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sábado, 20 de setembro de 2025

Pesquisa de universidade brasileira descobre que cera de ouvido pode ajudar a detectar câncer

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Um estudo da Universidade Federal de Goiás mostra que exames feitos com cera de ouvido pode ajudar a detectar câncer antes do aparecimento do tumor.
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Por Jornal Nacional

Postado em 20 de Setembro de 2.025 às 22h25m
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Pesquisa de universidade brasileira descobre que cera de ouvido pode ajudar a detectar câncer — Foto: Reprodução/Jornal Nacional
Pesquisa de universidade brasileira descobre que cera de ouvido pode ajudar a detectar câncer — Foto: Reprodução/Jornal Nacional

Uma pesquisa de cientistas brasileiros com a cera do ouvido está trazendo resultados promissores para antecipar o diagnóstico do câncer.

A cera que se acumula no ouvido tem valor científico incalculável para os pesquisadores da Universidade Federal de Goiás.

"Ela é uma pepita de ouro que tá trazendo informações do corpo humano pra nós. E ela tá num lugar relativamente protegido de influências externas, de contaminações externas e é de fácil coleta", afirma Camilla Oliveira, médica otorrinolaringologista.

A cera coletada é analisada no laboratório. O resultado identifica se há alterações de saúde.

"Se nosso organismo está bem, a composição química da cera do ouvido é uma. Se ele tá com alguma alteração que possa implicar numa doença, essa composição se altera. Então a cera de ouvido pra nós hoje é como se fosse uma impressão digital da nossa condição de saúde", diz Nelson Antoniosi Filho, professor da UFG e coordenador da pesquisa.

Essa pesquisa usando a cera do ouvido começou há dez anos e, desde então, as descobertas têm sido promissoras. Primeiro, os cientistas detectaram diabetes e câncer. Agora, o estudo revelou uma nova informação que deixou os pesquisadores ainda mais entusiasmados.

"Ele permite diagnosticar etapas anteriores ao câncer. Então isso, com certeza, vai facilitar muito o processo de tratamento e vai diminuir o sofrimento de pacientes", anima-se Nelson.

A pesquisa da UFG é desenvolvida em parceria com o Hospital Amaral Carvalho, em Jaú, interior de São Paulo, especializado no tratamento do câncer.

O trabalho coletou amostras de 751 voluntários, 220 não tinham nenhum diagnóstico anterior. Em cinco deles, o teste identificou substâncias atípicas, que poderiam ser indícios de câncer. Exames convencionais, feitos depois, diagnosticaram a doença. Outros 531 voluntários já estavam em tratamento oncológico. A análise da cera do ouvido indicou a doença em todos.

O José Luiz teve câncer de próstata em 2012, e se curou. Em 2019 se voluntariou a fazer o teste com a cera de ouvido, que apontou células cancerígenas. Um exame de imagem confirmou que era outro câncer, agora na região pélvica.

"Pra minha surpresa, o meu deu positivo. Aí foi um impacto", conta José Luiz Spigolon, voluntário da pesquisa.

Ele precisou fazer 36 sessões de radioterapia. Novos testes com a cera apontaram a remissão do câncer. Agora, outros exames mostram que ele está curado.

"Quanto antes a descoberta, quanto mais cedo é diagnosticada a presença do câncer no organismo, maior é a possibilidade de cura total", completa José Luiz.

O resultado da pesquisa foi publicado numa das mais importantes revistas do mundo, a Scientific Reports.

Essa médica oncologista, que trabalha no hospital de Jaú, diz que a técnica — que ainda depende de regulamentação — traz avanços. E pode tornar o diagnóstico rápido mais acessível.

"Se tudo correr como a gente imagina, num futuro próximo, tendo as aprovações necessárias, ele é um teste que é de fácil coleta. E o custo a gente estima que vai ser baixo, então realmente com impacto social importantíssimo", afirma Patrícia Milhomen, médica oncológica do Hospital Amaral Carvalho.

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Descoberta rara: insetos pré-históricos presos em âmbar revelam floresta perdida no Equador

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Descoberta inédita traz o primeiro registro de insetos em âmbar mesozoico da América do Sul e ajuda a reconstituir Gondwana.
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Por Redação g1

Postado em 20 de Setembro de 2.025 às 08h00m
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Uma mosca (Diptera: Nematocera) da família Chironomidae presa em uma amostra de âmbar estudada. — Foto: Mónica Solórzano-Kraemer/Nature
Uma mosca (Diptera: Nematocera) da família Chironomidae presa em uma amostra de âmbar estudada. — Foto: Mónica Solórzano-Kraemer/Nature

Pesquisadores identificaram no Equador o maior depósito de âmbar do Cretáceo já encontrado na América do Sul, com resina fossilizada que preserva insetos, teia de aranha e vestígios de plantas de uma floresta úmida que existiu há 112 milhões de anos. O achado fornece um retrato inédito de como era parte do supercontinente Gondwana.

🌏CONTEXTO: O Gondwana foi um supercontinente que existiu entre o fim do Neoproterozoico e o Cretáceo, reunindo terras que hoje correspondem à América do Sul, África, Antártida, Austrália, Índia e a Península Arábica.

Insetos, pólen e uma teia de aranha

O estudo, publicado na Communications Earth & Environment, analisou 60 amostras de âmbar coletadas na pedreira Genoveva, na província de Napo. Dentro delas, foram encontradas 21 bioinclusões: moscas, besouros, vespas, percevejos, um fragmento de teia de aranha e até um tricóptero, inseto ligado a ambientes aquáticos. Também foram identificados pólen, esporos e folhas fósseis, incluindo os registros mais antigos de angiospermas no noroeste da América do Sul.

