Total de visualizações de página

terça-feira, 12 de janeiro de 2021

Índice de inflação oficial no país fecha 2020 em 4,52%, o maior desde 2016

= =---____------- ===  ----                                            -----________::_____   _____= =..= = =..= =..= = =____   _____::________                       --------- ====  -----------____---= =


A alta dos preços foi sentida principalmente na hora de abastecer a geladeira pela população com renda mais baixa.  
= =---____------- ===  ----                                            -----________::_____   _____= =..= = =..= =..= = =____   _____::________                       --------- ====  -----------____---= =
Por Jornal Nacional  
12/01/2021 22h05 Atualizado há 1 horas
Postado em 12 de janeiro de 2021 às 23h10m


|        .      Post.N.\9.636     .      |
|||.__-_____    _____ ____    ______    ____- _|| 

IPCA fecha 2020 em 4,52%, o maior índice desde 2016
IPCA fecha 2020 em 4,52%, o maior índice desde 2016

O IPCA, o índice oficial de inflação do país, fechou 2020 em 4,52%. É o maior desde 2016, de acordo com o IBGE. E foi na hora de abastecer a geladeira que os brasileiros mais perceberam a alta dos preços, principalmente a população com renda mais baixa.

O essencial para sobreviver com custo nada básico. O preço da comida em 2020 teve um aumento que não se via desde 2002: alta de 14,09%. Vários itens da cesta básica dispararam. O carrinho vai mais vazio, diz a professora Lilian Guimarães.

O óleo de soja mais que dobrou; o arroz subiu 76,01%; e o feijão fradinho acompanhou: mais 68,08%. A batata inglesa subiu 67,27% e o tomate quase 53%. A lista de alimentos que ficaram mais caros é extensa.

Nem fazendo substituições deu para montar um prato mais barato. E a desvalorização do real tem a ver com isso. Desvalorizando a nossa moeda, o Brasil fica mais competitivo e aproveitou essa competitividade exportando mais. Isso é bom para a balança comercial, mas acabou gerando um desafio para a inflação porque desabasteceu o mercado doméstico e forçou o aumento de preços aqui, explicou o economista da FGV André Braz.

Mas em dezembro a grande vilã foi a energia elétrica, com tarifa na bandeira vermelha. A inflação no mês registrou a maior variação desde fevereiro de 2003.

Só que foi mesmo a pressão dos alimentos que contribuiu para o IPCA fechar 2020 em 4,52%, a maior taxa anual desde 2016, acima do centro da meta da inflação estabelecida pelo Banco Central, de 4%. Mas ainda dentro da margem de tolerância (5,5%).

Mas a inflação foi ainda mais cruel com quem ganha menos, pessoas que comprometem a maior parte da renda justamente com o que mais subiu em 2020, com comida. E aí foi preciso fazer adaptações, não só no cardápio, mas também na vida para poder sobreviver.

A gente comia carne toda semana, hoje em dia a gente reduziu a carne por um frango, por um ovo, conta a manicure Luciana Gonçalves.

Os gastos com comida aumentaram tanto que Luciana não conseguiu mais pagar uma pessoa para cuidar dos filhos. A manicure deixou de trabalhar fora e montou um salão em casa.O

impacto da inflação entre os brasileiros de renda mais baixa é medido pelo INPC e ficou mais alto que o IPCA: bateu 5,45% em 2020.

Enquanto o IPCA mede o impacto dos preços no custo de vida de famílias que ganham entre um e 40 salários-mínimos, o INPC mede a variação nas famílias mais pobres, que têm renda entre um e cinco salários-mínimos e sentem mais a alta dos alimentos. E a diferença entre os dois índices é a maior registrada desde 2003.A inflação para ela é percebida através do aumento do preço dos alimentos, que é a principal despesa dessas famílias, diz André Braz.

Os gastos com comida morderam ainda mais a renda da Luciana com as crianças fora da escola na pandemia e sem merenda escolar. A geladeira e o armário mais vazios agora fazem parte da nova vida da família: Tem hora que não tem. E dói, dói porque a gente quer o melhor para os nossos filhos.

------++-====-----------------------------------------------------------------------=================---------------------------------------------------------------------------------====-++------

Inflação de 2020: óleo de soja tem maior subida de preço do ano; veja as maiores altas e baixas

= =---____------- ===  ----                                            -----________::_____   _____= =..= = =..= =..= = =____   _____::________                       --------- ====  -----------____---= =


Seguindo a lógica que se observou ao longo da pandemia do novo coronavírus, as 15 maiores altas são de alimentos. Isolamento social coloca vestuário e turismo entre as quedas de preço.  
= =---____------- ===  ----                                            -----________::_____   _____= =..= = =..= =..= = =____   _____::________                       --------- ====  -----------____---= =
Por G1  
12/01/2021 10h50 Atualizado há 2 horas
Postado em 12 de janeiro de 2021 às 12h55m


|        .      Post.N.\9.635     .      |
|||.__-_____    _____ ____    ______    ____- _|| 

Óleo de soja: alta de 103% foi o recorde do IPCA de 2020 — Foto: Reprodução/TV Morena
Óleo de soja: alta de 103% foi o recorde do IPCA de 2020 — Foto: Reprodução/TV Morena

O óleo de soja foi o grande campeão das altas de preços no ano de 2020, como mostram os dados da inflação oficial do país divulgados nesta terça-feira (12) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A lista de subitens do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) tem um domínio completo dos alimentos entre as maiores altas do ano. Os 15 primeiros colocados estão na categoria. Além do óleo de soja, encabeçam o ranking o arroz (76,01%), feijão fradinho (68,08%) e batata-inglesa (67,27%).

