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quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

O segredo que torna 'indestrutível' um dos animais mais resistentes que existem

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Pesquisadores descobriram o mecanismo vital que permite que esses pequenos animais sobrevivam em condições extremas.
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TOPO
Por BBC

Postado em 24 de janeiro de 2024 às 09h00m

#.*Post. - N.\ 11.088*.#

A aparência amigável do tardígrado esconde uma incomparável capacidade de sobrevivência — Foto: GETTY IMAGES via BBC
A aparência amigável do tardígrado esconde uma incomparável capacidade de sobrevivência — Foto: GETTY IMAGES via BBC

Com aparência rechonchuda e surreal, os tardígrados intrigam pesquisadores há anos.

Esse animal de oito patas cuja extensão não ultrapassa um milímetro pode ser encontrado em quase todos os habitats do mundo, e tem uma capacidade insuperável de sobreviver nas situações mais extremas.

Nem a falta de oxigênio ou de água, nem as temperaturas escaldantes ou geladas e tampouco a radiação do espaço abalam os chamados "ursos d'água".

Eles sobrevivem a essas condições entrando num estado profundo de animação suspensa.

Essa aptidão permite que eles habitem a Terra há pelo menos 600 milhões de anos, superando com sucesso os cinco eventos de extinção em massa do planeta.

Mas como eles fazem isso?

Conforme descobriu uma equipe de pesquisadores, o mecanismo chave que contribui para a sua resistência é uma espécie de interruptor molecular que inicia o estado de animação suspensa.

Esse sensor molecular detecta condições prejudiciais no ambiente e diz ao invertebrado quando deve entrar em estado de dormência e quando pode retomar a vida normal.

O estudo — liderado pelos pesquisadores Derrick R. J. Kolling, da Universidade Marshall, e Leslie M. Hicks, da Universidade da Carolina do Norte em Chapel Hill, Estados Unidos — foi publicado na revista PLOS ONE.

O experimento

Para compreender o mecanismo, os pesquisadores expuseram os tardígrados, também conhecidos popularmente pelo carinhoso apelido de "leitões de musgo", a temperaturas congelantes, altos níveis de água oxigenada, sal e açúcar.

Em resposta a essas condições extremas, as células dos animais produziram moléculas danosas altamente reativas chamadas radicais livres.

Os radicais livres logo reagiram com outras moléculas, disse Hicks à revista New Scientist.

Assim, descobriram que os radicais livres oxidam um aminoácido chamado cisteína, um dos componentes básicos das proteínas do corpo.

Essas reações fazem com que as proteínas alterem a sua estrutura e função, e isto envia um sinal para iniciar a dormência.

Nas experiências em que os pesquisadores usaram substâncias químicas para bloquear a cisteína, os ursos d'água não conseguiram detectar os radicais livres e, portanto, não conseguiram entrar em dormência.

"A cisteína atua como uma espécie de sensor regulatório", diz Hicks. "Isso permite que os tardígrados sintam o que os rodeia e reajam ao estresse."

Quando as condições externas melhoraram, eles descobriram que a cisteína não estava mais oxidada. Isso dava aos tardígrados o sinal verde para acordarem de seu estado de animação suspensa.

O resultado da pesquisa mostra que a oxidação da cisteína é um mecanismo regulatório vital que contribui para a notável resiliência dos ursos d'água e os ajuda a sobreviver em ambientes em constante mudança.

Os pesquisadores esperam que, a longo prazo, a pesquisa ajude a compreender melhor o processo de envelhecimento, assim como o impacto das viagens espaciais no corpo, uma vez que ambos são influenciados pelos danos causados ​​pelos radicais livres às máquinas celulares vitais como o DNA e as proteínas.

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terça-feira, 23 de janeiro de 2024

Fóssil de anfíbio gigante mais antigo que os dinossauros é encontrado em fazenda do RS

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Em sítio arqueológico de Rosário do Sul, pesquisadores da Unipampa descobriram fóssil de anfíbio anterior aos dinossauros. Espécie semelhante só havia na Rússia. Novo achado pode colocar em xeque o que se sabe sobre a teoria da Pangeia, diz paleontólogo.
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Por Camila Freitas, g1 RS

Postado em 23 de janeiro de 2024 às 07h00m

#.*Post. - N.\ 11.087*.#


Anfíbio mais antigo que os dinossauros é encontrado no RS

Em rochas de uma fazenda na área rural do município de Rosário do Sul, na Fronteira Oeste do estado, foi encontrado um fóssil do crânio de uma espécie de anfíbio gigante, identificado como "mais antigo que os dinossauros", conforme análise de pesquisadores do Laboratório de Paleobiologia do Campus São Gabriel da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) envolvidos na descoberta.

