no atual sul da Nigéria, pela Grã-Bretanha. A Nigéria vem pedindo o retorno dos itens há décadas.

"Eles não são apenas objetos, eles também têm importância espiritual. Fazem parte da alma da nação. São pedaços de nós que estão retornando", disse à BBC Nana Oforiatta Ayim, conselheira especial do ministro da cultura de Gana.

Ela diz que o empréstimo foi "um bom ponto de partida" no aniversário do saque e "um sinal de algum tipo de cura e reconhecimento da violência que aconteceu.

Os museus do Reino Unido possuem muitos outros itens levados de Gana, entre eles uma cabeça de troféu de ouro que está entre as peças mais famosas entre as joias Asante.

Os Asante construíram o que já foi um dos estados mais poderosos e impressionantes da África Ocidental, negociando, entre outras coisas, ouro, têxteis e pessoas escravizadas.

O reino era famoso pelo seu poder militar e riqueza. Mesmo hoje em dia, quando o Asantehene aperta mãos em cerimônias oficiais, ele pode estar com pulseiras de ouro tão pesadas que precisa da ajuda de um assessor cujo trabalho é apoiar seu braço.

Os europeus foram atraídos para o que mais tarde chamaram de Costa de Ouro pelas histórias da riqueza africana, e a Grã-Bretanha travou repetidas batalhas com os Asante no século 19.

Em 1874, após um ataque Asante, as tropas britânicas lançaram uma "expedição punitiva", na língua colonial da época, saqueando Kumasi e tomando muitos dos tesouros do palácio.

A maioria dos itens que o V&A vai retornar sob empréstimo foram comprados em um leilão em 18 de abril de 1874 nos Garrards, os joalheiros de Londres que mantêm as Jóias da Coroa do Reino Unido.

Entre os objetos estão três itens pesados de ouro fundido conhecidos como emblemas de lavadoras de alma (Akrafokonmu). Eles eram usados no pescoço por funcionários de alto escalão na corte que eram responsáveis por limpar a alma do rei.

Angus Patterson, curador sênior do V&A, disse que, no século 19, levar esses itens "não era apenas sobre adquirir riqueza, embora isso faça parte. Também se trata de remover os símbolos do governo ou os símbolos da autoridade. É um ato muito político".

O Museu Britânico também está retornando sob empréstimo um total de 15 itens, alguns deles levados durante um conflito posterior, em 1895-96, como uma espada de estado conhecida como Mpomponsuo.

Há também um chapéu cerimonial, conhecido como Denkyemke, com ornamentos em ouro. Ele era usado por cortesãos seniores em coroações e outros grandes eventos.

Há ainda um modelo de harpa de ouro fundido (Sankuo), que não foi levada como saque, para destacar a conexão de quase 200 anos com os Asantehenes.

O sankuo foi dado ao escritor e diplomata britânico Thomas Bowdich em 1817, que disse ser um presente do Asantehene ao museu para demonstrar a riqueza e o status da nação Asante.

'Corta a política’

Você pode emprestar objetos para um país que diz que você os roubou?

É uma solução para as restrições legais do Reino Unido, mas que podem não ser aceitas por países que dizem que querem corrigir um erro histórico.

A questão das Esculturas do Partenon, ou Mármores Elgin, como são chamados no Reino Unido, é o exemplo mais conhecido.

Há muito tempo a Grécia exige o retorno das esculturas clássicas, em exibição permanente no Museu Britânico. O presidente dos curadores do museu, George Osborne, disse recentemente que estava procurando um "caminho prático, pragmático e racional adiante" e estava explorando uma parceria que, em essência, coloca a questão de quem realmente é o dono das esculturas de lado.

O acordo com o Asantehene é outra versão disso; um compromisso que funciona para o rei Asante e é possível na lei britânica.

Assim como a Nigéria dificilmente aceitaria um empréstimo dos Bronzes do Benin, teria sido difícil para o governo de Gana topar um acordo do tipo.