Desde o início da pandemia do novo coronavírus, a procura por alimentos se intensificou no mercado interno. A alta do dólar também tornou produtos brasileiros mais competitivos no exterior, elevando as exportações e gerando impacto nos preços.

Por outro lado, as restrições de circulação necessárias para conter a disseminação da Covid-19 trouxeram consequências para o setor de serviços. Entre as principais quedas de preços em 2020 estão passagens áereas (-17,15%) e hospedagem (-8,07%), por exemplo.

IPCA: inflação oficial fecha 2020 em 4,52%, maior alta desde 2016
IPCA: inflação oficial fecha 2020 em 4,52%, maior alta desde 2016

Abaixo, confira a lista de maiores altas e quedas de preços em 2020.

20 maiores altas

  1. Óleo de soja: 103,79%
  2. Arroz: 76,01%
  3. Feijão fradinho: 68,08%
  4. Batata-inglesa: 67,27%
  5. Laranja-lima: 53,1%
  6. Tomate: 52,76%
  7. Batata-doce: 48,1%
  8. Repolho: 46,43%
  9. Cenoura: 45,98%
  10. Feijão preto: 45,38%
  11. Laranja baía: 44,23%
  12. Maçã: 42,76%
  13. Banana-d'água: 39,28%
  14. Peixe tainha: 38,98%
  15. Banana-maçã: 38,55%
  16. Colchão: 36,93%
  17. Morango: 36,56%
  18. Abobrinha: 34,58%
  19. Pimentão: 34,16%
  20. Carne de Peito: 33,99%
20 maiores baixas

  1. Passagem aérea: -17,15%
  2. Limão: -14%
  3. Agasalho feminino: -13,78%
  4. Mochila: -11,81%
  5. Agasalho infantil: -10,53%
  6. Agasalho masculino: -9,01%
  7. Ônibus interestadual: -8,32%
  8. Hospedagem: -8,07%
  9. Móvel para copa e cozinha: -8,03%
  10. Seguro voluntário de veículo: -7,91%
  11. Peixe-serra: -7,8%
  12. Neurológico: -7,47%
  13. Saia: -7,38%
  14. Mudança: -7%
  15. Anti-infeccioso e antibiótico: -6,8%
  16. Filé-mignon: -6,28%
  17. Antidiabético: -6,26%
  18. Caderno: -6,23%
  19. Brinquedo: -6,05%
  20. Móvel infantil: -5,92%
Inflação ao longo dos últimos anos — Foto: Economia G1
Inflação ao longo dos últimos anos — Foto: Economia G1

Alimento como vilão

O principal motor das altas de preços é a diferença entre a oferta e a demanda dos produtos. Quando a oferta é baixa e a demanda é alta, os preços tendem a subir. Na situação oposta, quando tem pouca gente querendo comprar e muita mercadoria para vender, o natural é que os preços caiam.

Mas, na situação atual do Brasil, surgiram novos "vilões": a procura por alimentos e commodities no mercado internacional e, principalmente, o dólar alto levaram a inflação de produtos às alturas. Todos os produtos, além de verem seus preços subirem em dólar, também sofrem efeito de uma desvalorização forte do real frente à moeda americana.

O real sofreu desvalorização recorde em relação ao dólar por causa das incertezas com o plano de recuperação fiscal brasileiro, juros mais baixos, crescimento tímido e a despreocupação do governo com o meio ambiente. E, sempre que o real se desvaloriza, acaba convidando os países a comprar do Brasil.

Real é a moeda que mais desvalorizou em relação ao dólar em 2020
Real é a moeda que mais desvalorizou em relação ao dólar em 2020

Por um lado, há melhora dos números da balança comercial. Por outro, acontece um desabastecimento do mercado brasileiro para itens que são matéria-prima para fabricação de alimentos que chegam às gôndolas. A alta da soja, por exemplo, aumenta o preço de ração animal, que se reflete nos custos da carne.

A principal vilã da inflação em 2020 foi a alimentação. Os preços do conjunto de alimentos e bebidas tiveram alta acumulada de 14,09% ao longo do ano, o maior aumento desde 2002 (19,47%). Segundo o IBGE, os alimentos responderam sozinhos por quase metade da inflação do ano, com um impacto de 2,73 pontos percentuais sobre o índice geral.

Depois da alimentação, o segundo maior impacto sobre a inflação de 2020 partiu da habitação, que acumulou alta de 5,25% no ano.