O achado paleontológico, segundo estudiosos, destaca uma possível conexão entre a fauna do pampa gaúcho e a da Rússia, o que pode colocar à prova o que se sabe sobre o ecossistema da época da Pangeia (teoria sobre os continentes serem um só bloco). Entenda abaixo.

Reconstituição digital do anfíbio gigante Kwatisuchus rosai em seu hábitat — Foto: Divulgação / Márcio Castro
Reconstituição digital do anfíbio gigante Kwatisuchus rosai em seu hábitat — Foto: Divulgação / Márcio Castro

O grupo localizou a ossatura em agosto de 2022. Somente após uma recente análise, envolvendo etapas de limpeza e desacoplamento do fóssil da rocha, avaliação documental, coleta de dados e registros, os pesquisadores puderam concluir que o animal viveu há, aproximadamente, 250 milhões de anos na Terra, anterior à presença dos dinossauros.

Nas instalações da Unipampa, a nova espécie recebeu o nome Kwatisuchus rosai Kwati em referência ao termo Tupi para "focinho comprido" e rosai em homenagem ao paleontólogo Átila Stock Da-Rosa, da Universidade Federal de Santa Maria, pioneiro na área.

O anfíbio pertence ao início do período Triássico. Naquela época, o ecossistema se recuperava de uma extinção massiva.

Local onde foi encontrado o fóssil fica no pampa do RS, em Rosário do Sul — Foto: Divulgação / Alice Dias
Local onde foi encontrado o fóssil fica no pampa do RS, em Rosário do Sul — Foto: Divulgação / Alice Dias

A descoberta integra um projeto do Laboratório de Paleobiologia da Unipampa. A fim de popularizar a ciência, a equipe de pesquisadores realizará uma exposição com réplicas dos animais e fósseis, impressas em 3D. Previsto para o segundo semestre deste ano, o evento vai ocorrer em São Gabriel.

'Anfíbios modernos'

O anfíbio encontrado integra o grupo de animais dominantes no ecossistema do período Triássico e chegava a tamanhos gigantescos, possuindo aparência e modo de vida parecidos ao dos crocodilos.

Crânio do anfíbio gigante Kwatisuchus rosai — Foto: Divulgação / Felipe Pinheiro
Crânio do anfíbio gigante Kwatisuchus rosai — Foto: Divulgação / Felipe Pinheiro

"Nesse tempo, havia, por exemplo, grupos terrestres de quatro patas, anfíbios e peixes. No final do Triássico tinha algumas espécies de dinossauros, mas não como as do Jurássico, período posterior ao Triássico", explica Arielli Machado, pesquisadora do projeto e doutora em ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Estudos sobre história evolutiva apontam que o grupo ao qual o Kwatisuchus rosai pertence tenha originado os anfíbios modernos – como os sapos, as salamandras e as cobras-cegas.

"Trata-se de uma espécie completamente nova do grupo dos anfíbios temnospôndilos. Ele tem corpo comprido. Passava a maior parte na água e tinha um estágio girino, como os atuais anfíbios", conta o professor da Unipampa e doutor em paleontologia Felipe Pinheiro.

No entanto, o que surpreendeu os pesquisadores foi encontrá-lo na América do Sul, pois até então era um animal cuja a ocorrência "acreditávamos existir apenas na Rússia", diz Pinheiro.

Ainda segundo o professor, o fóssil é uma peça de um quebra-cabeça muito maior, "que estamos montando sobre como eram as faunas do Triássico Inferir", após extinção ocorrida no período Permiano, "evento mais catastrófico da história do planeta".

No caso do Kwatisuchus, o que aponta a origem anterior aos primeiros dinossauros são, principalmente, as rochas.

As rochas onde o crânio foi encontrado "mostram evidências de um período completamente inóspito e árido, que sofria enxurradas ocasionais", conta Pinheiro. Já as datações do fóssil são realizadas a partir de "comparação com outras regiões" e por "métodos químicos""tais como a mensuração de elementos radioativos".