Um besouro (Coleoptera: Tenebrionoidea) da família Tetratomidae (besouros-fungo poliporos) capturado em uma amostra de âmbar. — Foto: Enrique Peñalver/Nature
Um besouro (Coleoptera: Tenebrionoidea) da família Tetratomidae (besouros-fungo poliporos) capturado em uma amostra de âmbar. — Foto: Enrique Peñalver/Nature

Árvores ancestrais como fonte da resina

As análises químicas indicam que o âmbar se originou de coníferas da família Araucariaceae, parentes distantes do pinheiro-do-paraná. A formação ocorreu em um ambiente úmido, repleto de samambaias e cicadófitas, sem evidências de queimadas — um contraste com depósitos do hemisfério norte, onde o fogo era mais frequente.

Importância científica

Até agora, quase todos os grandes depósitos de âmbar com inclusões haviam sido descritos no hemisfério norte. A descoberta equatoriana preenche uma lacuna importante, permitindo estudar a biodiversidade e os ecossistemas do sul de Gondwana em um período marcado pela expansão das florestas resinosas.

Vários pedaços de âmbar formados no subsolo, encontrados no nível G3 da Pedreira de Genoveva. Observe sua estrutura em formato de rim/bola. — Foto: Xavier Delclòs/Nature
Vários pedaços de âmbar formados no subsolo, encontrados no nível G3 da Pedreira de Genoveva. Observe sua estrutura em formato de rim/bola. — Foto: Xavier Delclòs/Nature

Metodologia e limitações

A pesquisa foi conduzida por uma equipe internacional que combinou técnicas de microscopia, análises geoquímicas (FTIR e cromatografia) e estudos de palinologia. O material foi datado em cerca de 112 milhões de anos, no intervalo conhecido como "Cretaceous Resinous Interval". Apesar do avanço, o número reduzido de inclusões limita generalizações sobre a fauna. Além disso, o contato prolongado com petróleo alterou parte da composição do âmbar, o que exige cautela nas análises químicas.

Veterinários forenses encontram 9 kg de âmbar-gris em baleia morta em Nogales, na Espanha
Veterinários forenses encontram 9 kg de âmbar-gris em baleia morta em Nogales, na Espanha

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sexta-feira, 19 de setembro de 2025

FOTOS: Embraer divulga novo visual do KC-390 Millennium

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Avião de transporte tático militar é um dos líderes globais da categoria e usado pelas Forças Aéreas de 11 países.
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Por Léo Nicolini, g1 Vale do Paraíba e Região

Postado em 19 de Setembro de 2.025 às 17h45m
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Embraer divulga nova identidade visual do KC-390 Millennium — Foto: Claudio Capucho
Embraer divulga nova identidade visual do KC-390 Millennium — Foto: Claudio Capucho

A Embraer divulgou, nesta sexta-feira (19), um novo visual do KC-390 Millennium, avião de transporte tático militar usado pelas Forças Aéreas de 11 países.

A apresentação aconteceu em um evento de aviação realizado em Confins (MG), nas instalações da GOL Aerotech, que foi responsável pela pintura do avião.

De acordo com a Embraer, o modelo será usado para demonstração a potenciais clientes, participação em feiras, ações de marketing e eventos. A primeira aparição internacional ocorrerá ainda neste ano.

A pintura da aeronave demonstradora nas instalações da GOL Aerotech abre também a possibilidade futura de pintura de aeronaves de clientes, em complemento à expansão da capacidade produtiva da Embraer para atender a demanda global pelo KC-390, publicou a empresa.

Embraer anuncia novas vendas do KC-390 e do EVTOL
Embraer anuncia novas vendas do KC-390 e do EVTOL

A nova identidade visual também celebra o momento positivo do KC-390. Ainda segundo a Embraer, o modelo é líder global no transporte tático militar. A Força Aérea de 11 países usa o avião atualmente, inclusive a brasileira.

O KC-390 Millennium pode transportar mais carga útil (26 toneladas) em comparação com outras aeronaves de transporte militar de médio porte e voa mais rápido (470 nóse mais longe, sendo capaz de realizar uma ampla gama de missões, como transporte e lançamento de carga e tropas, evacuação médica, busca e salvamento, combate a incêndios e missões humanitárias, completou a Embraer.

Sediada em São José dos Campos, no interior de São Paulo, a Embraer é uma empresa brasileira e está entre as principais fabricantes de avião do mundo.

Veja as fotos:

Embraer divulga nova identidade visual do KC-390 Millennium — Foto: Claudio Capucho
Embraer divulga nova identidade visual do KC-390 Millennium — Foto: Claudio Capucho

Embraer divulga nova identidade visual do KC-390 Millennium — Foto: Claudio Capucho
Embraer divulga nova identidade visual do KC-390 Millennium — Foto: Claudio Capucho

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Tarifaço: R$ 40 bilhões em crédito já podem ser buscados no BNDES pelos exportadores; veja as taxas de juros

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Serão liberados R$ 30 bilhões do programa Brasil Soberano, anunciado pelo governo federal, e mais R$ 10 bilhões em recursos próprios do BNDES. As taxas, subsidiadas, estão abaixo do juro básico da economia, atualmente em 15% ao ano.
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Por Alexandro Martello, g1 — Brasília

Postado em 19 de Setembro de 2.025 às 10h30m
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BNDES anuncia medidas de crédito do pacote de ajuda às empresas atingidas pelo tarifaço am
BNDES anuncia medidas de crédito do pacote de ajuda às empresas atingidas pelo tarifaço am

Um mês e meio após o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinar o tarifaço elevando a alíquota de importação para 50% para vários produtos brasileiros, o governo federal disponibilizou linhas de crédito para ajudar os setores afetados.

Essa é a principal medida do pacote de ajuda aos exportadores anunciado pelo Executivo.

De acordo com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que está operacionalizando o crédito, serão liberados R$ 30 bilhões do programa Brasil Soberano, anunciado pelo governo, e mais R$ 10 bilhões em recursos próprios.

Medidas pra exportadores prejudicados pelo tarifaço dependem da publicação de atos normativos pra terem efeito prático
Medidas pra exportadores prejudicados pelo tarifaço dependem da publicação de atos normativos pra terem efeito prático

"O BNDES vai socorrer todas as empresas e a contrapartida é manter os empregos para a economia continuar crescendo e o país não ser prejudicado por essas medidas autoritárias, unilaterais e injustificadas, afirmou o presidente do BNDES, Aloizio Mercadante.

