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sábado, 13 de agosto de 2022

‘Parece leite, mas não é’: como crise 'empobreceu' a fórmula dos produtos lácteos do Brasil

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Misturas com soro de leite, amido, gordura vegetal, açúcar e aditivos químicos ‘invadiram’ as prateleiras dos supermercados e são confundidas com os produtos ‘tradicionais’. Entenda o que está por trás da mudança e o que ela pode significar no bolso, na saúde e no preparo de receitas.
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Por André Biernath, BBC — Londres

Postado em 13 de agosto de 2022 às 16h45m

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Versões de lácteos com soro de leite, amido, gordura vegetal, açúcar e aditivos se tornaram muito mais comuns nos mercados brasileiros — Foto: GETTY IMAGES/BBC
Versões de lácteos com soro de leite, amido, gordura vegetal, açúcar e aditivos se tornaram muito mais comuns nos mercados brasileiros — Foto: GETTY IMAGES/BBC

Nos últimos meses, os consumidores brasileiros mais atentos notaram uma mudança importante no Moça, uma das marcas de leite condensado mais conhecidas e utilizadas no país. Junto ao produto tradicional, cuja embalagem é azul, as gôndolas dos supermercados foram inundadas por uma nova versão, na cor marrom.

Na parte inferior do rótulo, é possível entender melhor a diferença entre as opções. Enquanto a caixinha azul traz o leite condensado convencional (integral ou desnatado), a marrom é uma "mistura láctea condensada de leite, soro de leite e amido".

E esse não foi o único produto lácteo a apresentar uma nova fórmula nos últimos meses: de acordo com especialistas e relatos dos próprios consumidores, houve um aumento na oferta de opções que substituem parte do leite por outros ingredientes, como o soro de leite, o amido, o açúcar, a gordura vegetal e os aditivos químicos, como conservantes e aromatizantes.

Entenda por que o leite está tão caroEntenda por que o leite está tão caro

Algumas marcas, por exemplo, transformaram o creme de leite em "mistura de creme de leite". Já o queijo ralado virou "mistura alimentícia com queijo ralado". O doce de leite, por sua vez, foi substituído pelo "doce de soro de leite sabor doce de leite". Em alguns mercados, até o leite tradicional compete nas gôndolas com novas bebidas lácteas.

"Do ponto de vista nutricional, isso pode ser danoso", alerta Rafael Claro, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

"A estratégia é trocar um alimento in natura por ingredientes mais baratos e com baixa densidade de nutrientes."

"Ou seja: a pessoa compra um produto que parece leite, mas não é", resume.

Que fique claro: a venda dessas opções está regulamentada nos órgãos competentes, como o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) ou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), e, a princípio, não fere nenhuma lei.

O grande problema, de acordo com os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, é que vários desses alimentos lácteos "alternativos" têm uma embalagem muito similar à original, trazem no rótulo elementos que remetem ao leite — como vacas, pastos, tonéis e líquidos brancos — e são colocados nas mesmas prateleiras que os produtos tradicionais.

Para completar, nem sempre as novas opções são muito mais baratas — ou a diferença em relação aos itens convencionais é de apenas alguns centavos.

Novos produtos nas prateleiras — Foto: BBC
Novos produtos nas prateleiras — Foto: BBC

O que está por trás do fenômeno

A pesquisadora Kennya Beatriz Siqueira, da Embrapa Gado de Leite, em Juiz de Fora (MG), explica que as movimentações recentes da indústria dos produtos lácteos têm a ver com a crise financeira, a inflação e a escassez de matéria-prima no mercado.

"Nos últimos dois anos, tivemos um aumento de 62% no custo de produção do leite", calcula.

A especialista explica que toda a cadeia produtiva sofreu com o aumento dos preços: os custos da ração que alimenta as vacas, da energia elétrica que mantém o funcionamento dos currais e do próprio combustível que transporta esse alimento subiram consideravelmente.