Relação entre Pampa do RS e Rússia

O fóssil achado em Rosário do Sul, no pampa do RS, mostra uma intrigante conexão entre as faunas do Sul e da Rússia.

"Isso é muito estranho, que os nossos animais se pareçam mais com os animais russos do que com os sul-africanos – os quais estavam muito mais próximos", destaca Felipe Pinheiro.

De acordo com o pesquisador, essa conexão pode "mostrar que nossas hipóteses sobre a geografia do supercontinente Pangeia estão inacuradas". Essa possibilidade será estudada a partir de modelos computacionais.

Pesquisadores da Unipampa encontram crânio de animal mais antigo que dinossauro — Foto: Divulgação / Alice Dias
Pesquisadores da Unipampa encontram crânio de animal mais antigo que dinossauro — Foto: Divulgação / Alice Dias

A descoberta, explica Felipe Pinheiro, aumenta a diversidade de organismos fósseis no Sul do país e ajuda a compreender os intervalos temporais mais enigmáticos da história da Terra.

"As evidências de conexões entre as faunas brasileira e russa mostram que ainda temos muito a aprender sobre geografia e a distribuição dos organismos naquele passado remoto", reflete.

O estudo realizado pelo laboratório da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) é apoiado por um financiamento de pesquisa Lemann-Brasil, concedido à professora da universidade norte-americana Harvard, Stephanie Pierce, em colaboração com o cientista brasileiro e professor da Unipampa, Felipe Pinheiro, e Tiago Simões, pós-doutor pela universidade de Harvard.

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domingo, 21 de janeiro de 2024

Como a recente descoberta do primeiro clima árido no Brasil pode impactar o restante do país

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Estudo do INPE em parceria com o Cemaden identificou trechos de clima árido numa região de quase 6 mil km² no norte da Bahia.
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Por Roberto Peixoto, g1

Postado em 21 de janeiro de 2023 às 07h00m

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Como a recente descoberta de um clima árido na Bahia pode impactar o restante do Brasil

Pela primeira vez, especialistas identificaram uma região de clima árido no Brasil, um dado surpreendente e alarmante que tem uma explicação clara: as mudanças climáticas causadas pelo homem.

O trecho de quase 6 mil km² fica no centro-norte da Bahia e abrange toda a área das cidades de Abaré, Chorrochó e Macururé, além de trechos de Curaçá, Juazeiro e Rodelas, municípios baianos que fazem fronteira com o sertão pernambucano. (Veja no mapa abaixo.)

📝 Contexto: A aridez é a falta crônica de umidade no clima, indicando um desequilíbrio constante entre a oferta e a demanda de água. Ela é permanente e, por isso, difere da seca, período temporário de condições anormalmente secas.

Além desse dado inédito, o estudo feito por pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelou também que o avanço do semiárido vem ocorrendo num nível acentuado pelo país.

Macururé, no norte da Bahia, uma das cidades identificadas no estudo.  — Foto: Arquivo pessoal
Macururé, no norte da Bahia, uma das cidades identificadas no estudo. — Foto: Arquivo pessoal

Nos últimos 60 anos, a cada duas décadas, a taxa média de crescimento dessas regiões é de 75 mil km².

E, segundo especialistas ouvidos pelo g1, as consequências dessa expansão são bastantes preocupantes, pois mostram que, se nada for feito, não apenas a disponibilidade hídrica, mas também as atividades agrícolas e pecuárias do nosso país estarão ameaçadas.

1ª região árida encontrada no Brasil. — Foto: Arte g1
1ª região árida encontrada no Brasil. — Foto: Arte g1

Em resumo, as principais conclusões dos estudos são as seguintes:

  • A aridez está aumentando em todo o país, exceto no Sul, devido ao aumento da evaporação associada ao aquecimento global. Ou seja, o clima está secando em muitos lugares do Brasil.
  • No caso específico do semiárido, essas regiões estão se expandindo de forma acentuada, com uma taxa média superior a 75 mil km².
  • Já no centro-norte da Bahia, pela 1ª vez, foi identificada uma região árida, ou seja, com uma escassez forte de chuvas.
  • Tudo isso indica que processos de desertificação, ou seja, a degradação de áreas semiáridas, podem se acelerar nas próximas décadas. Segundo os pesquisadores, até mesmo em outras regiões do país, como o Centro-Oeste.
  • Num país como o Brasil, esse é um dado preocupante, pois pode trazer impactos significativos para a produção de energia e agropecuária nacional.
Moradores de cidades com clima árido na BA relatam dificuldades na criação de animais e consumo de água: 'produção não deu para nada'
Moradores de cidades com clima árido na BA relatam dificuldades na criação de animais e consumo de água: 'produção não deu para nada'

Seca x aridez

Ana Paula Cunha, pesquisadora do Cemaden e uma das autoras do estudo, explica que a seca é um fenômeno gradual que acumula seus impactos ao longo de um extenso período, persistindo por anos, mesmo após o fim de eventos do tipo.

🚨 Ou seja, a seca, que nada mais é que um termo para uma estiagem prolongada provocada pela deficiência de chuva, deixa uma marca duradoura, com impactos que perduram por muito tempo e que podem ser investigados por pesquisadores.

Por isso, quando falamos de clima, seca e mudanças climáticas, é crucial ter em mente que precisamos de, no mínimo, 30 anos de dados para uma análise abrangente.
— Ana Paula Cunha, pesquisadora do Cemaden

E foi justamente esse período de análise utilizado na pesquisa do Cemaden e do Inpe.

Para evitar interpretações equivocadas, por exemplo, de um período com uma seca significativa como 2015, que estava com forte influência do El Niño, os pesquisadores analisaram blocos entre os anos de 1960 e 1990, 1970 e 2000, 1980 e 2010 e, finalmente, 1990 e 2020.

Dessa forma, uma compreensão mais precisa das tendências climáticas nestes últimos anos era possível de ser traçada.

Com dados da Agência Nacional de Águas (ANA) e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) sobre precipitação, temperatura máxima e mínima, radiação solar, velocidade do vento e umidade relativa, foi possível, então, calcular o índice de aridez (IA) de todo o Brasil e desenhar o mapa do começo desta reportagem, referente às décadas de 1990 e 2020.

👉 De forma resumida, dá para dizer que esse índice é um indicador numérico do grau de secura do clima. Quanto menor o número, mais seca é a região. Ou seja, há uma falta crônica de umidade no clima, não apenas uma seca isolada.

  • Assim, o índice de aridez de 0.2 indica uma região árida, com chuvas muito escassas.
  • Entre 0.2 e 0.5, a região é semiárida, com chuvas um pouco mais abundantes, mas ainda insuficientes.
  • Entre 0.5 e 0.65, a região é subúmida seca, com condições de chuva relativamente melhores.

Com todas essas informações em mãos, os pesquisadores compararam as áreas que são consideradas semiáridas, e viram que elas aumentaram em média 75 mil km2 por década (olhando numa média móvel de 30 anos).

Fora isso, quando observaram os períodos de 1970 a 2000 e de 1980 a 2010, perceberam um aumento nas áreas semiáridas às custas das áreas subúmidas secas. No entanto, no período de 1990 a 2020, todas as três classificações de áreas mostraram aumento, indicando uma aceleração nessa tendência.

🚨 Somando todas as áreas juntas (áridas, semiáridas e subúmidas secas), o aumento médio foi de 65 mil km2 por década.

Javier Tomasella, pesquisador do Inpe e coordenador do estudo, explica um ponto importante: sua pesquisa não apenas revela mudanças geográficas, mas também realça a necessidade de o Brasil desenvolver estratégias adaptativas, especialmente nas áreas urbanas e na agricultura, onde a eficiência no uso dos recursos hídricos se torna crucial.

A adaptação a esse novo panorama climático requer a participação ativa de todos os setores econômicos e níveis governamentais. As consequências climáticas se interconectam em todo o país.
— Javier Tomasella, pesquisador do Inpe e coordenador do estudo

Para se ter ideia, segundo dados da Associação Internacional de Energia Hidrelétrica (IHA, na sigla em inglês), o Brasil fica em segundo lugar no ranking dos países com a maior capacidade hidrelétrica instalada do mundo: com 109.4 gigawatts.

Aliado a isso, ainda de acordo com a IHA, o nosso país depende de reservatórios hidrelétricos para gerar mais de 60% da sua eletricidade.