Mas Hunt diz que os acordos entre o V&A, o Museu Britânico e o Museu do Palácio Manhyia "cortam a política. Não resolve o problema, mas dá início à conversa".

Oforiatta Ayim, conselheira do ministro da cultura de Gana, disse que "claro" que as pessoas ficarão irritadas com a ideia de um empréstimo. E que esperam que itens sejam eventualmente devolvidos de forma permanente a Gana.

"Sabemos que os objetos foram roubados em circunstâncias violentas, sabemos que os itens pertencem ao povo Asante", disse ela.

O governo britânico tem uma postura de "reter e explicar" para instituições estatais, o que significa que objetos cuja posse é contestada são mantidos e o contexto é explicado.

Os partidos Conservador e Trabalhista da Inglaterra não sinalizaram qualquer interesse em mudar a legislação atual.

A Lei do Museu Britânico de 1963 e a Lei do Patrimônio Nacional de 1983 impedem que os curadores de museus em algumas instituições de alto nível "desadquiram" itens de suas coleções.

Hunt defende uma mudança na lei. Ele gostaria que houvesse "mais liberdade para os museus, mas depois uma espécie de suporte, um comitê junto ao qual teríamos que recorrer caso quiséssemos restituir itens".

Alguns levantaram preocupações de que isso significaria que os museus britânicos perderiam alguns de seus itens mais valiosos no futuro. Ou, como a ex-secretária de cultura Michelle Donelan me disse em relação ao retorno das Esculturas do Partenon, que "abriria as portas para a questão de todo o conteúdo de nossos museus".

Mas Hunt diz que a propriedade de muito pouco da coleção de 2,8 milhões de itens do V&A é contestada.

Outro medo existente é que os itens contestados que são emprestados nunca sejam devolvidos.

Algo rechaçado pelo principal negociador de Gana, Ivor Agyeman-Duah. "Você se atém aos acordos que você possui, não vai contra eles", disse ele.

Há outros belos itens de ouro Asante no Reino Unido. A Coleção Wallace inclui a cabeça de troféu, que está entre os tesouros mais famosos Asante. O item também foi levado pelas forças britânicas e comprado no leilão de 1874.

A Coleção Real também contém objetos, incluindo outra cabeça de troféu de ouro na forma de uma máscara. Esse tipo de item representava inimigos derrotados; os troféus eram anexados por um aro a espadas cerimoniais nas joias do estado.

Estarão em exibição em Gana no futuro? Agyeman-Duah está dando um passo de cada vez.

Como a Grã-Bretanha está cada vez mais confrontando o legado cultural de seu passado colonial, esse tipo de acordo pode ser uma maneira diplomática e prática de abordar o passado e criar melhores relacionamentos no futuro — se ambos os lados puderem aceitar os termos.

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quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

Japão divulga foto do solo lunar capturada por sonda em missão histórica

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Imagem feita por um robô ejetável foi publicada pela Agência Espacial Japonesa nesta quinta-feira (25). Cientistas estão analisando outros dados enviados pelo módulo 'SLIM'.
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Por g1

Postado em 25 de janeiro de 2024 às 06h25m

#.*Post. - N.\ 11.089*.#

Foto mostra solo lunar após pouso de módulo — Foto: JAXA/Takara Tomy/Sony Group Corporation/Doshisha University
Foto mostra solo lunar após pouso de módulo — Foto: JAXA/Takara Tomy/Sony Group Corporation/Doshisha University

O Japão divulgou uma imagem inédita do solo lunar, capturada por sua sonda não-tripulada "SLIM", nesta quinta-feira (25). O módulo pousou na Lua na sexta-feira (19), consagrando o Japão como o 5º país do mundo a conseguir esse feito.

A Agência Espacial Japonesa (Jaxa) informou que a sonda conseguiu fotografar e transmitir dados usando um robô ejetável. Outros dados ainda estão sendo analisados pelos cientistas.

O pouso do SLIM (Módulo de Pouso Inteligente para Investigar a Lua, na sigla em inglês) foi feito a poucos metros do alvo estipulado pelos japoneses.