"Por conta disso, muitos produtores se desfizeram de parte do rebanho e venderam as vacas menos produtivas para os abatedouros."

Isso, por sua vez, significa que há menos leite saindo das fazendas brasileiras.

"Para completar, o meio do ano é o período de entressafra do leite, já que as pastagens não estão boas por causa do clima seco e da temperatura fria", complementa.

A união desses fatores fez com que o leite (e os produtos lácteos no geral) se transformassem nos "vilões da inflação" durante os últimos meses.

De acordo com o Índice de Preços ao Consumidor (IPCA), o leite longa vida acumula uma alta de 57% no ano.

Outros itens também registraram uma subida considerável. Apenas em julho, houve um aumento de 19% no leite condensado, 17% na manteiga, 16% no queijo e 14% no requeijão.

Hora do plano B

Com menos matéria-prima no mercado e um preço cada vez mais elevado, a estratégia da indústria foi substituir uma parte do leite que ia nas formulações originais dos produtos lácteos.

Uma porção desse ingrediente, então, foi trocada pelo soro do leite, um composto que "sobra" e antigamente era descartado durante a fabricação de queijos.

Para ter ideia, a produção de um quilo de queijo gera cerca de oito litros de soro, em média.

E vale destacar que esse soro, apesar de trazer menos nutrientes, não faz mal à saúde e pode ser consumido.

"O soro, porém, tem uma base sólida muito menor do que o leite. Essencialmente, ele é água, com um teor menor de proteínas e carboidratos. E isso muda a composição do produto final para algo pior do ponto de vista nutricional", diz Claro.

Porém, muitas vezes essa troca simples de leite por soro de leite não é suficiente para manter o aspecto sensorial daquele alimento — afinal, o soro traz menos proteínas e gorduras que o leite "inteiro", como você confere na tabela a seguir.

Os nutrientes que aparecem em cada bebida — Foto: BBC
Os nutrientes que aparecem em cada bebida — Foto: BBC

Para garantir que o produto "alternativo" fique mais parecido com o original, as empresas acrescentam em leites condensados, requeijões e bebidas lácteas no geral alguns ingredientes complementares, que dão consistência e sabor, como o amido, a gordura vegetal e o açúcar.

"Falamos aqui de compostos que barateiam o custo daquele alimento", resume a nutricionista Carolina Grehs, cofundadora do Desrotulando, um aplicativo que analisa e dá notas aos alimentos vendidos nos supermercados de acordo com uma série de critérios relacionados à saúde.

Em alguns casos, a adição desses compostos não é suficiente e as empresas precisam acrescentar outros compostos químicos, como emulsificantes, adoçantes e aromatizantes.

Gato por lebre?

Por um lado, essa estratégia não traz nada de errado do ponto de vista legal e regulatório. "Esses alimentos não são exatamente uma novidade e têm nomes e regras bem definidos na legislação", esclarece Grehs.

"A indústria está cumprindo o seu papel ao lançar produtos que atendem às demandas da população", opina Siqueira.

"As empresas lidam com a escassez de matéria-prima, mas tentam oferecer alternativas ao consumidor", defende a pesquisadora da Embrapa Gado de Leite.

Por outro, os especialistas criticam a falta de clareza na comunicação de muitos desses novos produtos — muitas vezes, a embalagem é tão parecida à original que o consumidor nem percebe que está comprando algo diferente daquilo que esperava.

"Há casos em que as bebidas lácteas são colocadas nas mesmas gôndolas do leite. E o rótulo delas traz um copo com líquido branco e outros elementos gráficos que remetem ao leite de verdade", observa Grehs.

"Vemos que alguns desses novos lácteos são vendidos por um preço muito parecido ou até mais alto em comparação com as versões anteriores", complementa.

A BBC News Brasil entrou em contato com a Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite), e a Associação Brasileira de Laticínios (Viva Lácteos) para que elas pudessem se posicionar a respeito de toda discussão, mas não foram enviadas respostas até a publicação desta reportagem.