"Infelizmente, a desertificação e a expansão de áreas semi-áridas ou áridas é uma realidade, não só no Brasil, mas também em outros climas, como é o caso do Mediterrâneo. A má distribuição da chuva, com grandes períodos prolongados de seca e a ocorrência de eventos extremos de chuva forte, isolados, parece estar alterando os biomas de forma mais rápida do que prevíamos", avalia Marcio Cataldi, professor do Departamento de Engenharia Agrícola e Ambiental da Universidade Federal Fluminense (UFF).

 Impactos

Cataldi é autor de outro estudo que chamou atenção para a necessidade de um plano nacional de gestão hídrica, publicado na prestigiada revista Natura e intitulado "O Brasil está numa crise hídrica e precisa de um plano contra seca".

No artigo, ele explica que o declínio na disponibilidade de água para irrigação e o aumento da frequência e intensidade de eventos climáticos extremos vem prejudicando safras e a criação de animais em boa parte do Brasil, levando a uma redução na produção e, consequentemente, a um aumento nos preços dos produtos agropecuários.

Como mostrou o g1 Bahia, em Chorrochó, uma das cidades com registro de clima árido, as safras de milho, feijão e melancia de agricultores apresentaram baixo rendimento no último ano, justamente por causa do clima mais quente e menos chuvoso, que também trouxe impactos na alimentação do gado de pecuaristas locais.

Provavelmente, isso está ocorrendo porque, além das alterações no regime de chuva e, consequentemente nas quantidades de calor e umidade destas regiões, a alteração do tipo e uso do solo, com as práticas de queimadas e de desmatamento, está acelerando processos que, naturalmente, duravam centenas ou milhares de anos, para poucas décadas.
— Marcio Cataldi, professor do Departamento de Engenharia Agrícola e Ambiental da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Necessidade de ações integradas

No estudo, Cataldi alerta ainda para a urgência de ações integradas, incluindo medidas de monitoramento climático, investimentos em tecnologias sustentáveis, como energia solar e eólica, e a implementação do plano nacional para lidar com a crise hídrica e seus impactos socioeconômicos.

"Investimentos em ciência e tecnologia são essenciais para a busca e implementação de medidas que reduzam impactos socioeconômicos e criem resiliência climática. Sem investimentos em áreas estratégicas para o desenvolvimento do país, o Brasil continuará sofrendo com os efeitos dos cada vez mais frequentes eventos extremos, como secas, enchentes e ondas de calor", alerta Augusto Getirana, pesquisador da Nasa e doutor em hidrologia pela UFRJ, que também colaborou com o estudo.

Ao g1, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima disse que planeja lançar um Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAB Brasil) no primeiro semestre de 2024.

"O processo demandará que os diferentes setores repensem projetos de desenvolvimento para o semiárido, com medidas e investimentos para recuperação das áreas, recuperação e proteção da Caatinga e gestão das águas, como uso e revitalização das bacias hidrográficas", disse a pasta em nota.

O ministério afirmou "também buscará reforçar o diálogo com os governos da Bahia e de Pernambuco para a construção conjunta de um plano de ação para o enfrentamento da aridez".

Ainda de acordo com o MMA, o texto prevê ações para os próximos 20 anos. Isso incluirá metas específicas de curto, médio e longo prazos, além de arranjos institucionais envolvendo diversos setores.

A pasta informou ainda que o plano terá um sistema de monitoramento para acompanhar o progresso e fornecer resultados à sociedade, sem dar mais detalhes.

Só conseguiremos nos preparar para o que está por vir, do ponto de vista climático, se diminuirmos as nossas emissões e se formos capazes de criar planos de resiliência que contemplem toda a sociedade, sem exceções, já que todos, também sem exceções, poderão sofrer as graves consequências do que pode estar por vir.
— Marcio Cataldi, professor da UFF
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sábado, 20 de janeiro de 2024

Governo prevê subsídio e crédito público para estimular indústrias brasileiras até 2033

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Medidas estão entre os instrumentos de fomento da nova política de desenvolvimento industrial, que será lançada pelo presidente Lula na próxima segunda (22). Plano estabelece como meta o aumento da produção nacional de novas tecnologias.
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Por Erick Rianelli, GloboNews e g1 — Brasília

Postado em 20 de janeiro de 2024 às 21h55m
 
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Plano de estímulo do governo federal para indústrias estabelece como meta a elevação da produção nacional de novas tecnologias — Foto: Arquivo
Plano de estímulo do governo federal para indústrias estabelece como meta a elevação da produção nacional de novas tecnologias — Foto: Arquivo

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve apresentar na próxima segunda-feira (22) o plano Nova Indústria Brasil, um programa de estímulo ao setor industrial brasileiro. O planejamento prevê, entre outros pontos, linhas de crédito, subsídios públicos e o fortalecimento da política de conteúdo local para elevar a competitividade até 2033.