A inflação de 2020 — Foto: G1 Economia
A inflação de 2020 — Foto: G1 Economia

------++-====-----------------------------------------------------------------------=================---------------------------------------------------------------------------------====-++------

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Ford inaugurou a primeira fábrica de automóveis do Brasil; veja o histórico

= =---____------- ===  ----                                            -----________::_____   _____= =..= = =..= =..= = =____   _____::________                       --------- ====  -----------____---= =


Empresa anunciou nesta segunda-feira (11) que fechará todas as fábricas da marca no país. Mercado brasileiro será atendido apenas por veículos importados.  
= =---____------- ===  ----                                            -----________::_____   _____= =..= = =..= =..= = =____   _____::________                       --------- ====  -----------____---= =
Por G1  
11/01/2021 19h15 Atualizado há uma hora
Postado em 11 de janeiro de 2021 às 20h20m


|        .      Post.N.\9.634     .      |
|||.__-_____    _____ ____    ______    ____- _|| 

Ford anuncia fim da produção de veículos no Brasil
Ford anuncia fim da produção de veículos no Brasil

A decisão da Ford de encerrar a produção de veículos no Brasil coloca ponto final em uma história de mais de 100 anos de investimentos no país.

A primeira fábrica de automóveis do Brasil foi da Ford. Em 1º de maio de 1919, a montadora abriu as portas de uma planta na Rua Florêncio de Abreu, no centro de São Paulo. O modelo de produção era o Ford T, também chamado de Ford Bigode. As peças eram importadas e a montagem, feita aqui.

Começam a ser montados os primeiros carros no Brasil, em 1921. Muita gente aparecia interessada em acompanhar de perto a construção de um automóvel. E isso podia ser feito no prédio da Ford na Rua Solon, no bairro do Bom Retiro, Zona Central de São Paulo — Foto: Estadão Conteúdo/Arquivo
Começam a ser montados os primeiros carros no Brasil, em 1921. Muita gente aparecia interessada em acompanhar de perto a construção de um automóvel. E isso podia ser feito no prédio da Ford na Rua Solon, no bairro do Bom Retiro, Zona Central de São Paulo — Foto: Estadão Conteúdo/Arquivo

Desde 1904 carros da marca já chegavam ao país, ainda como importados. Por decisão do próprio Henry Ford, fundador da montadora, a empresa decidiu abrir sua subsidiária brasileira.

5 pontos: Ford encerra produção no Brasil
5 pontos: Ford encerra produção no Brasil

Entre 1920 e 1921, a montadora foi transferida para a Praça da República e, em seguida, para a Rua Sólon, no bairro do Bom Retiro. Ali, foi estruturada a primeira linha de montagem em série, onde funcionou até os anos 1950.

Em 1953, foi inaugurada a fábrica do Ipiranga. A produção diária da Ford passava para 125 veículos ao dia e mais de 2.500 funcionários circulavam pela planta de 200 mil metros quadrados. A nova planta possibilitou o avanço tecnológico para desenvolvimento do primeiro modelo totalmente brasileiro da montadora, o caminhão F-600, criado em 1957.

Caminhões F-600 da Ford Motors do Brasil, produzidos na fábrica do Ipiranga, Zona Sul de São Paulo, no Plano de Fabricação Nacional da empresa, com destino a Limeira, no interior de SP. Foto de setembro de 1957 — Foto: Estadão Conteúdo/Arquivo
Caminhões F-600 da Ford Motors do Brasil, produzidos na fábrica do Ipiranga, Zona Sul de São Paulo, no Plano de Fabricação Nacional da empresa, com destino a Limeira, no interior de SP. Foto de setembro de 1957 — Foto: Estadão Conteúdo/Arquivo

A unidade do ABC era uma das fábricas de veículos mais antigas do Brasil. Antes de ficar nas mãos da Ford por mais de cino décadas, ela foi idealizada e construída pela extinta Willys-Overland do Brasil. A inauguração foi em 1954, com a produção do Jeep Willys.

Em 1967, a Ford comprou a Willys, e assumiu a fábrica de São Bernardo. Além da unidade, a empresa do oval azul terminou o desenvolvimento do Corcel, o primeiro Ford a ser produzido ali, no ano seguinte.

Em 1968, o Corcel foi um novo marco da montadora no segmento de carros médios. No ano seguinte, ganhou as versões cupê e GT, tornando-se o recordista de vendas da marca.

Naquele ano, foi inaugurado o Centro de Pesquisas de São Bernardo do Campo. A produção subiu para 250 veículos por dia, em turnos duplos de trabalho. Ali, surgiram outros lançamentos marcantes como Belina, Maverick, Del Rey, Verona e Pampa, todos montados no espaço.

Ford Motors do Brasil comemora 60 anos no país, em agosto de 1979 — Foto: Osvaldo Luiz/Estadão Conteúdo/Arquivo
Ford Motors do Brasil comemora 60 anos no país, em agosto de 1979 — Foto: Osvaldo Luiz/Estadão Conteúdo/Arquivo

Em 1974, foi inaugurada a fábrica de Taubaté, com investimento de US$ 400 milhões. Em 1978, foi a vez da abertura do Campo de Provas de Tatuí, em São Paulo.

Em 1987, a Ford e Volkswagen criaram a holding Autolatina para compartilhamento de plataformas de carros produzidos no Brasil e Argentina. A parceria durou até 1995.

O fim da Autolatina deu espaço a uma nova rodada de investimento da Ford no Brasil. A fábrica de São Bernardo do Campo passou a produzir o Fiesta em 1996, que seria um dos grandes sucessos da marca. No ano seguinte, surgiu o Ka.