Procurada, a Nestlé, responsável pela fabricação do Leite Moça, enviou uma nota dizendo que a versão atualizada do leite condensado é "um novo produto da linha Moça que possui os mesmos ingredientes do Moça Tradicional, porém, em quantidades diferentes, com adição de soro de leite e amido".

"Trata-se de um produto de alta qualidade, sem gordura vegetal, estabilizantes ou espessantes, e é uma opção no portfólio da marca para consumidores que buscam soluções com menor desembolso, sem abrir mão do resultado e da qualidade Nestlé", finaliza o texto.

Prejuízos nutricionais e culinários

Além de uma possível confusão na hora da compra, o consumo constante desses produtos gera preocupação entre os especialistas.

"A substituição do leite por outros ingredientes significa que o produto vai ter menos proteínas e vitaminas, o que representa um prejuízo na alimentação", analisa a nutricionista Laís Amaral, supervisora técnica do Programa de Alimentação Saudável e Sustentável do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

Outro ponto que chama a atenção em alguns desses produtos é o acréscimo de açúcar nas formulações.

"Uma coisa é consumir a lactose, o açúcar natural do leite. Outra muito diferente é o açúcar adicionado de outras fontes, como o xarope de glicose", compara Grehs.

"Isso nos preocupa, pois o leite é um elemento central na dieta de muitos brasileiros e observamos níveis crescentes de obesidade na nossa população, que está relacionada ao consumo excessivo de alimentos calóricos e ricos em açúcar."

Segundo a Embrapa, cada brasileiro consome uma média de 166 litros de leite por ano — taxa que aumenta exponencialmente desde os anos 1990.

Além da menor qualidade nutricional de alguns desses lácteos "alternativos", é preciso prestar atenção na adição dos compostos que terminam com "ante" neles, como os corantes, os emulsificantes, os adoçantes…

"São ingredientes que barateiam a produção, fazem com que aquele alimento seja minimamente comestível e mudam substancialmente a parte sensorial do produto", explica Amaral. Isso faz com que muitos desses novos lácteos se encaixem na categoria dos ultraprocessados.

Na lista de ingredientes de uma mistura alimentícia de queijo ralado, por exemplo, é possível saber que ele contém amido de milho e/ou amido de mandioca, ricota em pó, queijos ralados, soro de leite em pó, creme de leite, acidulante ácido cítrico, antioxidante lecitina, conservantes sorbato de potássio e ácido sórbico, aroma idêntico ao natural de queijo parmesão e corante artificial amarelo crepúsculo.

Já no queijo ralado tradicional, essa tabela costuma ser bem mais enxuta: o produto é feito geralmente de queijo ralado (leite pasteurizado, fermento, sal e coalho bovino) e conservante ácido sórbico.

De acordo com o Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado pelo Ministério da Saúde em 2014, o consumo de alimentos ultraprocessados, que trazem muitos desses ingredientes de nome complicado e não são encontrados facilmente na despensa ou na geladeira de nossas casas, deve ser evitado sempre que possível.

"Devido a seus ingredientes, alimentos ultraprocessados — como biscoitos recheados, salgadinhos 'de pacote', refrigerantes e macarrão 'instantâneo' — são nutricionalmente desbalanceados. Por conta de sua formulação e apresentação, tendem a ser consumidos em excesso e a substituir alimentos in natura ou minimamente processados. As formas de produção, distribuição, comercialização e consumo afetam de modo desfavorável a cultura, a vida social e o meio ambiente", aponta o texto.

"A fabricação de alimentos ultraprocessados, feita em geral por indústrias de grande porte, envolve diversas etapas e técnicas de processamento e muitos ingredientes, incluindo sal, açúcar, óleos, gorduras e substâncias de uso exclusivamente industrial", contextualiza o guia.

Além dos riscos nutricionais, Grehs chama a atenção para outro aspecto relevante do uso dos lácteos alternativos: possíveis alterações na textura e no gosto de pratos típicos e muito populares.