Os empréstimos poderão ser buscados por exportadores de 9.777 produtos. Os empresários podem verificar se têm direito, e solicitar os recursos, na página da internet do BNDES na internet.

  • Os prazos das operações da linha emergencial variam entre cinco e 10 anos (60 e 120 meses, com carência de 12 e 24 meses, respectivamente).
  • O valor máximo de financiamento por mutuário para as finalidades relativas à aquisição de bens de capital e ao financiamento de investimentos será de R$ 150 milhões.
  • Para as finalidades relativas à capital de giro, as grandes empresas terão valor máximo de financiamento de R$ 200 milhões, enquanto as médias, pequenas e microempresas terão valor máximo de financiamento de R$ 35 milhões.
Crédito de ajuda aos exportadores — Foto: BNDES
Crédito de ajuda aos exportadores — Foto: BNDES

"Os interessados precisarão se autenticar utilizando a plataforma GOV.BR, exclusivamente por meio do certificado digital da empresa. Após a autenticação, o sistema informará se a empresa é elegível e quais soluções do Plano Brasil Soberano podem ser solicitadas", informou a instituição financeira.

As linhas de crédito são destinadas a capital de giro e investimentos em adaptação da atividade produtiva, além da aquisição de máquinas e equipamentos e da busca de novos mercados. As taxas, subsidiadas, estão abaixo do juro básico da economia, atualmente em 15% ao ano.

No Brasil Soberano, são disponibilizadas quatro linhas de crédito:

  • Capital de Giro (gastos operacionais gerais): crédito para apoiar exportadores de bens, através do financiamento de gastos operacionais gerais, com taxas de até 10,4% ao ano.
  • Giro Diversificação (busca de novos mercados): Crédito para apoiar, na fase pré-embarque, a produção para exportação de bens afetados constantes da tabela de produtos MDIC, através do financiamento da busca de novos mercados, com juros de até 8,2% ao ano.
  • Bens de Capital (aquisição de máquinas e equipamentos) e investimentos (em inovação tecnológica, adaptação da atividade produtiva de produtos, de serviços e de processos, e adensamento da cadeia produtiva), com taxas de até 7,2% ao ano.

Já as linhas de crédito com recursos próprios do BNDES podem ser buscados por empresas cujos produtos receberam qualquer percentual de tarifa e com qualquer nível de impacto no faturamento bruto.

Neste caso, são duas linhas disponíveis: Capital de Giro Emergencial (financiamento de gastos operacionais gerais) e Capital de Giro Diversificação (busca de novos mercados).

Empresas que buscarem empréstimos deverão manter empregos — Foto: BNDES
Empresas que buscarem empréstimos deverão manter empregos — Foto: BNDES

Outras medidas

Além da linha de crédito de R$ 30 bilhões, o governo também anunciou outras medidas de suporte às empresas afetadas pela sobretaxa de 50% em suas vendas externas aos Estados Unidos. São elas:

➡️Seguro à exportação: governo anunciou instrumentos para proteger o exportador contra riscos como inadimplência ou cancelamento de contratos, permitindo que bancos e seguradoras utilizem essa garantia em mais tipos de operações.

➡️A Receita Federal foi autorizada a fazer diferimento (adiamento) de cobrança de impostos para as empresas mais afetadas pelo tarifaço.

➡️Isenção de insumos para exportações: o governo anunciou a prorrogação, por um ano, do prazo para que as empresas consigam exportar mercadorias que tiveram insumos beneficiados pelo chamado "drawback".

➡️Novo Reintegra: o governo também anunciou que as empresas exportadoras terão crédito tributário (valores a abater em impostos) para que suas vendas ao exterior sejam desoneradas.

➡️Compras públicas: Foi anunciado que a União, estados e municípios poderão fazer compras públicas para seus programas de alimentação (para merenda escolar, hospitais etc.).

➡️Diversificação de mercados: o governo anunciou, ainda, que continuará trabalhando para diversificar mercados, ou seja, buscando novos países compradores dos produtos sobretaxados pelos Estados Unidos.

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quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Exclusivo | Lula sobre anistia a Bolsonaro: 'Pode ficar certo de que eu vetaria'

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Em entrevista exclusiva à BBC News Brasil e à BBC News, presidente diz que não comemorou condenação de Jair Bolsonaro à prisão e que está pronto para 'estender a mão' para Trump durante possível encontro na ONU.
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TOPO
Por BBC

Postado em 18 de Setembro de 2.025 às 10h00m
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Presidente Lula em entrevista à BBC — Foto: Paulo Koba/BBC
Presidente Lula em entrevista à BBC — Foto: Paulo Koba/BBC

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse, em entrevista exclusiva à BBC News Brasil e à BBC News, que vetará a proposta de anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) caso o Congresso Nacional aprove um projeto de lei que tramita no Parlamento e que pode ir a votação nos próximos dias.

"Se viesse pra eu vetar, pode ficar certo de que eu vetaria. Pode ficar certo que eu vetaria", disse Lula. A entrevista foi concedida na manhã desta quarta-feira (17/9), no Palácio da Alvorada.

A declaração de Lula acontece em meio a uma intensa movimentação no Congresso Nacional organizada pela ala bolsonarista que pressiona o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), a colocar o texto em votação.

Câmara aprova urgência para projeto da anistia a participantes de atos golpistas
Câmara aprova urgência para projeto da anistia a participantes de atos golpistas

A expectativa entre lideranças bolsonaristas é de que Motta libere a votação de um pedido de tramitação da proposta em regime de urgência, que aceleraria a apreciação do projeto.

Apesar de dizer que vetaria a anistia, Lula tentou se distanciar do assunto indicando que caberia ao Congresso e não a ele decidir sobre o assunto.

"O presidente da República não se mete numa coisa do Congresso Nacional. Se os partidos políticos entenderem que é preciso dar anistia e votar a anistia, isso é um problema do Congresso", diz o presidente.

Bolsonaro foi condenado no dia 11/09 pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 27 anos de prisão no processo que apurou uma tentativa de golpe de Estado entre 2021 e 2023.