Em 2001, foi inaugurada a fábrica de Camaçari, puxando para si a maior parte da produção de veículos de passeio, como o novo Fiesta e EcoSport. Em contrapartida, São Bernardo recebeu a linha de caminhões, vinda da extinta unidade do Ipiranga, na capital paulista. Em 2015, a planta comemorou o marco de 1 milhão de unidades produzidas.

Linha de produção do Ka, em São Bernardo do Campo, em 1997 — Foto: Divulgação
Linha de produção do Ka, em São Bernardo do Campo, em 1997 — Foto: Divulgação

Dali em diante, a crise global da montadora passou a se impor também no Brasil. A marca, que chegou a ser a quarta mais vendida no país, passou a amargar queda de vendas. Globalmente, a Ford revelou um plano para cortar custos e redução de portfólio, eliminando sedãs como Fusion e Fiesta.

De volta ao Brasil, a Ford anunciou em 2019 que iria fechar a fábrica de São Bernardo do Campo, tirar de linha o Fiesta e que parar de vender caminhões na América do Sul. Em outubro do ano passado, foi concluída a venda da fábrica do ABC paulista para a Construtora São José e com a FRAM Capital.

Raio-X do Ford no Brasil — Foto: G1
Raio-X do Ford no Brasil — Foto: G1

------++-====-----------------------------------------------------------------------=================---------------------------------------------------------------------------------====-++------

Cesta básica fica mais cara em todas as capitais ao longo de 2020, aponta Dieese

= =---____------- ===  ----                                            -----________::_____   _____= =..= = =..= =..= = =____   _____::________                       --------- ====  -----------____---= =


Salvador foi a capital com maior alta nos preços dos alimentos básicos. Comprometimento médio do salário mínimo com os alimentos básicos no país foi o maior em 12 anos.  
= =---____------- ===  ----                                            -----________::_____   _____= =..= = =..= =..= = =____   _____::________                       --------- ====  -----------____---= =
Por Daniel Silveira, G1 — Rio de Janeiro  
11/01/2021 11h48 Atualizado há 2 horas
Postado em 11 de janeiro de 2021 às 13h50m


|        .      Post.N.\9.633     .      |
|||.__-_____    _____ ____    ______    ____- _|| 

Base na refeição dos brasileiros, arroz foi um dos alimentos com maior alta de preços em todas as capitais pesquisadas pelo Dieese em 2020 — Foto: Reprodução/TV Diário
Base na refeição dos brasileiros, arroz foi um dos alimentos com maior alta de preços em todas as capitais pesquisadas pelo Dieese em 2020 — Foto: Reprodução/TV Diário

Um levantamento divulgado nesta segunda-feira (11) pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostra que o preço médio da cesta básica aumentou em todas as 17 capitais pesquisadas ao longo de 2020.

A cesta básica é o conjunto de alimentos necessários para as refeições de uma pessoa adulta. Segundo o Dieese, em 2020, a maior parte dos produtos que fazem parte dela apresentou elevação de preços em todo o país. O maior aumento foi observado em Salvador, enquanto o menor, em Curitiba.

Todas as 17 capitais pesquisadas pelo Dieese registraram aumento no preço da cesta básica em 2020 — Foto: Economia/G1
Todas as 17 capitais pesquisadas pelo Dieese registraram aumento no preço da cesta básica em 2020 — Foto: Economia/G1

A alta dos preços, segundo o órgão, foi reflexo, principalmente, da desvalorização cambial e do alto volume das exportações. Além disso, fatores climáticos, em decorrência de longos períodos de estiagem ou de chuvas intensas, também impactaram nos preços dos alimentos.

Entre os principais itens da cesta com maior aumento nos preços em todas as capitais pesquisadas, o Dieese destacou:

  • Carne bovina de primeira - por diversos motivos, como o intenso ritmo de exportação, principalmente para a China, a baixa disponibilidade de boi gordo no pasto, o encarecimento de importantes insumos pecuários importados e de alimentação do gado.
  • Leite UHT e manteiga - na maior parte do ano, foram verificados baixos estoques nacionais de leite no campo e custos elevados de produção, principalmente de insumos como soja e milho; além de problemas climáticos, como chuvas irregulares e secas extremas.
  • Arroz agulhinha foi um dos vilões da inflação de alimentos em 2020, pressionado pela desvalorização do real frente ao dólar, o que aumentou o custo de produção e elevou o volume de grão exportado, além da diminuição da área plantada e do abandono da política de estoques reguladores por parte do governo.
  • Óleo de soja: o Brasil exportou um elevado volume de soja e derivados, devido ao real desvalorizado em relação ao dólar e à forte demanda externa, o que fez aumentar o preço do produto no mercado interno.
  • Batata: produção foi impactada ao longo do ano devido a condições climáticas, que resultou em redução na oferta do produto e, consequentemente, na alta de preços.
  • Açúcar: também foi impactado pelo grande volume de exportações diante da desvalorização do real frente ao dólar.
  • Farinha de trigo e pão francês: como o Brasil não produz a quantidade de trigo suficiente para a demanda interna, o país depende da importação do produto, cujo preço foi elevado diante da desvalorização cambial.
  • Tomate: além da redução de área plantada, houve impacto por fatores climáticos que prejudicaram a produção.
Maior comprometimento do salário mínimo em 12 anos

De acordo com o Dieese, o preço médio mais caro da cesta básica em 2020 foi observado em São Paulo onde, em dezembro, chegou a R$ 631,46. Este valor correspondeu a 53,45% do salário mínimo vigente, que era de R$ 1.045 - foi o maior percentual observado desde 2008, quando foi de 57,68%.

