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terça-feira, 27 de maio de 2025

A floresta 'mágica' que brilha no escuro na Austrália

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No litoral do Estado australiano de Nova Gales do Sul, condições ambientais ideais favorecem o crescimento de organismos bioluminescentes, que oferecem um verdadeiro espetáculo noturno de luzes e cores aos seus visitantes.
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TOPO
Por Frankie Adkins

Postado em 27 de Maio de 2.025 às 05h35m

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Na região de Illawarra, na Austrália, um tour noturno revela fungos-fantasmas, centelhas-do-mar e criaturas minúsculas iluminando a escuridão — Foto: David Finlay
Na região de Illawarra, na Austrália, um tour noturno revela fungos-fantasmas, centelhas-do-mar e criaturas minúsculas iluminando a escuridão — Foto: David Finlay

Em uma noite totalmente escura, observo o horizonte repleto de estrelas.

Mas não estou olhando para o céu, iluminado por centenas de constelações. Trata-se do banco enlameado de um rio, ocupado por uma colônia de "vermes brilhantes".

"Esta é minha televisão", conta David Finlay. "É mágico, parece ter saído de Avatar."

De dia, Finlay trabalha como gerente de transporte. Mas, à noite, ele vasculha a mata nativa e as praias australianas em busca de luzes vivas.

"Se você ficar trancado em casa, perde estas coisas", defende ele. "Enquanto todo mundo se aninha à noite, eu penso: 'como posso me divertir?'"

Criaturas bioluminescentes se escondem em muitos cantos do mundo. Mas a região de Illawarra, no litoral de Nova Gales do Sul, na Austrália, é um ímã que atrai fenômenos brilhantes.

Ali, a poluição luminosa é baixa. Com muita chuva e alta umidade, forma-se um microclima ideal para que estas criaturas possam se reproduzir e capturar suas presas.

Muitas delas se aglomeram ao longo das escarpas de Illawarra, um conjunto de rochedos de arenito, ladeados por florestas que levam ao Oceano Pacífico.

"O habitat das nossas escarpas é especial", explica Finlay. "É uma floresta subtropical preservada, que ajuda a proteger as frágeis formas de vida bioluminescentes."

Da sua casa na cidade de Kiama, Finlay pode identificar os "quatro grandes" andando de carro por uma hora: centelhas-do-mar, um tipo de plâncton que tinge o oceano de um azul elétrico; fungos-fantasmas, que são cogumelos que irradiam um tom de verde misterioso; e duas espécies de vaga-lumes, que iluminam o céu noturno como se fossem lanternas minúsculas.

Estes fenômenos naturais são notoriamente imprevisíveis e instáveis. Eles são determinados pelas estações e por padrões climáticos e luminosos.

Eles também são extremamente frágeis. Existem cada vez mais evidências de que as criaturas bioluminescentes estão em declínio, devido às mudanças climáticas e à interferência humana.

Mas, para um número cada vez maior de caçadores de brilhos, como Finlay, que fazem suas visitas com todo cuidado, o desafio faz parte da aventura.

A região australiana de Illawarra é um ímã para os fenômenos brilhantes, devido à baixa poluição luminosa e alta umidade — Foto: David Finlay
A região australiana de Illawarra é um ímã para os fenômenos brilhantes, devido à baixa poluição luminosa e alta umidade — Foto: David Finlay

Encontro Finlay em uma clareira perto de Cascade Falls, uma cachoeira localizada no Parque Nacional Macquarie Pass. O sol se pôs há apenas uma hora, mas estamos imersos na escuridão.

É noite de sexta-feira. Enquanto a maioria das pessoas usa luzes artificiais para ficar torrando até o final da semana, estamos em busca de brilhos naturais na escuridão da noite.

Caminhamos por uma trilha que passa por imensos eucaliptos. As lanternas nas nossas cabeças lançam luz vermelha, para perturbar a vida selvagem o mínimo possível.

A lua cheia nos orienta de cima e o fluxo do rio nos acompanha, guiando nossos passos até a cachoeira.