Sua defesa negou a participação do ex-presidente no caso e alegou que ele é inocente. Bolsonaro está em prisão domiciliar desde o início de agosto por descumprir medidas cautelares impostas pelo ministro do STF Alexandre de Moraes.

Como ainda cabe recurso da condenação do ex-presidente, ainda não houve definição sobre em que local ou presídio ele irá cumprir sua pena.

Na entrevista, Lula também criticou a aprovação pela Câmara dos Deputados da proposta de emenda constitucional (PEC) que criou dificuldades para a abertura de investigações criminais contra parlamentares.

A medida ficou conhecida por críticos como "PEC da blindagem" e foi aprovada por ampla maioria na Casa, inclusive, com o voto de parte da bancada do PT.

"Se eu fosse deputado, eu votaria contra. Se eu fosse presidente do meu partido, orientaria para votar contra. Aliás, eu votaria para fechar questão e votar contra".

A quatro dias de embarcar para Nova York para participar da Assembleia Geral da ONU, Lula criticou o tarifaço imposto pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e diz que não ligou para o americano por entender que ele não quer diálogo.

"Eu não tentei fazer chamada porque ele nunca quis conversar. Nunca quis conversar", afirmou.

Apesar disso, Lula afirmou que se os dois se encontrarem durante sua passagem por Nova York, estaria disposto a conversar com o presidente norte-americano.

"E se ele chegar e passar perto de mim eu vou cumprimentá-lo porque eu sou cidadão civilizado. Eu converso com todo mundo. Eu estendo a mão pra todo mundo. Eu nasci na vida política negociando. Então, pra mim não tem nenhum problema".

Questionado sobre se se arrepende de ter associado Trump ao fascismo durante uma entrevista em 2024, Lula não respondeu diretamente.

"O comportamento dele é muito ruim para a democracia. O presidente Trump tem negado tudo aquilo que é habitualmente conhecido de respeito às instituições democráticas do mundo. Ele tem tido um comportamento muito ruim e tem apoiado pessoas antidemocráticas no mundo inteiro".

Lula também foi questionado sobre o fato de o Brasil receber a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30) ao mesmo tempo em que ele e parte de seu governo apoiam a exploração de petróleo na bacia da Foz do Amazonas, contrariando cientistas e ambientalistas.

"Eu sou totalmente favorável de que haverá o momento em que o mundo não vai precisar de combustível fóssil. Mas este momento não chegou. Eu quero saber qual é o país do planeta que está preparado para ter uma transição energética capaz de abdicar do combustível fóssil?", disse.

Confira os principais trechos da entrevista editados por motivos de clareza e concisão:

BBC News Brasil e BBC News - O senhor comemorou Bolsonaro ter sido condenado a 27 anos de prisão?

Luiz Inácio Lula da Silva - Não, eu acho que não é para se comemorar o julgamento feito pela Suprema Corte contra um homem que cometeu muitos erros. O que é importante que as pessoas tenham clareza é que não foi um homem ou três homens que foram julgados.

Foram pessoas que tiveram um comportamento irregular, um comportamento equivocado, ferindo a Constituição brasileira e ferindo o Estado democrático de direito no Brasil.

Essas pessoas fizeram muito mal ao país. Essas pessoas tentaram dar um golpe de Estado. Essas pessoas articularam a minha morte, a morte do meu vice, a morte de um juiz da Suprema Corte. Esta gente preparou uma bomba para explodir no aeroporto de Brasília. Essa gente fez muita desordem no Brasil na perspectiva de evitar a minha posse. Eles estão sendo julgados pelas provas.

Eu acho triste isso, porque o mais longo período de democracia contínua no Brasil é esse que estamos vivendo agora. A gente precisa aprender a gostar da democracia, o direito de ir e vir, o direito de respeitar os outros. O direito à liberdade de expressão não dá direito de você desacatar, de você ofender, de você pregar o ódio através das redes digitais.

Sinceramente, eu gostaria que ninguém tivesse cometido nenhum crime. E ele [Bolsonaro] teve todo o direito de se defender. Todo o direito. Ele teve a presunção de inocência, sabe? E foi condenado. Eu espero que ele continue apresentando suas defesas e continue tentando provar que ele não tem culpa, porque até agora ele é o culpado de dar tentativa de golpe de estado nesse país e de tentar outras mazelas.

Lula diz que preferia que Bolsonaro não tivesse cometido crime — Foto: Paulo Koba/BBC
Lula diz que preferia que Bolsonaro não tivesse cometido crime — Foto: Paulo Koba/BBC

BBC – 'Vítimas da maior mentira legal'. Essas palavras não foram ditas por Bolsonaro ou por Trump. Essas foram as palavras do senhor quando foi condenado à prisão por corrupção. O senhor concorda com Bolsonaro que o Judiciário no Brasil às vezes pode ser político?

Lula - Acho que ele [Bolsonaro] foi julgado por um crime que ele cometeu. Não tem política nisso. Eu fui julgado sem ter direito de defesa. Fui julgado, fiquei 580 dias preso, até hoje não provaram absolutamente nada. E a sentença que deram para mim era que eu tinha cometido um crime chamado fato indeterminado, ou seja, uma má fé.

No caso do ex-presidente, você tem provas concretas, você tem delações concretas, você tem documentos concretos escritos por eles. Então, não há como você tentar colocar que foi um julgamento político. Não. Foi um julgamento processual por desrespeito à nossa Constituição, por tentar destruir o Estado democrático de direito desse país, com todas as provas possíveis. Com imagens das coisas que eles fizeram de errado. Então, não tem política. Tem justiça.

BBC - O senhor já disse que concorda com Donald Trump quando ele diz que é importante trazer de volta empregos e indústrias para os EUA, mas diz que a tarifas não são a resposta certa. Qual é a resposta certa?

Lula - Eu acho que as acusações e as afirmações pelas quais o presidente Trump fez uma taxação contra o Brasil são eminentemente políticas. Não tem nada de comercial. Do ponto de vista comercial, os Estados Unidos, nos últimos 15 anos, tiveram 410 bilhões de superávit comercial com o Brasil.