São Paulo registrou o preço médio mais alto da cesta básica em 2020 — Foto: Economia/G1
São Paulo registrou o preço médio mais alto da cesta básica em 2020 — Foto: Economia/G1

Entre 2009 e 2019, o comprometimento do salário mínimo com a cesta básica só ficou acima de 50% em 2016, quando foi de 51,87%.

"O tempo médio necessário para adquirir os produtos da cesta para o conjunto das capitais, considerando um trabalhador que recebe salário mínimo e trabalha 220 horas por mês, foi, em dezembro, de 115 horas e 08 minutos, maior do que em novembro, quando ficou em 114 horas e 38 minutos", destacou o Dieese.

Considerando o valor da cesta básica de São Paulo, o Dieese estimou que o salário mínimo necessário deveria ser equivalente a R$ 5.304,90, o que corresponde a 5,08 vezes o vigente. O cálculo é feito levando-se em consideração uma família de quatro pessoas, com dois adultos e duas crianças.

------++-====-----------------------------------------------------------------------=================---------------------------------------------------------------------------------====-++------

domingo, 10 de janeiro de 2021

Coração, cérebro, pulmão: como a Covid-19 afeta nossos órgãos vitais

= =---____------- ===  ----                                            -----________::_____   _____= =..= = =..= =..= = =____   _____::________                       --------- ====  -----------____---= =


Em um ano, o coronavírus mostrou causar muito mais do que uma doença respiratória: ele afeta diferentes partes do corpo por uma mistura de ataque direto a células, alterações na circulação de sangue e uma reação inflamatória exagerada. 
= =---____------- ===  ----                                            -----________::_____   _____= =..= = =..= =..= = =____   _____::________                       --------- ====  -----------____---= =
TOPO
Por Mariana Alvim, BBC  
09/01/2021 08h18 Atualizado há um dia
Postado em 10 de janeiro de 2021 às 09h20m


|        .      Post.N.\9.632     .      |
|||.__-_____    _____ ____    ______    ____- _|| 

Principais alvos da Covid-19 são o pulmão e as vias respiratórias, mas vírus tem surpreendido por seu variado ataque, do cérebro aos rins — Foto: Getty Images via BBC
Principais alvos da Covid-19 são o pulmão e as vias respiratórias, mas vírus tem surpreendido por seu variado ataque, do cérebro aos rins — Foto: Getty Images via BBC

Embora ainda haja muitas perguntas em aberto sobre o coronavírus que parou o mundo há quase um ano, cientistas conseguiram neste período correr contra o tempo e trazer muitas respostas sobre a nova doença — algumas delas surpreendentes.

Por exemplo, a de que a Covid-19, descrita desde o início como uma doença respiratória, não ataca apenas os pulmões.

Conforme o coronavírus foi se espalhando pelo mundo e adoecendo mais pessoas — até aqui, infectando pelo menos 88 milhões no planeta —, médicos e pesquisadores começaram a constatar que órgãos tão diferentes como coração, cérebro e rins também podiam ser afetados, às vezes fatalmente, pelo coronavírus.

O patógeno também já causou problemas em dedo dos pés, foi detectado no testículo e ainda nas lágrimas de pacientes — mas é importante lembrar que ser encontrado em uma parte do corpo ou no ambiente não necessariamente significa adoecimento ou transmissibilidade.

Em relação aos chamados órgãos vitais, porém, a doença tem gerado incógnitas, pesquisas científicas e, em alguns casos, grande preocupação. Por isso, a BBC News Brasil procurou artigos científicos e pesquisadores brasileiros para responder o que se sabe até aqui sobre as consequências da Covid-19 em cinco órgãos fundamentais para a nossa sobrevivência: pulmões, coração, rins, fígado e cérebro.

Vale lembrar que a definição de quais são os órgãos vitais é variada, mas de acordo com os entrevistados, estes cinco estão mais perto de um consenso de serem fundamentais para a continuidade da vida e insubstituíveis, considerando as intervenções médicas existentes.

1. Pulmões

Falta de ar é sinal de que pulmão foi afetado, explica pesquisadora — Foto: Getty Images via BBC
Falta de ar é sinal de que pulmão foi afetado, explica pesquisadora — Foto: Getty Images via BBC

Apesar de afetar outras partes do corpo, ainda são "as vias respiratórias e os pulmões" os principais alvos da Covid-19, lembra a pesquisadora Marisa Dolhnikoff, professora associada da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e coordenadora dos Estudos em Autópsia da Covid-19 no Hospital das Clínicas da faculdade.

Tudo começa quando uma pessoa sadia entra em contato com gotículas do vírus, como através da tosse ou espirro de alguém infectado, ou ainda por meio do contato com uma superfície contaminada com essas partículas. A partir daí, o vírus começa a "hackear" as células das vias respiratórias (canais que conduzem o ar aos pulmões, como o nariz e a traqueia) e dos pulmões, transformando-as em fábricas de coronavírus que se espalham por mais células.