A minuta do plano, revelada pela Folha de S.Paulo e obtida pela GloboNews, aponta que o documento estabelece metas e objetivos para desenvolver as indústrias pelos próximos dez anos. Em paralelo, haverá um plano de curto prazo — até o término do mandato de Lula, em 2026.

O planejamento define as ações governamentais como principais indutoras do desenvolvimento do setor.

Parte dessas medidas já está em curso — como a implementação do mercado de carbono e do plano Combustível do Futuro, que estimula o uso de biocombustíveis.

Não há detalhes, no entanto, da execução da maior fatia das medidas discutidas e da inclusão de subsídios nos limites do novo arcabouço fiscal.

  • Metas e instrumentos

A nova política industrial foi discutida nos últimos seis meses pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI). O conselho reúne representantes de 20 ministérios, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da sociedade civil, da indústria e entidades sindicais.

O documento prevê ações distribuídas em seis eixos: agroindústria; complexo industrial de saúde; infraestrutura, saneamento, moradia e mobilidade; transformação digital; bioeconomia; e tecnologia de defesa.

Segundo o texto, o programa será um conjunto de instrumentos públicos de apoio ao setor produtivo.

A NIB tem como objetivos estimular o progresso técnico e, consequentemente, a produtividade e competitividade nacionais, gerando empregos de qualidade; aproveitar melhor as vantagens competitivas do país; e reposicionar o Brasil no comércio internacional, diz o documento.

Entre as metas de longo prazo, a serem alcançadas até 2033, estão:

  • aumentar a participação do setor agroindustrial no PIB agropecuário para 50%
  • alcançar 70% de mecanização dos estabelecimentos de agricultura familiar, com o suprimento de pelo menos 95% do mercado por máquinas e equipamentos de produção nacional
  • produzir, no país, 70% das necessidades nacionais em medicamentos e tecnologias em saúde
  • reduzir o tempo de deslocamento de casa para o trabalho em 20%
  • transformar digitalmente 90% das empresas industriais brasileiras
  • triplicar a produção nacional de novas tecnologias
  • reduzir em 30% a emissão de CO2 por valor adicionado do PIB da indústria
  • ampliar em 50% a participação dos biocombustíveis na matriz energética de transportes
  • e obter autonomia na produção de 50% das tecnologias críticas para a defesa

O cumprimento das metas, de acordo com o plano, poderá contar com um impulso de instrumentos financeiros e não financeiros do governo. O plano estabelece como possibilidades:

  • compras governamentais
  • empréstimos
  • subvenções
  • investimento público
  • créditos tributários
  • comércio exterior
  • transferência de tecnologia
  • propriedade intelectual
  • infraestrutura da qualidade
  • participação acionária
  • regulação
  • encomendas tecnológicas
  • e requisitos de conteúdo local
  • Neoindustrialização

Em nota, o Ministério da Indústria e Comércio afirmou que a nova política é "baseada em práticas internacionais" e terá o objetivo de "implementar um projeto de neoindustrialização, com uma indústria sustentável, forte e inovadora".

"A nova política industrial representará melhora na vida das pessoas, aumento da competitividade e da produtividade, mais empregos, inovação e presença no mercado internacional", diz a pasta.

A retomada de políticas de incentivo à indústria nacional é uma das metas do terceiro mandato do presidente Lula.

Em julho, na primeira reunião do CNDI, o petista afirmou que o governo criaria condições para o desenvolvimento do setor.

Meu governo não tem tempo a perder. Não voltei a governar esse país para fazer o mesmo que já fiz. A gente voltou pra tentar fazer as coisas diferentes. E fazer a revolução industrial nesse país, pra gente ser competitivo de verdade. A hora é agora", afirmou.

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