Portanto, Trump tomou a atitude em função de um processo político do Bolsonaro, o que eu lamento profundamente... que um presidente de um outro país não leve em conta a necessidade de respeitar a soberania do outro país, inclusive de respeitar o Poder Judiciário e a Suprema Corte de um outro país.

Nós ainda vamos ter que esperar muito para ver o que vai acontecer. Eu tenho a convicção de que algumas coisas estão prejudicando também os Estados Unidos, porque a inflação vai crescer, porque o café vai ficar mais caro, porque a carne vai ficar mais cara, porque o povo americano vai pagar pelos equívocos que o presidente Trump está tendo na relação com o Brasil.

BBC – Qual é a solução, então?

Lula - Para qualquer conflito, a melhor alternativa é você se sentar em torno de uma mesa e negociar. Se é do ponto de vista comercial, tem negociação, se é do ponto de vista econômico, tem negociação, tanto do ponto de vista de tributação, tem negociação. O que não tem negociação é a questão da soberania nacional. A nossa democracia e a nossa soberania não estão na mesa de negociação. Ela é nossa, ela é do povo brasileiro. E aqui mandamos nós.

BBC – O senhor escreveu um artigo no New York Times em que disse que estava aberto ao diálogo. Por que não ligar para Trump?

Lula – Porque eles não querem conversar.

BBC – Mas Trump disse que o senhor poderia ligar a qualquer momento...

Lula – Eles não querem conversar. Eu estou dizendo há quatro meses que estamos dispostos a conversar. É importante lembrar que, quando o presidente Trump comunicou a taxação ao Brasil, ele não comunicou da forma civilizada com a qual dois chefes-de-Estado se comunicam.

BBC – Mas por que não tentar pegar o telefone e ligar para ele?

Lula – Ele publicou no portal dele [as tarifas] e eu fiquei sabendo pelos jornais aqui no Brasil. Eu tenho o meu ministro da Fazenda [Fernando Haddad], eu tenho o meu ministro da Indústria e Comércio, que é meu vice-presidente [Geraldo Alckmin]. Eu tenho o meu ministro das Relações Exteriores [Mauro Vieira] tentando conversar com os negociadores americanos e ninguém consegue conversar porque eles não querem conversar.

Eles não querem multilateralismo, eles querem unilateralismo. Quando eles quiserem conversar, o Brasil está pronto. E com o Trump, na hora que ele quiser, eu estou disposto a conversar.

BBC - O senhor tentou ligar para Trump e ele apenas não atendeu, ou o senhor não tentou ligar?

Lula - Eu não tentei fazer chamada porque ele nunca quis conversar.

BBC - Então o senhor nunca tentou...

Lula - Nunca, nunca quis conversar. Uma coisa é falar com a imprensa. Outra coisa é dizer o seguinte: ninguém tentou conversar com o Brasil. Estou dizendo a você que a informação da taxação eu recebi pela imprensa. Nem o meu Ministério das Relações Exteriores recebeu. Nem o meu. Foi uma coisa taxada simplesmente de uma pessoa que não quer conversar, não quer dialogar. Não é comigo, não. É com ninguém. E nós tentamos entrar em contato muitas vezes. Tivemos várias reuniões. Aliás, tivemos muitas reuniões com os EUA e no dia 16 de maio mandamos uma carta cobrando uma resposta das negociações que a gente tinha feito.

BBC - O senhor não tentou ligar porque Trump não tentou ligar antes de impor as tarifas, correto?

Lula - A razão que nós não ligamos é porque os americanos não querem conversar. Eles acham que eles podem tomar decisões, publicar no jornal e a responsabilidade fica do nosso lado. Não. O que nós estamos trabalhando é o seguinte: nós entramos num processo na OMC, nós estamos entrando com o processo na seção 301 [respondendo à investigação do Departamento de Comércio dos EUA] e nós vamos fazer a reciprocidade, no momento em que nós entendemos que é correto fazer a reciprocidade. Quem sabe, depois de tudo isso, haja a possibilidade de sentar numa mesa e negociar?

BBC – Em poucas palavras, como o senhor descreveria seu relacionamento com Donald Trump?

Lula – Olha, não tem relação. Eu tive muita relação com todos os presidentes americanos. Eu tive muita relação com o [George W.] Bush, eu tive muita relação com o [Joe] Biden, eu tive muita relação com o [Barack] Obama, tive relações com ex-presidentes americanos. Tenho relação com o Reino Unido, todos os primeiros-ministros, tenho com toda a União Europeia, Rússia, Ucrânia, tenho com a Venezuela, Bolívia, todos os países do mundo. O Brasil não tem contencioso com nenhum país do mundo. O Brasil não tem contencioso e o Brasil não quer contencioso.

BBC – Muitos nações e líderes que discordam de Trump politicamente construíram relacionamentos com ele. O senhor se arrepende de não ter tido essas relações diante dessa situação agora do tarifaço?

Lula – O problema da soberania americana é um problema deles. Eu não posso ficar dando palpite na relação do presidente Trump com outros presidentes de países. O que me preocupa é a relação com o Brasil. O Brasil tem 201 anos de relações com os Estados Unidos. O que me estranha é que o presidente Trump, ao invés de, de forma civilizada, conversar com o Brasil, ele resolveu inventar uma história política. Ele resolveu inventar a inverdade do déficit do comercial.

Depois, disse que o Bolsonaro está sendo perseguido, que não tem democracia. O Brasil tem muita democracia. Aliás, tem muitos artigos hoje publicados nos Estados Unidos mostrando que o Brasil está dando um exemplo de democracia no mundo. O que eu disse era que, se o presidente Trump tivesse feito aqui no Brasil o que ele fez no Capitólio, ele também teria sido julgado. Porque aqui a Justiça é para todos.

BBC - O senhor construiu relacionamentos, como o senhor disse, com outros líderes mundiais. O senhor foi ao aniversário do fim da Segunda Guerra na Rússia. Com quem o senhor tem um melhor relacionamento: com Putin ou com o presidente Trump?