A título de comparação, pousos mais convencionais têm uma precisão de quilômetros, algo que limita a exploração em locais específicos, com muitas rochas, por exemplo.

A agência afirmou que conseguiu receber dados do módulo pouco menos de 3 horas após o pouso na Lua. O envio das informações foi feito antes que a sonda perdesse energia.

Ainda segundo a Jaxa, os painéis solares do SLIM não conseguiram gerar eletrecidade devido a um possível posicionamento incorreto do equipamento. No entanto, uma mudança na direção da luz solar pode corrigir o problema.

Sonda compacta

Em missão histórica, Japão se torna o 5º país do mundo a pousar na Lua

O SLIM tem cerca de 1,7 metro de comprimento, 2,7 metros de largura e 2,4 metros de altura. Ou seja, é bem compacto. Por isso, a brincadeira com o seu nome em inglês, que também pode ser traduzido como "magro".

Após o lançamento, quando já se aproximava da Lua, o módulo começou sua trajetória de descida acionando seus "olhos inteligentes" — um sistema que utiliza algoritmos, imagens e mapas pré-carregados para determinar exatamente onde ela estava acima da superfície lunar.

Isso foi crucial, já que o terreno de pouso é bem inclinado, e a missão precisava evitar obstáculos. Veja na imagem abaixo.

Como foi o pouso do módulo. — Foto: JAXA/Divulgação
Como foi o pouso do módulo. — Foto: JAXA/Divulgação

A sonda possui dois mini-robôs ejetáveis: um veículo saltador do tamanho de um forno de micro-ondas e um rover do tamanho de uma bola de beisebol, desenvolvidos em colaboração com a gigante de tecnologia Sony.

Estes dispositivos serão responsáveis por capturar imagens do módulo, proporcionando uma nova perspectiva da superfície lunar.

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quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

O segredo que torna 'indestrutível' um dos animais mais resistentes que existem

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Pesquisadores descobriram o mecanismo vital que permite que esses pequenos animais sobrevivam em condições extremas.
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TOPO
Por BBC

Postado em 24 de janeiro de 2024 às 09h00m

#.*Post. - N.\ 11.088*.#

A aparência amigável do tardígrado esconde uma incomparável capacidade de sobrevivência — Foto: GETTY IMAGES via BBC
A aparência amigável do tardígrado esconde uma incomparável capacidade de sobrevivência — Foto: GETTY IMAGES via BBC

Com aparência rechonchuda e surreal, os tardígrados intrigam pesquisadores há anos.

Esse animal de oito patas cuja extensão não ultrapassa um milímetro pode ser encontrado em quase todos os habitats do mundo, e tem uma capacidade insuperável de sobreviver nas situações mais extremas.

Nem a falta de oxigênio ou de água, nem as temperaturas escaldantes ou geladas e tampouco a radiação do espaço abalam os chamados "ursos d'água".

Eles sobrevivem a essas condições entrando num estado profundo de animação suspensa.

Essa aptidão permite que eles habitem a Terra há pelo menos 600 milhões de anos, superando com sucesso os cinco eventos de extinção em massa do planeta.

Mas como eles fazem isso?

Conforme descobriu uma equipe de pesquisadores, o mecanismo chave que contribui para a sua resistência é uma espécie de interruptor molecular que inicia o estado de animação suspensa.

Esse sensor molecular detecta condições prejudiciais no ambiente e diz ao invertebrado quando deve entrar em estado de dormência e quando pode retomar a vida normal.

O estudo — liderado pelos pesquisadores Derrick R. J. Kolling, da Universidade Marshall, e Leslie M. Hicks, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, Estados Unidos — foi publicado na revista PLOS ONE.

O experimento

Para compreender o mecanismo, os pesquisadores expuseram os tardígrados, também conhecidos popularmente pelo carinhoso apelido de "leitões de musgo", a temperaturas congelantes, altos níveis de água oxigenada, sal e açúcar.