"Se algo passar voando junto ao seu rosto, provavelmente é apenas um morcego minúsculo", alerta Finlay. "Eles são muito gentis, apenas procuram insetos para comer."

Ele conta que o microclima de Cascade Falls é ideal para os vaga-lumes.

Uma das espécie é conhecida como glow worms ("vermes brilhantes", em tradução literal). Mas, na verdade, eles não são vermes.

Na Austrália e na Nova Zelândia, eles são as larvas do mosquito-dos-fungos. Em outras partes do mundo, o brilho costuma vir de besouros.

Eles se escondem em lugares úmidos e escuros, como cavernas, túneis abandonados ou densas florestas tropicais.

Estes insetos são endêmicos na Austrália e na Nova Zelândia. Muitos turistas visitam pontos icônicos no monte Tamborine, no Estado australiano de Queensland. Mas existem colônias menos conhecidas que podem ser observadas, se você souber onde procurar.

Os 'vermes brilhantes' australianos podem geralmente ser encontrados o ano inteiro, enquanto os vaga-lumes aparecem no final da primavera e no verão — Foto: David Finlay
Os 'vermes brilhantes' australianos podem geralmente ser encontrados o ano inteiro, enquanto os vaga-lumes aparecem no final da primavera e no verão — Foto: David Finlay

Meus olhos se ajustam e começo a observar mais detalhes, como as raízes nodosas de uma árvore e o chapéu de um cogumelo.

Mas a visão de Finlay é muito mais treinada. Ele consegue identificar facilmente os olhos de uma aranha-de-prata piscando para nós, como os olhos de um gato na estrada.

Ele aponta uma lanterna UV em direção ao solo e ilumina a vegetação rasteira. Uma lagarta brilha em branco fluorescente, liquens emitem luz verde neon e uma folha mostra um tom agressivo de azul elétrico.

"Ah, isso é só urina de marsupiais", explica ele.

Finlay organiza tours específicos para observar as luzes brilhantes do Illawarra. Ele apresenta aos turistas e moradores locais o espetáculo que a maioria de nós ignora à noite.

Sua página no Facebook divulga os eventos com antecedência. No ano passado, as centenas de vagas para os seus tours se esgotaram rapidamente. Ao todo, 25 mil pessoas competiram para garantir um lugar.

"Para muitas pessoas, é como encontrar ouro", explica Finlay. "E ninguém irá dizer onde encontrar o ouro."

Mas é preciso manter o delicado equilíbrio entre orientar os visitantes e conservar os habitats.

"Este parque nacional já sofreu impactos causados pelas pessoas", afirma ele. "Eu não conto a elas sobre os pontos realmente naturais, pois o excesso de visitantes destruiria aqueles ambientes."

Os vaga-lumes e os "vermes luminosos" são incrivelmente sensíveis e suscetíveis à destruição do seu habitat pelas pessoas, como a urbanização e as queimadas.

Os incêndios florestais do "Verão Negro" de 2019-2020 varreram uma quantidade "horrível" de criaturas bioluminescentes, segundo Finlay, afetando colônias em parques nacionais de toda a Austrália.

"Forneço às pessoas uma lista do que fazer e do que não fazer no ambiente selvagem e peço que elas ensinem isso para outras pessoas", conta ele.

As criaturas bioluminescentes são incrivelmente sensíveis e os caçadores de brilhos devem tomar muito cuidado para não perturbá-las — Foto: David Finlay
As criaturas bioluminescentes são incrivelmente sensíveis e os caçadores de brilhos devem tomar muito cuidado para não perturbá-las — Foto: David Finlay

Como em quase tudo que envolve o mundo natural, uma regra de ouro é olhar sem tocar.

"Segurar um vaga-lume na palma da sua mão irá matá-lo", explica Finlay.

Acender luzes brilhantes ou mesmo respirar muito perto pode fazer com que eles se fechem e prejudicar seus padrões de alimentação. Por isso, mantemos a voz baixa, sussurramos e pisamos com cuidado, para nos movermos lentamente pelos arbustos.