Lula - Com Putin eu tive relações porque ele foi presidente outras vezes e eu já fui presidente outras vezes. Eu não tenho nenhuma relação com o Trump, porque quando o Trump foi presidente da outra vez, eu não era presidente da República. Agora a relação dele é com o Bolsonaro, não é com o Brasil.

BBC – O senhor diz que quer uma ONU mais democrática. Por que não denunciar o autoritarismo entre alguns dos seus aliados? Rússia, China, Irã são países onde têm sido amplamente documentado que tem havido eleições injustas, eleições não democráticas, e abusos de direitos humanos...

Lula – Deixa eu te dizer uma coisa sobre o que eu quero das Nações Unidas. Eu quero que as Nações Unidas representem a geografia mundial do século XXI. A ONU de hoje, sabe, não tem nada a ver com a ONU, que foi criada em 45, ou melhor... a ONU que foi criada em 45. Não tem nada a ver com a ONU de hoje, ou seja, é preciso colocar os outros países. Cadê o Brasil na ONU? Cadê o México? Cadê a Argentina? Cadê a Índia? Cadê a Alemanha? Cadê o Japão? Cadê os países africanos? A ONU não pode continuar com os cinco países que resultaram da Segunda Guerra Mundial.

A geografia mundial mudou, a geopolítica mudou e é preciso que a ONU volte a ter força para que ela possa incidir nos conflitos. Se ela não tem força, ela não tem incidência em nenhum conflito. Não consegue incidir na guerra da Ucrânia, não consegue incidir em Israel, na guerra do Irã, não consegue inicidir em nada porque não tem mais representatividade.

Os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU, os membros permanentes, eles próprios não respeitam mais a ONU. Eles tomam decisões unilaterais. O que nós queremos é uma ONU que representa a geopolítica de hoje. Que os países estejam presentes. Nós temos na África países com 240 milhões de habitantes, [outros] com 120 milhões de habitantes. Nós temos o Brasil com 200 milhões. Esses países têm que estar no Conselho da ONU para ajudar a tomar decisões de democracia.

BBC – O senhor fala sobre democracia. Por que, então, não condenar a Rússia por suas ações na Ucrânia com a mesma linguagem que o senhor usa contra Israel, por exemplo? Por que o Brasil continua, alegremente, a financiar a guerra na Ucrânia ao comprar diesel russo?

Lula - Deixe-me falar uma coisa: é importante que tenha clareza do que o Brasil faz. O Brasil foi o primeiro país a condenar a ocupação da Ucrânia pela Rússia. O Brasil não financia a Rússia. O Brasil compra petróleo porque o Brasil precisa comprar petróleo. Como a China precisa comprar petróleo, como a Índia precisa comprar petróleo, como a Inglaterra precisa comprar petróleo, como os Estados Unidos precisam comprar petróleo.

Agora, se nós tivéssemos uma ONU funcionando corretamente, certamente essa guerra não teria acontecido. Não tem ninguém negociando porque a ONU não representa muita coisa. Hoje, se tivesse uma ONU funcionando, essa guerra não precisaria ter existido. Se a ONU estivesse funcionando, não precisava estar acontecendo Gaza. E eu não acho que em Gaza tem uma guerra. Em Gaza tem um genocídio. Em Gaza tem um Exército [israelense] altamente sofisticado matando mulheres e crianças. E até o próprio povo judeu está contra isso porque toda vez eu vejo na imprensa passeata do povo judeu contra a matança que o Netanyahu está fazendo em Gaza.

Se vocês acham que isso é uma guerra, eu não acho. Eu acho que isso é um genocídio e que não pode continuar. É por isso que eu defendo a criação de dois Estados. É por isso que eu defendo a criação do Estado palestino para viver em harmonia com o Estado de Israel.

BBC – Gostaria de falar, também, sobre a COP30. O Brasil vai estar no palco mundial recebendo a COP30 neste ano…

Lula - Eu só queria voltar à questão da democracia. Nenhum país do mundo pode colocar em xeque a democracia brasileira. Aqui as coisas funcionam, aqui a Justiça funciona. Aqui o Poder Legislativo funciona e aqui o Executivo funciona. O que nós queremos é o seguinte: nós somos soberanos nas decisões que estamos tomando no Brasil.

Nós fomos o primeiro a criar o Grupo de Amigos da Paz na Rússia e Ucrânia. Fomos o primeiro. Criamos um grupo de 13 países para negociar. Procurei as Nações Unidas para dizer que era preciso criar um grupo de amigos, visitar o Putin, visitar os Zelensky [presidente da Ucrânia] e dizer para eles que era preciso acabar com essa guerra. A pedido do Zelensky, eu liguei para o Putin para ele participar da mesa de negociação. Agora não somos nós que vendemos armas para a Rússia e muito menos para o Zelensky. Não somos nós que queremos a guerra. Eu não quero nem destruir a Rússia e nem destruir a Ucrânia. Eu quero que os dois países vivem em paz. É isso que eu quero.

BBC – Gostaria de seguir para a COP30 quando o Brasil vai estar no palco mundial recebendo a COP30. Como a sua liderança climática é consistente com seu desejo pessoal para permitir petroleiras para perfurar na bacia amazônica?

Lula - Olha, deixa eu lhe dizer uma coisa muito clara: nós vamos realizar a melhor COP já realizada na história das COPs. A COP foi escolhida para ser feita na Amazônia porque eu quero que o mundo, ao invés de falar sobre a Amazônia, conheça a Amazônia. Eu quero que as pessoas que estão preocupadas com as florestas venham conhecer as florestas. É muito fácil fazer uma COP em Paris. É muito fácil fazer uma Copa em Dubai. Agora, fazer uma COP na Amazônia? Eu quero que as pessoas conheçam a Amazônia. Quero que as pessoas conheçam o povo da Amazônia.

BBC – Com todo respeito, presidente: a Agência Internacional de Energia diz que não pode haver nenhum novo projeto de petróleo se queremos atingir emissões zero até 2050. Eles estão errados?