Em resposta a essas condições extremas, as células dos animais produziram moléculas danosas altamente reativas chamadas radicais livres.

Os radicais livres logo reagiram com outras moléculas, disse Hicks à revista New Scientist.

Assim, descobriram que os radicais livres oxidam um aminoácido chamado cisteína, um dos componentes básicos das proteínas do corpo.

Essas reações fazem com que as proteínas alterem a sua estrutura e função, e isto envia um sinal para iniciar a dormência.

Nas experiências em que os pesquisadores usaram substâncias químicas para bloquear a cisteína, os ursos d'água não conseguiram detectar os radicais livres e, portanto, não conseguiram entrar em dormência.

"A cisteína atua como uma espécie de sensor regulatório", diz Hicks. "Isso permite que os tardígrados sintam o que os rodeia e reajam ao estresse."

Quando as condições externas melhoraram, eles descobriram que a cisteína não estava mais oxidada. Isso dava aos tardígrados o sinal verde para acordarem de seu estado de animação suspensa.

O resultado da pesquisa mostra que a oxidação da cisteína é um mecanismo regulatório vital que contribui para a notável resiliência dos ursos d'água e os ajuda a sobreviver em ambientes em constante mudança.

Os pesquisadores esperam que, a longo prazo, a pesquisa ajude a compreender melhor o processo de envelhecimento, assim como o impacto das viagens espaciais no corpo, uma vez que ambos são influenciados pelos danos causados ​​pelos radicais livres às máquinas celulares vitais como o DNA e as proteínas.

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terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Fóssil de anfíbio gigante mais antigo que os dinossauros é encontrado em fazenda do RS

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Em sítio arqueológico de Rosário do Sul, pesquisadores da Unipampa descobriram fóssil de anfíbio anterior aos dinossauros. Espécie semelhante só havia na Rússia. Novo achado pode colocar em xeque o que se sabe sobre a teoria da Pangeia, diz paleontólogo.
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Por Camila Freitas, g1 RS

Postado em 23 de janeiro de 2024 às 07h00m

#.*Post. - N.\ 11.087*.#


Anfíbio mais antigo que os dinossauros é encontrado no RS

Em rochas de uma fazenda na área rural do município de Rosário do Sul, na Fronteira Oeste do estado, foi encontrado um fóssil do crânio de uma espécie de anfíbio gigante, identificado como "mais antigo que os dinossauros", conforme análise de pesquisadores do Laboratório de Paleobiologia do Campus São Gabriel da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) envolvidos na descoberta.

O achado paleontológico, segundo estudiosos, destaca uma possível conexão entre a fauna do pampa gaúcho e a da Rússia, o que pode colocar à prova o que se sabe sobre o ecossistema da época da Pangeia (teoria sobre os continentes serem um só bloco). Entenda abaixo.

Reconstituição digital do anfíbio gigante Kwatisuchus rosai em seu hábitat — Foto: Divulgação / Márcio Castro
Reconstituição digital do anfíbio gigante Kwatisuchus rosai em seu hábitat — Foto: Divulgação / Márcio Castro

O grupo localizou a ossatura em agosto de 2022. Somente após uma recente análise, envolvendo etapas de limpeza e desacoplamento do fóssil da rocha, avaliação documental, coleta de dados e registros, os pesquisadores puderam concluir que o animal viveu há, aproximadamente, 250 milhões de anos na Terra, anterior à presença dos dinossauros.

Nas instalações da Unipampa, a nova espécie recebeu o nome Kwatisuchus rosai Kwati em referência ao termo Tupi para "focinho comprido" e rosai em homenagem ao paleontólogo Átila Stock Da-Rosa, da Universidade Federal de Santa Maria, pioneiro na área.

O anfíbio pertence ao início do período Triássico. Naquela época, o ecossistema se recuperava de uma extinção massiva.