Tosse, coriza e espirros podem surgir por conta do ataque às vias respiratórias. Esses sintomas também podem ser reflexo do acometimento dos pulmões — mas, segundo Dolhnikoff, o sinal mais claro de que este órgão vital foi afetado é a falta de ar.

Um estudo publicado em junho na revista científica Lancet, com dados de 257 pacientes em Nova York (EUA), mostrou que a falta de ar foi o sintoma mais frequente na entrada no hospital, registrado em 74% dos infectados, seguido por febre (71%) e tosse (66%).

Ainda segundo a pesquisadora da USP, um outro sinal importante vem das tomografias — quando elas mostram mais de 50% da área dos pulmões acometida pelo coronavírus, este é um indicador de gravidade e de insuficiência respiratória, que demanda suporte como a ventilação mecânica. Ambos pulmões costumam ser afetados juntos.

Tanto nas vias respiratórias quanto nos pulmões, o coronavírus encontra um facilitador — células contendo receptores da proteína ECA-2, uma espécie de chave que permite o início da infecção.

"Nos casos mais graves, há também infecção dos alvéolos, estruturas responsáveis pela troca gasosa nos pulmões — a captação de O2 do ar para o sangue, e liberação de CO2", explicou por e-mail à BBC News Brasil a pesquisadora.

É por isso que os pulmões são vitais — eles nos dão, literalmente, o ar que respiramos. O órgão absorve o oxigênio externo e o distribui para todo o corpo através do sangue e, na via contrária, recolhe o gás carbônico dispensado após vários processos dentro do corpo.

"Quando infectadas, as células dos alvéolos sofrem alterações importantes que levam à sua morte, desencadeando um processo de inflamação e edema pulmonar (excesso de líquido) que impedem as trocas gasosas, culminando com a insuficiência respiratória", completa Dolhnikoff, cuja equipe no Hospital das Clínicas está realizando desde o início da pandemia um método inovador de autópsias minimamente invasivas, de forma a evitar o contágio no contato com corpos, para fins de pesquisa.

Entenda como a Covid-19 pode afetar outros órgãos, além dos pulmões
Entenda como a Covid-19 pode afetar outros órgãos, além dos pulmões

Além da infecção das células das vias respiratórias e dos alvéolos, em uma segunda frente, os vasos sanguíneos também são atacados. Isso leva ao aumento da coagulação e à formação de trombos (conjunto de sangue coagulado), que dificultam a passagem de sangue nos alvéolos. Com isso, as trocas gasosas são mais uma vez comprometidas.

Ainda no início da pandemia, em abril, a equipe que está trabalhando com autópsias na USP publicou no periódico científico Journal of Thrombosis and Haemostasis os resultados destas análises em dez pacientes, demonstrando alvéolos amplamente danificados e pequenos trombos no pulmão — cuja formação devido à Covid-19 era pouco conhecida naquele momento.

Quando o quadro pulmonar é muito grave, incluindo um conjunto de indicadores como a insuficiência respiratória e a inflamação sistêmica, ele pode configurar a síndrome do desconforto respiratório aguda (ARDS, na sigla em inglês).

2. Coração

Se os pulmões realizam as trocas gasosas, é o coração que bombeia o sangue com oxigênio para o corpo e que volta para os pulmões com sangue repleto de gás carbônico.

E, nos quadros mais graves, este órgão muscular e vital é significativamente afetado — podendo levar a óbito.

Um estudo de referência, publicado em fevereiro de 2020 com dados de 138 pacientes hospitalizados em Wuhan, mostrou que 16,7% deles desenvolveram arritmia e 7,2% lesão cardíaca aguda — ou seja, dois problemas de saúde atingindo o coração. Aqueles que precisaram ir para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) apresentaram estes quadros com mais frequência.

"Na Covid-19, o coração pode ser atingido em até 40% dos casos graves", aponta Marisa Dolhnikoff, acrescentando outras consequências da covid-19 no coração como a miocardite (inflamação no coração), tromboses arteriais e infarto do miocárdio.

"Pessoas com comorbidades — diabetes, hipertensão, obesidade e cardiopatias prévias — têm maior risco de manifestação cardíaca na Covid-19."

Estudos de várias partes do mundo mostram problemas no coração como uma das comorbidades mais comuns entre pacientes graves infectados — um boletim do Ministério da Saúde de dezembro revelou que, no Brasil, as cardiopatias (doenças no coração) foram o fator de risco mais frequente entre pessoas que morreram por covid-19 no país, seguidas por diabetes.

Dolhnikoff explica que as células cardíacas também têm receptores da proteína ECA-2, ativadas no ataque direto do vírus ao órgão.

Mas o órgão pode ser afetado também pela inflamação sistêmica, reação exagerada do corpo que leva a diversas alterações prejudiciais como a baixa de oxigênio e à chamada tempestade de citocinas — substâncias agressivas que o sistema imunológico libera para atacar um invasor, mas que, em excesso, podem acabar atacando partes vitais para nossa sobrevivência, como o coração.

A partir da autópsia e de exames referentes ao caso de uma menina de 11 anos que perdeu a vida para a Covid-19, Dolhnikoff e sua equipe conseguiram demonstrar o ataque do vírus a diversas células do coração, nas quais foram encontradas partículas do vírus. A resposta inflamatória agravou o problema, levando à falência cardíaca e morte.