Lula – Não estou entendendo sua pergunta sobre energia...

BBC - A Agência Internacional de Energia diz que não pode haver nenhum novo projeto de petróleo se queremos atingir emissões zero até 2050. Eles estão errados?

Lula – Primeiro, é preciso saber qual é a necessidade de cada país. O Brasil é um país que tem petróleo e nós possivelmente temos petróleo na Margem Equatorial. E nós estamos pesquisando, cumprindo todos os rigores da lei, para que a gente possa fazer a pesquisa e saber se lá tem petróleo. Nós temos a empresa chamada Petrobras, que é a empresa que tem a melhor tecnologia de prospecção em águas profundas.

É uma empresa que nunca teve um incidente, diferentemente da empresa inglesa, que teve um problema no Golfo do México. Nós nunca tivemos um problema. E se nós tivermos um problema, nós seremos responsáveis para cuidar desse problema. Eu sou totalmente favorável de que haverá o momento em que o mundo não vai precisar de combustível fóssil. Mas este momento não chegou. Eu quero saber qual é o país do planeta que está preparado para ter uma transição energética capaz de abdicar do combustível fóssil? E eu vou lhe dizer uma coisa é importante o povo inglês saber.

O Brasil é o país que tem a matriz energética mais limpa do mundo. Noventa por cento da energia elétrica brasileira é limpa. O Brasil tem 30% de etanol na gasolina. O Brasil tem 15% de biodiesel no óleo diesel. O Brasil é um país que tem um potencial de eólica, de solar, de biomassa que nenhum país do mundo tem. Então, nós estamos fazendo a maior revolução na transição energética que algum país está fazendo.

BBC – Gostaria de lhe perguntar, sim ou não, o senhor vai disputar as eleições no ano que vem, em 2026. O senhor se arrisca repetir o que aconteceu nos EUA, onde um presidente perto dos 80 disputou contra um populista de extrema direita?

Lula - Eu não sei se eu vou concorrer porque não está o momento de decidir ainda. Quem vai decidir se eu vou concorrer ou não são dois fatores: meu estado de saúde e o meu partido e a conveniência política sobre s eu vou ganhar ou não vou ganhar as eleições. Mas eu fui eleito ainda para governar. Eu tenho um ano e meio de mandato. Eu tenho que governar esse país.

Eu tenho muita coisa para fazer. Quando deixei o país, esse país tinha acabado com o mapa da fome em 2014. Quando eu voltei, esse país tinha 33 milhões de pessoas passando fome. Nós acabamos com a fome em dois anos e meio nesse país.

Esse país está crescendo há dois anos acima da média mundial. Esse país está crescendo, a massa salarial está crescendo, a renda do povo trabalhador, o menor desemprego da história está acontecendo aqui. Tudo isso são fatores que vão pesar no momento em que eu tiver que decidir ou não de ser candidato. Mas ainda é muito cedo e eu vou aguardar o momento para saber se eu decido ser candidato ou não.

BBC - O senhor já falou a respeito da condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro. Gostaria de saber: que sentimento o senhor teve quando soube da existência de um plano para lhe assassinar?

Lula - Eu fiquei um pouco bestificado porque o Brasil não tem essa cultura. O Brasil não tem essa cultura de assassinato como você vê no México. De vez em quando você vê isso num país da América Central ou nos Estados Unidos. O Brasil não tem essa cultura.

Eu fiquei assustado porque eu imaginei que a gente já tinha derrotado a ideia de golpe no Brasil e, de repente, surge um cidadão que se acha no direito de desacreditar tudo o que é normal, de negar todas as instituições e achar que somente o que ele pensa que é verdadeiro.

Eu fiquei imaginando como é a cabeça de um cidadão que, ao perder as eleições, arquitetou a morte do ganhador para não deixar ele tomar posse.

BBC - Está havendo uma articulação no Congresso para que seja concedida a anistia. O senhor vetará uma anistia?

Lula - O presidente da República não se mete numa coisa do Congresso Nacional. Se os partidos políticos entenderem que é preciso dar anistia e votarem assim, isso é um problema do Congresso.

BBC - Mas isso volta para o senhor sancionar…

Lula - Se for PEC (proposta de emenda constitucional), não precisa sancionar. Se for uma lei aprovada e os partidos estiverem de acordo, o presidente da República… se viesse pra eu vetar, pode ficar certo de que eu vetaria. Pode ficar certo que eu vetaria.

BBC - E o senhor vetaria uma anistia para reduzir as penas dos outros envolvidos?

Lula - Você está pedindo para eu discutir uma coisa que é do Poder Judiciário. As pessoas ainda sequer foram presas. Ainda tem possibilidade de recurso. Vamos aguardar o processo.

O presidente da República pode dar indulto. O presidente da República pode fazer um monte de coisas. Não há porque essa pressa toda. Vamos ver qual é o comportamento do Congresso Nacional.

Nós vamos ter eleições daqui a 18 meses e já tem gente dizendo que se for eleito, vai liberar, vai dar indulto.

BBC - A Câmara aprovou ontem o que já é considerada a maior blindagem contra investigações a políticos desde 2001. Qual sua opinião sobre a PEC da blindagem?

Lula - Se eu fosse deputado, eu seria contra e votaria contra. Eu acho que a maior blindagem que as pessoas precisam é ter um comportamento sem cometer nenhum ilícito na vida. Eu acho desagradável as pessoas fazerem uma blindagem, inclusive colocando o presidente de partido. Ficou uma coisa muito esquisita para a sociedade brasileira compreender o que é isso.

BBC - Dezoito por cento da bancada do seu partido votou a favor. O senhor pretende orientar de forma diferente?

Lula - Deixe eu lhe falar uma coisa: eu não sou o presidente do meu partido, sou o presidente da República. Eu estou dizendo para você que se eu fosse deputado, eu votaria contra. Se eu fosse presidente do meu partido, orientaria para votar contra. Aliás, eu votaria para fechar questão e votar contra.