Por segurança, Finlay sugere trazer um amigo para a aventura noturna. Ele aponta uma caneta laser para o céu e traça o Cruzeiro do Sul, para o caso de eu me perder e precisar me orientar no caminho noturno.

Descemos pelo terreno em direção à entrada da cachoeira, seguindo as minúsculas esferas luminosas.

Escondidos na parte superior do rio, ficam dezenas de "vermes luminosos", parecendo uma gruta de fadas ou um anúncio de Natal piscando.

Quando chegamos mais perto, fios de teias sedosas se espalham e ficam suspensos como colares de pérolas.

"As larvas luminescentes se escondem da luz do sol", explica Finlay. "Elas se arrastam até cantos e fendas e, quando saem à noite, precisam reconstruir suas teias."

Apesar da beleza, as teias são armadilhas mortais. Elas capturam insetos que são atraídos pela luz cintilante.

As margens do rio parecem ainda mais espetaculares nas lentes das câmeras, com as gotículas de cristal reunidas em torno da luz iridescente.

Fica claro por que o grupo Bioluminescência Austrália no Facebook, com mais de 64 mil membros, ganhou tanta popularidade. A página foi criada para compartilhar fotos de fitoplâncton bioluminescente, mas também serve de quadro de mensagens para quem quiser acompanhar estes fenômenos brilhantes.

Na Austrália e na Nova Zelândia, os chamados 'vermes brilhantes', na verdade, são larvas de mosquitos-dos-fungos — Foto: David Finlay
Na Austrália e na Nova Zelândia, os chamados 'vermes brilhantes', na verdade, são larvas de mosquitos-dos-fungos — Foto: David Finlay

Os caçadores de brilhos seguem um calendário rígido. Os "vermes brilhantes" geralmente podem ser encontrados o ano inteiro, mas os vaga-lumes emitem sua luz por um curto período no final da primavera e no verão australiano (novembro até fevereiro).

Já os esquivos fungos-fantasmas costumam aparecer no outono (março a maio), quando cai a temperatura.

Remar através da bioluminescência é uma das experiências mais procuradas.

"Todos querem ver e uma das razões é que esta experiência é muito instagramável", explica Finlay. "Você pode balançar os pés através dela e criar faíscas."

Um dos melhores pontos para ver a "maré azul" na Austrália é a baía de Jervis, no litoral de Nova Gales do Sul, ou perto de Hobart, a capital da Tasmânia.

Christine Dean Smith faz parte de um grupo que fotografa centelhas-do-mar há mais de uma década.

"Caço a bioluminescência porque tenho câncer de pele e não posso ficar exposta à luz do dia", ela conta. "Como sou fotógrafa, costumo me ajustar para capturar a natureza noturna e mostro para meus seguidores."

Depois de encontrarmos muitos brilhos naturais, nós nos retiramos atravessando os arbustos, até a clareira.

De repente, algo brilha na minha visão sob a lanterna fluorescente de Finlay. Algo vívido, que parece elétrico – tudo aquilo que me disseram para manter meus olhos atentos. Será que estou pegando o jeito de caçar brilhos no escuro?

"Não, só mais urina de marsupiais", responde Finlay.

Como observar os 'vermes brilhantes' de forma responsável

  • Faça um tour de confiança, por exemplo, na caverna Marakoopa, na Tasmânia, ou no monte Tamborine, em Queensland (ambos na Austrália).
  • Evite lançar luzes brancas e brilhantes de lanternas ou flashes de câmeras fotográficas ao observar criaturas bioluminescentes.
  • Mantenha distância das colônias de "vermes brilhantes" e outros animais selvagens e faça o mínimo de ruído.
  • Traga um amigo e um mapa, se for andar sozinho à noite.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Travel.

Perda de florestas tropicais primárias atinge 2,82 milhões de hectares no Brasil em 2024
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segunda-feira, 26 de maio de 2025

A fábrica secreta dos EUA que expõe contradição em planos de Trump

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BBC visita com exclusividade o interior da fábrica fortemente vigiada que Trump quer que se torne a pedra fundamental de uma era áurea nos EUA.
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Por Faisal Islam

Postado em 26 de Maio de 2.025 às 13h45m

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A fábrica secreta dos EUA que expõe contradição em planos de Trump — Foto: BBC
A fábrica secreta dos EUA que expõe contradição em planos de Trump — Foto: BBC

Entre os cactos do deserto do Arizona, nos arredores de Phoenix, está surgindo um complexo extraordinário de edifícios que vai moldar o futuro da economia global e do mundo.