"Algumas misturas lácteas geram problemas em receitas que dependem da gordura para formar a estrutura daquele preparo, como em pudins e brigadeiros."

De acordo com a especialista, o uso de alguns dos novos produtos nas receitas muda o aspecto sensorial desses doces — o brigadeiro, por exemplo, pode não chegar ao ponto ideal, quando ele começa a se desgrudar do fundo da panela, enquanto o pudim não ganharia aquela consistência típica do quitute.

O que fazer?

Rafael Claro, da UFMG, entende que a solução óbvia é evitar o consumo desses alimentos ultraprocessados e consumir produtos frescos, se possível.

Mas o especialista entende que essa é uma discussão que ultrapassa os limites da nutrição e envolve assistência social e políticas públicas — ainda mais num cenário de crise econômica e inflação em alta. "Nem todo mundo pode comer itens frescos e in natura, porque eles costumam ser mais caros."

"Muitas pessoas não têm dinheiro para comprar um litro de leite integral ou meio queijo. Daí elas precisam partir para as bebidas lácteas e as versões alternativas."

"Mas fornecer um alimento 'porcaria' barato para os mais pobres não pode ser visto como um caminho para nosso futuro como país", protesta.

"Também precisamos pensar que grande parte desses produtos lácteos ultraprocessados não são necessários para a alimentação. Se eles não representam uma alternativa para garantir a segurança alimentar, a orientação é que eles não sejam incorporados aos hábitos de consumo", conclui.

Siqueira, da Embrapa Gado de Leite, entende que a tendência é que a inflação dos lácteos fique mais controlada nos próximos meses.

"A gente espera a importação de matéria-prima e uma melhora nos custos de produção. A expectativa é que tenhamos uma redução nos preços já neste segundo semestre", projeta.

Como não comprar gato pro lebre — Foto: BBC
Como não comprar gato pro lebre — Foto: BBC

Do ponto de vista prático, Grehs orienta que os consumidores fiquem atentos ao nome técnico de cada produto, que aparece em letras menores na parte frontal do rótulo — é ali que você vai saber se está diante de um creme de leite ou de uma mistura de creme de leite, por exemplo.

"E mesmo dentro das misturas lácteas, é possível procurar opções melhores e mais saudáveis. Algumas só trazem soro de leite e amido, enquanto outras têm o acréscimo de açúcar e aditivos químicos", sugere.

Para checar essas diferenças, vale ler a lista de ingredientes que aparece na parte traseira da embalagem. Se itens como "xarope de glicose", "açúcar" ou "gordura vegetal" aparecem logo de cara, é bom ligar o sinal de alerta.

"Além disso, se a palavra 'sabor' está no rótulo, isso significa que há a adição de aromatizantes para reforçar o paladar, como é o caso de opções como o 'pó para preparo de bebida sabor leite' ou a 'bebida láctea sabor morango'", acrescenta a nutricionista.

Por fim, caso o consumidor se sinta lesado e enganado na hora em que comprou alguns desses compostos lácteos, é possível acionar órgãos de fiscalização.

"Se você achar que comprou gato por lebre, pode fazer denúncias no Procon, no site consumidor.gov.br e no Observatório de Publicidade de Alimentos", finaliza Amaral.

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Os incríveis tesouros encontrados em navio espanhol afundado há 350 anos nas Bahamas

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O Nuestra Señora de las Maravillas afundou em 1656, com uma tripulação de 650 pessoas a bordo.
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Por BBC

Postado em 13 de agosto de 2022 às 09h05m

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O galeão Nuestra Señora de las Maravillas afundou em 1656, quando se chocou contra um recife perto das Bahamas — Foto: Allen Exploration
O galeão Nuestra Señora de las Maravillas afundou em 1656, quando se chocou contra um recife perto das Bahamas — Foto: Allen Exploration

É quase meia-noite de 4 de janeiro de 1656, e o convés do galeão espanhol Nuestra Señora de Las Maravillas está em silêncio.