BBC - Em 2018, o PT tinha o seguinte lema: eleição sem Lula era ilegítima. Hoje, a direita faz isso em relação ao ex-presidente Jair Bolsonaro. O senhor teme enfrentar Jair Bolsonaro em 2026?

Lula - Em primeiro lugar, essa comparação não pode ser feita. Eu estava preso por irresponsabilidade de um juiz [o atual senador Sergio Moro] e de um promotor [o ex-deputado federal Deltan Dallagnol] sem que tivessem qualquer prova contra mim. Eu tive autorização da ONU duas vezes, em Genebra, para ser candidato. E aqui no Brasil, resolveram que a decisão da ONU não valia para o Brasil e não me deixaram ser candidato. No caso desse cidadão, há crime comprovado. Se você assistiu ao julgamento, você viu as provas concretas dos crimes cometidos.

Eu ganhei dele quando ele estava na Presidência. Não me causa nenhum problema disputar eleição com quem quer que seja. O que eu acho é que esse cidadão cometeu um crime e se ele não provar a inocência dele até o final desse processo, ele vai ser condenado e vai ser preso.

BBC - De forma objetiva, o senhor teme enfrentá-lo nas urnas de 2026?

Lula - Eu comecei dizendo o seguinte: eu ganhei dele quando ele estava no mandato, utilizando todos os meios possíveis para evitar que eu ganhasse, inclusive mandando a Polícia Rodoviária Federal cercear estradas para que os eleitores não fossem votar. Ele utilizou o equivalente a US$ 60 bilhões do orçamento brasileiro para tentar evitar que eu ganhasse as eleições e eu ganhei.

BBC - O senhor vem citando o fato de que em nenhum momento os Estados Unidos tentaram abrir algum diálogo com o Brasil, mas em 2024, o senhor declarou apoio à candidatura da [ex-vice-presidente] Kamala Harris para a presidência dos Estados Unidos e também, numa entrevista, o senhor associou Donald Trump ao fascismo. O senhor se arrepende de ter feito essa associação?

Lula - Eu não declaro apoio a presidente de outro partido, de outro país.

BBC - O senhor fez isso em redes sociais, em entrevistas...

Lula - Eu disse claramente que se eu fosse eleitor americano, eu votaria no Biden.

BBC - Mas isso não é declarar apoio?

Lula - Mas isso não tem nada a ver com a relação Brasil.

BBC - E com relação a associar o Trump ao fascismo? O senhor se arrepende de ter feito isso?

Lula - O comportamento dele é muito ruim para a democracia. O presidente Trump tem negado tudo aquilo que é habitualmente conhecido de respeito às instituições democráticas do mundo. Ele tem tido um comportamento muito ruim e tem apoiado pessoas antidemocráticas no mundo inteiro. Mas isso não mexe com a relação do Brasil com os Estados Unidos. Os dois presidentes de dois países não precisam ser ideologicamente afinados.

O que nós temos que ter é ter responsabilidade de presidente. Ele é presidente de um país e eu sou presidente de outro. A relação de chefe de Estado não tem ideologia. O que tem é o interesse do povo que nós representamos. Eu tive relação com todos os primeiros-ministros da Inglaterra sem nenhum problema. Eu não quero saber de que ser é de direita nem de esquerda. Eu quero saber se ele é primeiro-ministro, se ele tem voto. A minha relação com Trump é a mesma coisa.

Se o Trump foi eleito pelo povo americano, ele é o presidente dos Estados Unidos e é com ele que eu tenho que ter relações. E ele da mesma forma comigo. Ele pode ter uma simpatia pelo Bolsonaro, mas eu sou o presidente. Ele tem que negociar com o Brasil. É assim que dois chefes de Estado se comportam.

BBC - Não ficou claro para mim: o senhor se arrepende de ter feito essa associação ou não? E gostaria de adicionar uma pergunta. O senhor está indo a Nova York e há possibilidade de dividir o mesmo espaço com o presidente Trump. Se o senhor tiver a oportunidade, o que o senhor falará ao presidente Trump?

Lula - Eu fui à ONU muitas vezes e tem presidente que eu encontro e outros que eu não encontro e vai ser assim com o Trump. Eu falo primeiro que ele e vou chegar antes. Se ele chegar e passar perto de mim, vou cumprimentá-lo porque eu sou cidadão civilizado. Eu converso com todo mundo. Eu estendo a mão pra todo mundo. Eu nasci na vida política negociando. Não tenho nenhum problema pessoal com o presidente Trump. A única coisa que eu sei é que ele é presidente dos Estados Unidos da América do Norte. Ele não é o imperador do mundo. A única coisa que quero dele é que ele tenha uma relação civilizada com o Brasil e o Brasil com eles.

Se for necessário negociar com o Trump na hora, eu negocio e converso com o Trump. O que eu quero é que o Brasil seja tratado com respeito e o que aconteceu até agora não foi isso [...] Depois que nós mandamos uma carta pedindo que eles definissem se aceitavam ou não as nossas propostas, eles publicaram a taxação pela imprensa brasileira. Isso é inaceitável. Uma taxação com mentiras dizendo que a gente não poderia regular as big techs americanas. Ninguém vai regular big tech nos Estados Unidos. O que vamos regular é as big techs que funcionam no Brasil, que é o que o mundo inteiro tem que fazer.

O Brasil tem um histórico: a nossa última guerra foi com o Paraguai e já faz quase 200 anos. Eu quero manter uma relação civilizada com os americanos. Eu até já tinha esquecido que eles foram responsáveis pelo golpe de 1964. As declarações que eu vejo de alguns porta-vozes são desrespeitosas a um país soberano. Agora mesmo, um cidadão [o secretário do Departamento de Estado, Marco Rubio] disse que vão aumentar as punições ao Brasil e tirar vistos de ministros da Suprema Corte brasileira.

BBC - O senhor teme uma nova retaliação?

Lula - Isso é uma política pequena que não leva a nada. Como eu sou um cidadão com muita paciência, tenho certeza que o tempo vai ser o senhor da razão e a gente vai ver o que vai acontecer.