É a construção de uma fábrica para os semicondutores mais avançados do mundo — que, em algum momento, vai produzir em massa os chips mais avançados. Este trabalho está sendo realizado nos Estados Unidos pela primeira vez, e a empresa taiwanesa responsável promete investir ainda mais bilhões, em uma iniciativa que visa evitar a ameaça de tarifas sobre chips importados.

Na minha opinião, esta é a fábrica mais importante do mundo, e está sendo construída por uma empresa da qual você talvez não tenha ouvido falar: a TSMC, Taiwan Semiconductor Manufacturing Company. Ela produz 90% dos semicondutores avançados do mundo.

Até agora, todos eles eram fabricados na ilha de Taiwan, que fica a 160 quilômetros a leste da China continental. O chip da Apple no seu iPhone, os chips da Nvidia que alimentam suas consultas do ChatGPT, os chips em seu laptop ou rede de computadores, todos são fabricados pela TSMC.

Sua unidade "Fab 21", no Arizona, é fortemente vigiada. Papel em branco ou dispositivos pessoais não são permitidos por precaução, para evitar o vazamento de informações confidenciais. Ela abriga algumas das propriedades intelectuais mais importantes do mundo, e o processo de fabricação destes chips é um dos mais complexos e intensivos da manufatura global.

Eles guardam bem os segredos que se encontram em seu interior. Clientes importantes, como a Apple e a Nvidia, confiam nesta companhia para proteger seus designs para futuros produtos.

Mas depois de meses de solicitações, a TSMC permitiu que a BBC desse uma espiada na transferência parcial do que alguns argumentam ser a fabricação mais crítica, cara, complexa e importante do mundo.

Garota-propaganda da política de Trump

O presidente americano, Donald Trump, certamente parece pensar assim. Ele menciona com frequência a fábrica quando tem uma oportunidade. "A TSMC é a maior que existe", ele afirmou. "Perdemos gradualmente o negócio de chips, e agora está quase exclusivamente em Taiwan. Eles roubaram de nós." Este é um dos refrões frequentes do republicano.

A recente decisão da TSMC de expandir seus investimentos nos EUA em mais US$ 100 bilhões é algo que Trump atribui às suas ameaças de tarifas sobre Taiwan e o negócio global de semicondutores.

A expansão da fábrica no Arizona, anunciada em março, é, segundo ele, efeito das suas políticas econômicas — em especial, o incentivo a empresas estrangeiras para transferirem fábricas para os EUA a fim de evitar tarifas pesadas.

Trump anunciou a decisão da TSMC de investir nos EUA como prova do sucesso de sua política tarifária — Foto: Getty Images via BBC
Trump anunciou a decisão da TSMC de investir nos EUA como prova do sucesso de sua política tarifária — Foto: Getty Images via BBC

A China também está observando atentamente os acontecimentos. A proeza de Taiwan na fabricação de chips faz parte do que seu governo chama de "Escudo de Silício", contra uma invasão um tanto temida. Embora a estratégia original fosse tornar Taiwan indispensável nesta área de tecnologia essencial, as dificuldades na cadeia de suprimentos durante a pandemia de covid-19 mudaram a dinâmica, uma vez que confiar em um único país parecia ser um risco maior.

A China reivindica Taiwan, que tem governo próprio, como seu território, mas Taiwan se considera independente da China continental.

Portanto, muitas correntes da economia mundial, da tecnologia de ponta e da geopolítica fluem por esta fábrica — e nela reside a contradição essencial da política econômica e diplomática de Trump.