Só se ouve o barulho do mar do Caribe e do vento que acaricia as velas da enorme embarcação que partiu de Cartagena das Índias.

Ela segue para a Espanha depois de ter recolhido o tesouro que foi recuperado do naufrágio do navio Jesús María de la Limpia Concepción, afundado em um recife no Equador.

Mas em poucos segundos, tudo muda.

O navio-capitânia Nuestra Señora de La Concepción havia cometido um erro de navegação e naquela noite fatídica colidiu com o Maravillas, enviando o galeão espanhol contra um recife.

Em menos de 30 minutos, a nau estaria no fundo do oceano.

De uma tripulação de 650 pessoas, apenas 45 sobreviveram.

Um novo resgate

Agora, exploradores encontraram algumas das maravilhas que o Maravillas levava — e as mesmas estão expostas no Museu Marítimo das Bahamas.

"O Maravillas é uma parte icônica da história marítima das Bahamas", afirma Carl Allen, empresário e fundador da Allen Exploration, a organização por trás da expedição.

As peças encontradas no galeão estão expostas no Museu Marítimo das Bahamas — Foto: Allen Exploration via BBC
As peças encontradas no galeão estão expostas no Museu Marítimo das Bahamas — Foto: Allen Exploration via BBC

"O naufrágio do galeão teve uma história difícil: com muitas peças recuperadas por expedições espanholas, inglesas, francesas, holandesas, americanas e bahamenses durante os séculos 17 e 18", diz ele.

Segundo o museu marítimo, uma das peças mais importantes recuperadas pela expedição de Allen é um pingente de ouro com a cruz de Santiago no centro.

Pingente em ouro representando a Cruz de Santiago encontrado em região do naufrágio — Foto: Allen Exploration via BBC
Pingente em ouro representando a Cruz de Santiago encontrado em região do naufrágio — Foto: Allen Exploration via BBC


Outro pingente em ouro representando no centro a Cruz de Santiago com incrustações em esmeraldas representando Jesus e os 12 apóstolos — Foto: Allen Exploration via BBC
Outro pingente em ouro representando no centro a Cruz de Santiago com incrustações em esmeraldas representando Jesus e os 12 apóstolos — Foto: Allen Exploration via BBC

Um segundo pingente de ouro encontrado em meio aos destroços é oval e tem 4,7 centímetros de comprimento.

No centro, a cruz de Santiago se sobressai de uma grande esmeralda colombiana em forma oval. A moldura externa é adornada com mais 12 esmeraldas, representando os 12 apóstolos.

A Ordem de Santiago era o corpo militar de maior prestígio da Espanha e de Portugal. Seus cavaleiros eram particularmente ativos no comércio marítimo.

Quando o navegador português Vasco da Gama, o primeiro europeu a navegar até a Índia, assumiu o comando de uma frota de 21 navios entre 1502 e 1503, navegou com 8 Cavaleiros da Ordem.

A importância das Bahamas

A companhia responsável pela descoberta disse que espera manter as peças no museu das Bahamas, já que fazem parte da grande riqueza histórica e cultural do lugar.

"Para uma nação construída a partir do oceano, é incrível como pouco se sabe sobre a relação das Bahamas com o mar", diz Michael Pateman, diretor do Museu Marítimo das Bahamas.

"Poucos sabem que os povos indígenas Lucayan, por exemplo, se estabeleceram aqui há 1,3 mil anos. Ou que toda a população de quase 50 mil pessoas foi expulsa à força, obrigada a buscar pérolas na Venezuela e extinta em menos de três décadas", relata.