O pulmão da criança também foi afetado, mas os cientistas identificaram o coração como o órgão mais comprometido pelo vírus

Os resultados foram publicados no periódico internacional Lancet Child & Adolescent Health.

3. Rins

Assim como acontece com o coração, quando os rins são afetados pela Covid-19, o nível de alerta é aumentado.

"A lesão renal é incremental, compõe o quadro de um doente mais complexo. São doentes muito graves. Quando a doença é avassaladora, ela é avassaladora", resume o nefrologista José Suassuna, chefe do Setor de Nefrologia do Hospital Pedro Ernesto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Hupe/Uerj).

Os rins são vitais por regularem a concentração de água no sangue e por eliminarem detritos tóxicos do corpo.

No artigo publicado no periódico Lancet envolvendo 257 pacientes em Nova York, 31% desenvolveram lesões agudas neste órgão e precisaram das chamadas terapias de substituição renal, que incluem intervenções como a hemodiálise — este procedimento, em linhas gerais, substitui o órgão no trabalho de filtrar o sangue.

Neste grupo nos Estados Unidos, 14% já tinham alguma doença crônica afetando os rins antes da Covid-19.

"Grupos de risco como obesos, diabéticos, pessoas com doenças cardiovasculares e idosos muitas vezes já têm algum grau de comprometimento renal — então, quando infectados pelo coronavírus, não partem do 0. Eles já estão na metade do caminho e caminham mais rapidamente para a insuficiência renal aguda e para a necessidade de suporte", explica Suassuna, destacando porém que há casos em que o paciente não tem fatores de risco mas tem os rins comprometidos.

De acordo com o nefrologista, os rins também têm receptores ECA-2, mas as evidências até agora indicam que possivelmente não é este ataque direto do vírus ao órgão o principal motivo de acometimento dos rins.

Mais uma vez, a inflamação exacerbada do corpo ao coronavírus parece ter um papel importante.

Uma evidência disso é a conexão entre os pulmões e o rins, a chamada cross talk entre os órgãos.

"É uma ligação cruzada, a situação em que o acometimento de um órgão determina o de outro. Na covid-19, isso tem se mostrando entre rins e pulmões, assim como pulmões e coração. O envolvimento pulmonar mais grave se associa a um risco muito maior para os rins. Há uma associação grande entre entubar e a insuficiência renal", aponta Suassuna, explicando que quando há esta insuficiência nos rins, o paciente deixa de urinar, precisando de suporte.

Além disso, outra explicação para o acometimento simultâneo de vários órgãos na fase mais avançada da infecção é a baixa oxigenação.

"A Covid-19 nos deixa com uma oxigenação como se estivéssemos subindo o Himalaia, mesmo estando a nível do mar. Uma parte funcional do rim, que ajuda a produzir a urina, já vive como se estivesse no Everest — no que a gente chama de hipoxia, uma oxigenação muito baixa", diz o médico, também professor da UERJ.

"O rim é um órgão muito sensível às quedas de oxigenação prolongadas porque já vive na beira do precipício. E à piora da oxigenação se soma a tempestade de citocinas, um mecanismo importante da disseminação do dano da covid do pulmão para o resto do corpo."

Apesar de seu adoecimento ser um indicador de gravidade, os rins também podem ser afetados em casos mais leves, explica Suassuna. Entretanto, talvez isso nunca se manifeste em sintomas, mas apenas exames específicos de urina e de alteração da função renal.

"Os rins, em qualquer doença, sofrem em silêncio — e Covid-19 não é uma exceção", explica Suassuna, acrescentando que esse órgão é afetado bilateralmente, ou seja, adoece tanto do lado esquerdo quando direito.

"Não tem grande manifestação de sintomas, a maior parte dos sinais só aparece no laboratório. Temos pacientes iniciando diálise que não sentem nada, apenas quando já têm menos 10% da função renal. De repente, param de urinar."

4. Fígado

Exames também já detectaram, em alguns pacientes, alterações no fígado — que tem entre suas funções eliminar toxinas do corpo, regular o açúcar no sangue e ajudar na digestão de gorduras.

Entretanto, diferente de outros órgãos, tais alterações não necessariamente significam o adoecimento do órgão.

"As enzimas hepáticas (substâncias produzidas pelo órgão) estão elevadas em cerca de 15 a 60% dos casos de COVID-19, o que sugere acometimento do fígado. Porém, estas alterações das enzimas em geral não provocam sintomas", explica o hepatologista Edmundo Lopes, médico do Hospital das Clínicas e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

"Apesar destes distintos mecanismos de agressão ao fígado durante a Covid-19, ele não é comumente nem intensamente comprometido, como ocorre com outros órgãos, como os pulmões, o coração e os rins", diz. "As explicações para esta 'menor' agressão ao fígado ainda não estão bem elucidadas."

Os distintos mecanismos de agressão mencionados por Lopes passam, mais uma vez, pelos efeitos da inflamatória sistêmica no corpo e também, no caso desse órgão responsável por lidar com substâncias potencialmente tóxicas, por eventuais danos provocados pelos medicamentos usados contra a Covid-19.

A ação direta do vírus sobre o órgão também é uma possibilidade, até porque as células hepáticas chamadas de colangiócitos têm receptores ECA-2. Entretanto, segundo o professor da UFPE, essa via direta "nunca foi muito bem demonstrada" na ciência.