Local onde foi encontrado o fóssil fica no pampa do RS, em Rosário do Sul — Foto: Divulgação / Alice Dias
Local onde foi encontrado o fóssil fica no pampa do RS, em Rosário do Sul — Foto: Divulgação / Alice Dias

A descoberta integra um projeto do Laboratório de Paleobiologia da Unipampa. A fim de popularizar a ciência, a equipe de pesquisadores realizará uma exposição com réplicas dos animais e fósseis, impressas em 3D. Previsto para o segundo semestre deste ano, o evento vai ocorrer em São Gabriel.

'Anfíbios modernos'

O anfíbio encontrado integra o grupo de animais dominantes no ecossistema do período Triássico e chegava a tamanhos gigantescos, possuindo aparência e modo de vida parecidos ao dos crocodilos.

Crânio do anfíbio gigante Kwatisuchus rosai — Foto: Divulgação / Felipe Pinheiro
Crânio do anfíbio gigante Kwatisuchus rosai — Foto: Divulgação / Felipe Pinheiro

"Nesse tempo, havia, por exemplo, grupos terrestres de quatro patas, anfíbios e peixes. No final do Triássico tinha algumas espécies de dinossauros, mas não como as do Jurássico, período posterior ao Triássico", explica Arielli Machado, pesquisadora do projeto e doutora em ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Estudos sobre história evolutiva apontam que o grupo ao qual o Kwatisuchus rosai pertence tenha originado os anfíbios modernos – como os sapos, as salamandras e as cobras-cegas.

"Trata-se de uma espécie completamente nova do grupo dos anfíbios temnospôndilos. Ele tem corpo comprido. Passava a maior parte na água e tinha um estágio girino, como os atuais anfíbios", conta o professor da Unipampa e doutor em paleontologia Felipe Pinheiro.

No entanto, o que surpreendeu os pesquisadores foi encontrá-lo na América do Sul, pois até então era um animal cuja a ocorrência "acreditávamos existir apenas na Rússia", diz Pinheiro.

Ainda segundo o professor, o fóssil é uma peça de um quebra-cabeça muito maior, "que estamos montando sobre como eram as faunas do Triássico Inferir", após extinção ocorrida no período Permiano, "evento mais catastrófico da história do planeta".

No caso do Kwatisuchus, o que aponta a origem anterior aos primeiros dinossauros são, principalmente, as rochas.

As rochas onde o crânio foi encontrado "mostram evidências de um período completamente inóspito e árido, que sofria enxurradas ocasionais", conta Pinheiro. Já as datações do fóssil são realizadas a partir de "comparação com outras regiões" e por "métodos químicos""tais como a mensuração de elementos radioativos".

Relação entre Pampa do RS e Rússia

O fóssil achado em Rosário do Sul, no pampa do RS, mostra uma intrigante conexão entre as faunas do Sul e da Rússia.

"Isso é muito estranho, que os nossos animais se pareçam mais com os animais russos do que com os sul-africanos – os quais estavam muito mais próximos", destaca Felipe Pinheiro.

De acordo com o pesquisador, essa conexão pode "mostrar que nossas hipóteses sobre a geografia do supercontinente Pangeia estão inacuradas". Essa possibilidade será estudada a partir de modelos computacionais.

Pesquisadores da Unipampa encontram crânio de animal mais antigo que dinossauro — Foto: Divulgação / Alice Dias
Pesquisadores da Unipampa encontram crânio de animal mais antigo que dinossauro — Foto: Divulgação / Alice Dias

A descoberta, explica Felipe Pinheiro, aumenta a diversidade de organismos fósseis no Sul do país e ajuda a compreender os intervalos temporais mais enigmáticos da história da Terra.

"As evidências de conexões entre as faunas brasileira e russa mostram que ainda temos muito a aprender sobre geografia e a distribuição dos organismos naquele passado remoto", reflete.

O estudo realizado pelo laboratório da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) é apoiado por um financiamento de pesquisa Lemann-Brasil, concedido à professora da universidade norte-americana Harvard, Stephanie Pierce, em colaboração com o cientista brasileiro e professor da Unipampa, Felipe Pinheiro, e Tiago Simões, pós-doutor pela universidade de Harvard.

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