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sexta-feira, 12 de agosto de 2022

O que são mares leitosos, enigma que a ciência está próxima de resolver

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Marinheiros relatam há séculos surpresa ao navegar por mares de onde brota uma luz fluorescente, mas poucos a viram e só agora estão sendo descobertos os segredos do fenômeno lendário.
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Por BBC

Postado em 12 de agosto de 2022 às 09h00m

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O que são mares leitosos, enigma que a ciência está próxima de resolver — Foto: Getty Images
O que são mares leitosos, enigma que a ciência está próxima de resolver — Foto: Getty Images

Em uma noite em janeiro de 1864, em algum lugar do sudeste do Chifre da África, algo inexplicável aconteceu.

"Toda a face da natureza parecia mudada", escreveu o capitão Raphael Semmes, do navio Alabama.

"Ao redor do horizonte havia um brilho fraco, como se houvesse uma iluminação distante, enquanto acima havia um céu escuro e assustador."

O Alabama havia passado "de repente da água azul profunda em que estávamos navegando para uma mancha de água tão branca que me assustou" e viajou "iluminado pelo brilho doentio sobrenatural de um mar fantasma" por várias horas até que tudo terminou tão repentinamente quanto havia começado.

Semmes e sua tripulação foram algumas das poucas testemunhas oculares na história de um fenômeno peculiar: um brilho misterioso em mar aberto ocasionalmente visível à noite, conhecido como mar leitoso.

Águas resplandecentes

O que resplandece naturalmente sempre nos surpreende, e quando se trata do mar, o efeito pode ser ainda mais incrível.

As criaturas bioluminescentes que o habitam oferecem espetáculos tão mágicos como os dos mares de Ardora, onde faíscas do mar se iluminam ao ritmo das ondas ou dos nossos passos na areia.

Mas o fenômeno dos mares leitosos tem fugido às explicações.

Embora seja mencionado esporadicamente na literatura marítima e na ficção, poucos o viram. E quem o descreveu não estava falando de uma bioluminescência curta, limitada e reativa ou brilhos azul-esverdeados, que são os mais comuns.

Bioluminescência no mar — Foto: GETTY IMAGES
Bioluminescência no mar — Foto: GETTY IMAGES

Eles falam de "um mar de brancura láctea, como se dos promontórios próximos viessem rebanhos de ursos brancos penteados nadar sobre ele", como escreveu Herman Melville, em seu "Moby-Dick" de 1851.

Surpresa

Em uma noite em agosto de 2019, Naomi McKinnon estava no convés do iate Ganesha quando o Oceano Índico se iluminou.

"Três da tripulação estavam de vigia navegando no barco durante a noite, certificando-se de manter o caminho certo para as Ilhas Cocos, e de repente o oceano começou a parecer muito estranho."

"Nos perguntamos: o que há de errado com nossos olhos? Por que parecem tão estranhos?"

"E à medida que velejamos, o brilho ficou mais intenso. Não tínhamos ideia do que estava acontecendo", contou à BBC.

A tripulação acordou o capitão Johan Lemmens.

"Quando saí, vi que o mar estava iluminado como se houvesse grandes projetores de luz debaixo d'água."

"Visualmente parecia que o barco flutuava mais alto que o usual e que estávamos navegando por um campo de neve que resplandecia com o brilho da Lua."

"E as ondas na proa eram pretas, o que foi uma experiência arrepiante, porque normalmente as ondas na proa são sempre brancas e o mar é preto."

Fotografia digital do mar leitoso ao largo de Java de 2019, imagem feita pela tripulação do Ganesha — Foto: STEVEN MILLER, LEON SCHOMMER E NAOMI MCKINNON
Fotografia digital do mar leitoso ao largo de Java de 2019, imagem feita pela tripulação do Ganesha — Foto: STEVEN MILLER, LEON SCHOMMER E NAOMI MCKINNON

McKinnon disse que a cor do oceano era "um verde esbranquiçado, como adesivos que brilham no escuro".

"Sabemos porque o banheiro do barco estava com água brilhante na descarga, e o barco puxava essa água de pelo menos um metro abaixo do nível do mar."

Eles então jogaram um balde na água para examinar mais perto.