"As evidências sugerem que o processo inflamatório (tempestade de citocinas) parece ter um papel relevante na agressão ao fígado, já que os pacientes mais graves e que apresentam maiores indícios de atividade inflamatória nos exames laboratoriais são os que apresentam mais frequentemente e mais intensamente alterações das enzimas hepática", escreveu o hepatologista por e-mail à BBC News Brasil.

5. Cérebro

Covid-19 leve tem deixado efeitos neurológicos como maior ansiedade e cansaço e, nos casos graves, derrame e convulsões — Foto: Getty Images via BBC
Covid-19 leve tem deixado efeitos neurológicos como maior ansiedade e cansaço e, nos casos graves, derrame e convulsões — Foto: Getty Images via BBC

Se tem um órgão que os entrevistados dizem estar rodeado de incógnitas sobre seu acometimento pela Covid-19, é o cérebro.

Fato é que diversos estudos e relatos de casos já mostraram que ele pode ser afetado, dos quadros leves aos graves.

A pesquisadora Clarissa Yasuda, médica e professora do departamento de neurologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que o diga: ela mesma teve Covid-19 em agosto e conta ainda sentir consequências relacionadas ao cérebro, como sono, fadiga e alterações na memória.

Ela e colegas publicaram em outubro um estudo em estágio pré-print (sem a chamada revisão dos pares, etapa padrão em que outros especialistas analisam um estudo e decidem se ele será publicado ou não em uma revista científica) com dados sobre 81 pessoas que tiveram Covid-19 leve e se recuperaram.

Esses voluntários foram submetidos a exames de ressonância magnética, que detectaram alterações no córtex, a parte mais externa do cérebro e fundamental para processos envolvendo a memória, linguagem, entre outros.

Questionários e testes cognitivos também mostraram que, em média 60 dias após o diagnóstico da covid-19, os pacientes ainda apresentavam dor de cabeça (40%), fadiga (40%), alteração de memória (30%), ansiedade (28%), depressão (20%), perda de olfato (28%) e paladar (16%), entre outros.

Aliás, Yasuda lembra que a perda destes sentidos é considerada pelos especialistas um sintoma neurológico — precisamos do cérebro para sentir gostos e cheiros.

"Acho que não estava na conta de ninguém imaginar que pessoas que não foram internadas, que seriam quadros 'leves', pudessem ficar com uma gama de alterações neurológicas incapacitantes, como observamos não só aqui mas no mundo inteiro", diz a neurologista, fazendo a ressalva de que o grupo de voluntários estudados foi formado por pessoas que já estavam relatando sintomas neurológicos, então há uma inclinação de que estes sejam mais frequentemente registrados do que se o estudo envolvesse uma população mais ampla.

"Além desses casos leves (que estão mostrando consequências prolongadas), há o grupo de alterações neurológicas por Covid-19 que surgem na fase aguda e que podem ser bem graves — como derrame, encefalite, convulsão e redução do nível de consciência. Em alguns casos, os derrames aumentam a chance de AVC (acidente vascular cerebral). Não sabemos se estes efeitos serão transitórios ou se deixarão sequelas."

Parte da equipe que está trabalhando com autópsias no Hospital das Clínicas da FMUSP, o médico Amaro Nunes Duarte Neto relata que uma alteração muito comum observada nos cérebros de pessoas que morreram após a infecção pelo coronavírus é a lesão dos neurônios.

"São lesões cerebrais decorrentes da hipóxia (oxigenação diminuída) pelo acometimento pulmonar grave na covid-19, não atribuídas diretamente ao vírus", explicou por e-mail o pesquisador.

Isto porque, como em outros órgãos, os efeitos da Covid-19 não necessariamente ocorrem devido ao ataque direto do coronavírus, mas sim pelas consequências da resposta inflamatória do corpo e de alterações na circulação do sangue, entre outros.

Por exemplo, Duarte Neto relata também a observação, nas autópsias, de microsangramentos nos vasos que irrigam o órgão, além da hipertrofia dos astrócitos — células em torno dos vasos cerebrais e que dão suporte fundamental para os neurônios.

Na publicação em pré-print da qual Yasuda foi uma das autoras, a equipe demonstrou que os astrócitos foram o principal alvo do coronavírus no cérebro. Isto também a partir de 26 autópsias minimamente invasivas, realizadas por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.

Mesmo que nem todo efeito neurológico do coronavírus seja atribuído ao seu ataque direto, os pesquisadores entrevistados dizem que há sinais de que o patógeno chega até o cérebro através do nariz, pelo mesmo caminho que um aroma "faz" para chegar até lá.

Ainda assim, "o conhecimento sobre o mecanismo de lesão do vírus Sars-CoV-2 no sistema nervoso central ainda é pouco esclarecido", diz o pesquisador da USP.

A professora Clarissa Yasuda concorda.

"É muita coisa que a gente não sabe, muita coisa para ser estudada: o quanto desses quadros neurológicos tem um componente inflamatório, o quanto é autoimune, o quanto é um ataque direto do vírus. Ninguém tem uma resposta, mas acho que é uma combinação disso tudo."

------++-====-----------------------------------------------------------------------=================---------------------------------------------------------------------------------====-++------