Ele vê esta fábrica como um exemplo do America First ("EUA em primeiro lugar", em tradução livre) e da preservação da superioridade econômica e militar sobre a China. No entanto, a fabricação destes milagres modernos em miniatura, na vanguarda da física e da química, depende inerentemente de uma combinação das melhores tecnologias de todo o mundo.

O ambiente mais limpo do planeta

Greg Jackson, um dos gerentes do complexo, me leva em um carrinho de golfe. As fábricas são praticamente uma cópia fiel das instalações da TSMC em Taiwan, onde ele recebeu treinamento. "Eu diria que essas instalações são provavelmente algumas das mais avançadas e complexas do mundo", diz ele.

"É uma dicotomia e tanto. Você tem chips muito, muito pequenos, com estruturas muito pequenas, e é preciso uma instalação enorme com toda a infraestrutura para poder fabricá-los... A complexidade e a quantidade de sistemas necessários são impressionantes."

Dentro do "Gowning Building", os trabalhadores vestem roupas de proteção antes de atravessar uma ponte que supostamente gera o ambiente mais limpo da Terra, a fim de proteger a produção destes extraordinários transistores microscópicos que criam os microchips que são o alicerce de tudo.

O engenheiro Konstantinos Ninios me mostra algumas das primeiras produções da TSMC Arizona: um wafer de silício com o que é conhecido como "chips de 4 nanômetros".

Konstantinos Ninios, da TSMC, mostra à reportagem da BBC como os transistores são feitos — Foto: BBC
Konstantinos Ninios, da TSMC, mostra à reportagem da BBC como os transistores são feitos — Foto: BBC

"Este é o wafer mais avançado dos EUA atualmente", ele explica. "[Ele] contém cerca de 10 a 14 trilhões de transistores... Todo o processo envolve de 3 mil a 4 mil etapas."

Se você pudesse, de alguma forma, encolher seu corpo na mesma escala e entrar no wafer, ele diz que as muitas camadas diferentes se pareceriam com ruas e arranha-céus muito altos.

Manipulação de átomos

A TSMC foi fundada a pedido do governo taiwanês em 1987, quando o executivo do setor de chips Morris Chang foi orientado a abrir o negócio. A ideia era se tornar uma instalação dedicada a microchips, fabricando designs de outras empresas. O sucesso foi estrondoso.

O que impulsiona o avanço da tecnologia é a miniaturização dos menores recursos dos chips. Atualmente, seu tamanho é medido em bilionésimos de metro ou nanômetros. Este avanço permitiu que os telefones celulares se tornassem smartphones, e agora está definindo o ritmo para a implantação em massa da inteligência artificial.

Isso requer um custo e uma complexidade incríveis por meio do uso de "luz ultravioleta (UV) extrema". Ela é usada para gravar os intrincados pilares da nossa existência moderna em um processo chamado "litografia".

A dependência mundial da TSMC é baseada em máquinas altamente especializadas do tamanho de um ônibus, que, por sua vez, são fornecidas quase que totalmente por uma empresa holandesa chamada ASML, inclusive no Arizona.

Estas máquinas disparam luz ultravioleta dezenas de milhares de vezes por meio de gotas de estanho fundido, o que gera um plasma, que é então refratado por uma série de espelhos especializados.

O processo quase totalmente automatizado para cada wafer de silício é repetido milhares de vezes em camadas ao longo de meses, até que o wafer de US$ 1 milhão para chips de silício de 4 nm (cada nanômetro corresponde à bilonésima parte de um metro) seja formado.

"Imagine uma partícula ou uma partícula de poeira caindo nisso", diz Ninios. "Os transistores não vão funcionar. Portanto, tudo isso aqui é mais limpo do que o centro cirúrgico de um hospital."

Donald Trump reativa guerra tarifária com ameaça à Europa
Donald Trump reativa guerra tarifária com ameaça à Europa

Cautela em Taiwan

Taiwan não tem acesso especial às matérias-primas — mas tem o know-how para permanecer anos à frente de outras empresas no intrincado processo de produção destes alicerces atômicos da vida moderna.

