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Acordo provisório de comércio entre Mercosul e União Europeia começa a produzir efeitos nesta sexta-feira (1°); data pode até parecer técnica, mas raras vezes uma decisão aduaneira carregou tanta história dentro de si
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José Manuel Diogo
O
homem de lá e de cá. Presidente da APBRA, diretor da Câmara Luso
Brasileira em Lisboa. Professor universitário no IDP em Brasília.
Escritor. Especialista em relações luso-brasileiras
Postado em 01 de Maio de 2.026 às 11h45m
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Acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União EuropeiaMercosul-UEMercosul UE • Ilustração ge
Depois de mais de 25 anos de negociações, Europa e América do Sul começam a operar dentro de uma zona econômica de cerca de 700 milhões de pessoas, com reduções tarifárias graduais, novas regras de acesso a mercados e impacto direto sobre indústria, agricultura, serviços, compras públicas, investimentos e cadeias produtivas.
A principal questão que emerge desta data é simples e ao mesmo tempo brutal: será que o Sul entra nesta mesa como fornecedor barato de commodities ou como sujeito estratégico de uma nova ordem atlântica?
Durante séculos, o Atlântico foi uma via de extração. Por ele passaram impérios, escravidão, açúcar, ouro, café, ideias, exílios, línguas e capitais.
A Europa acostumou-se a olhar para a América do Sul como prolongamento, promessa, mercado ou problema. A América do Sul, por sua vez, habituou-se a negociar com o que era visto como "centro", carregando a memória de ter sido periferia.
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O acordo Mercosul-União Europeia só será transformador se romper essa coreografia antiga. A mesa agora existe. A igualdade, porém, não nasce da assinatura: nasce da capacidade de transformar um novo acesso em um novo futuro.
Para o Brasil, a questão é maior do que vender mais. O país pode ampliar exportações, diversificar parceiros, reduzir custos para produtores e consumidores e criar novas oportunidades para empresas e trabalhadores, como reconhece o próprio governo brasileiro.
Mas a grande oportunidade está além da estatística comercial. Está em decidir se o Brasil vai entrar no acordo apenas com soja, carne, minério e escala territorial, ou se entrará também com indústria verde, bioeconomia, tecnologia agrícola, energia limpa, cultura, design, serviços, universidades, marcas e inteligência diplomática.
Para a Europa, o acordo também revela uma urgência. Num mundo pressionado pela rivalidade entre Estados Unidos e China, por guerras comerciais, cadeias de abastecimento instáveis e disputa por minerais críticos, alimentos, energia e influência, aproximar-se do Mercosul deixou de ser gesto romântico de multilateralismo. Passou a ser necessidade estratégica.
A agência Reuters interpretou a aceleração do pacto também como resposta europeia às tarifas norte-americanas e à dependência excessiva da China. O que antes parecia integração distante tornou-se política de sobrevivência econômica.

É
aqui que Portugal, por exemplo, deveria prestar atenção com menos
cerimônia e mais ambição. Portugal não pode olhar para este acordo
apenas como país europeu com memória brasileira. Pode ser plataforma,
tradutor, corredor, advogado, investidor, curador e operador atlântico.
Lisboa, Porto, São Paulo, Brasília, Buenos Aires, Montevidéu e Bruxelas deixam de ser pontos separados num mapa diplomático e passam a formar uma malha possível de negócios, cultura, inovação, turismo, língua e circulação de talento.
O Tratado de Tordesilhas dividiu o mundo no papel; este acordo pode, se houver inteligência, começar a reuni-lo na prática.
Mas haverá resistências. Agricultores europeus temem concorrência; países como França e Polônia levantam objeções; há disputas ambientais, sanitárias e jurídicas ainda em curso.
Esses conflitos não diminuem o acordo. Pelo contrário: provam que ele mexe em interesses reais. Acordos irrelevantes não incomodam ninguém. Só os acordos que redistribuem poder geram medo, lobby e tribunais.
A grande ingenuidade seria celebrar este primeiro dia de maio como se a história estivesse resolvida. A grande miopia seria tratá-lo como assunto de despachantes, ministérios e tabelas tarifárias.
O que começa agora é uma disputa pela qualidade da inserção. Quem chegar apenas com produtos venderá produtos. Quem chegar com estratégia construirá dependências virtuosas. Quem chegar com cultura criará reputação. Quem chegar com tecnologia criará futuro. Quem chegar distraído será absorvido.
Pela primeira vez nesta escala, o Norte e o Sul sentam-se à mesma mesa atlântica com instrumentos jurídicos capazes de produzir interdependência concreta. Mas uma mesa não garante respeito. Uma cadeira não garante voz. Um acordo não garante grandeza. O Mercosul terá de provar que é mais do que território e abundância.
A Europa terá de provar que aprendeu a negociar sem nostalgia imperial. Portugal terá de provar que a sua vocação atlântica é projeto, não discurso.
O 1º de maio de 2026 não inaugura apenas uma zona de comércio. Inaugura um teste de maturidade histórica. O Sul chegou à mesa. Agora precisa falar como quem sabe o valor do que traz.
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