Alguns membros do governo taiwanês são cautelosos em relação à expansão da fronteira desta tecnologia para fora da ilha. Trump não perdeu tempo em afirmar que a decisão da empresa de levar seu mais alto nível de tecnologia para os EUA se deveu às suas políticas econômicas.

Ele disse que isso não teria acontecido sem o poder das tarifas planejadas sobre Taiwan e semicondutores. As pessoas com quem conversei na TSMC foram diplomáticas em relação a esta afirmação.

Grande parte disso já estava planejado e subsidiado pela Lei de Chips do ex-presidente dos EUA, Joe Biden.

A cadeia de suprimentos de semicondutores é global, pois nenhum país é capaz de fazer tudo no momento, diz Rose Castanares, presidente da TSMC Arizona — Foto: BBC
A cadeia de suprimentos de semicondutores é global, pois nenhum país é capaz de fazer tudo no momento, diz Rose Castanares, presidente da TSMC Arizona — Foto: BBC

Na entrada do prédio, há fotos que mostram a visita de Biden em 2022, com o canteiro de obras coberto de estrelas e listras, e uma faixa em que se lê: "Um futuro Made in EUA".

"A cadeia de suprimentos de semicondutores é global", diz Rose Castanares, presidente da TSMC Arizona. "Não há um único país neste momento que seja capaz de fazer tudo, desde produtos químicos até fabricação de wafers e embalagens, e por isso é muito difícil desfazer tudo isso tão rápido."
Cadeias de suprimentos 'não vermelhas' para deter a China

Quanto à cadeia de suprimentos de semicondutores, as tarifas não vão ajudar. A cadeia de suprimentos se estende por todo o mundo. Sejam os wafers de silício do Japão, as máquinas da Holanda ou os espelhos da Alemanha, são necessários todos os tipos de materiais do mundo todo. Agora, eles podem enfrentar taxas de importação.

Dito isso, o CEO da TSMC foi rápido ao confirmar a expansão da unidade nos EUA em um evento com Trump na Casa Branca. Nas últimas semanas, a elite tecnológica dos EUA — de Tim Cook, da Apple, a Jensen Huang, da Nvidia — tem se revezado para dizer ao mundo que a TSMC Arizona agora vai produzir muitos dos chips em seus produtos nos EUA.

O setor global de chips é bastante sensível ao ciclo econômico, mas sua tecnologia de ponta desfruta de margens bastante saudáveis, o que poderia amortecer algumas destas tarifas planejadas.

A empresa, fundada em Taiwan em 1987, anunciou em março a expansão de suas instalações no Arizona — Foto: BBC
A empresa, fundada em Taiwan em 1987, anunciou em março a expansão de suas instalações no Arizona — Foto: BBC

Há muitas entrelinhas geopolíticas aqui. A fábrica está no centro da estratégia dos EUA para obter supremacia tecnológica, na área de inteligência artificial e econômica sobre a China.

Tanto o governo Biden quanto Trump desenvolveram políticas para tentar limitar o acesso chinês à tecnologia de semicondutores de ponta — desde a proibição das exportações para a China das máquinas da ASML até a nova legislação para proibir o uso de chips de inteligência artificial da Huawei em softwares ou tecnologia dos EUA em qualquer lugar do mundo.

O presidente de Taiwan, Lai Ching-te, pediu nesta semana que democracias como o Japão e os EUA desenvolvam cadeias de suprimentos "não vermelhas" para conter a China.

No entanto, nem todo mundo está convencido de que esta estratégia está funcionando. Os tecnólogos chineses têm sido eficazes em contornar as proibições para desenvolver tecnologia local competitiva. E Bill Gates observou esta semana que essas políticas "forçaram os chineses, em termos de fabricação de chips e tudo o mais, a avançar a toda velocidade".

Trump quer que a TSMC Arizona se torne a pedra fundamental da sua era áurea americana. Mas a história da empresa até o momento talvez seja a expressão máxima do sucesso da globalização moderna.

Portanto, por enquanto, trata-se de uma batalha pela supremacia tecnológica e econômica global, na qual a tecnologia industrial de Taiwan, parte da qual está sendo transferida para o deserto do Arizona, é o ativo essencial.

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