"No início, não conseguíamos ver um brilho. Mas quando deixamos a água assentar, o brilho ficou mais intenso."

"Quando você olhava para a água no balde, ela tinha pequenas manchas de luz, mas do convés, o oceano parecia homogêneo."

E não era apenas uma parte ao redor do barco.

"Víamos o brilho de horizonte a horizonte. Todo o oceano que podíamos ver estava brilhando."

"Estávamos totalmente encantados. Foi extremamente bonito e tranquilo. Além disso, foi uma bela noite para navergar, então ficamos impressionados com essa experiência incrível."

Acaso

Naomi pesquisou na internet por explicações assim que voltou para a terra firme.

Um dia, encontrou um relatório de Steve Miller, especialista em observação da Terra da Colorado State University, que havia visto o mesmo evento de brilho na costa de Java, no Oceano Pacífico, mas por meio de um satélite.

Imagem do evento publicada no relatório científico da equipe Miller na Nature Scientific Reports, em julho de 2021, comparando as visualizações de satélite diurnas e noturnas — Foto: STEVE MILLER/NOAA
Imagem do evento publicada no relatório científico da equipe Miller na Nature Scientific Reports, em julho de 2021, comparando as visualizações de satélite diurnas e noturnas — Foto: STEVE MILLER/NOAA

"O mar leitoso é a minha baleia branca", disse Miller à BBC, referindo-se à obsessão do capitão Ahab no romance clássico de Melville.

"No ano passado, trabalhamos com uma nova geração de satélites que estávamos tentando usar para encontrar mares leitosos. Na verdade, afirmamos ter visto alguns mares leitosos, apesar de não termos confirmação diretamente no local."

"Fizemos todo o possível para garantir que o que estávamos vendo eram emissões de luz da superfície, mas como cientista você nunca sabe se pode afirmar 100% que o que você acha que viu é de fato o que você estava vendo", explicou Miller.

"Gostaríamos de ter dados da água para comprovar o que vimos do ar, mas era difícil entrar em contato com barcos ou pessoas que pudessem ter testemunhado alguma coisa. Então assumimos o risco calculado de publicar o trabalho com a esperança de encontrar alguém que o tenha visto."

E foi exatamente isso que aconteceu.

"Fiquei tão aliviado quando Naomi me contatou."

"O relatório do iate Ganesha forneceu a primeira confirmação visual de que nossa nova geração de sensores de satélites pode detectar mares leitosos de forma autônoma."

"O resultado realmente importante aqui é que, com a confirmação da superfície, agora temos confiança nas medições de satélites para não apenas detectar esse fenômeno e estudá-lo remotamente, mas também orientar os navios de pesquisa a entrar nos mares leitosos e aprender muito mais sobre eles."

E havia dados que podiam ser identificados imediatamente após aquele encontro, relatados no artigo "Boat encounter with the 2019 Java bioluminescent milky sea: Views from on-deck confirm satellite detection" ("Encontro de barco com o mar leitoso bioluminescente de Java 2019: vistas do convés confirmam a detecção de satélite", em tradução livre), do Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Imagem de satélite do mar leitoso de Java em 2 de agosto de 2019 com o caminho de Ganesha marcado — Foto: STEVE MILLER/NOAA
Imagem de satélite do mar leitoso de Java em 2 de agosto de 2019 com o caminho de Ganesha marcado — Foto: STEVE MILLER/NOAA

Naomi, por exemplo, disse que o mar brilhava até onde a vista alcançava. Com observações de satélite foi possível ter uma ideia mais precisa dessa área.

"É uma extensão notável de água brilhante, e, de fato, os relatos históricos dos mares leitosos que remontam a séculos deram praticamente o mesmo tipo de descrição em termos de sua experiência em torno dele."

Brilhos como 'propaganda'

O biólogo marinho Kenneth Nealson, que há muito colabora com Miller no estudo dos mares leitosos, identificou outro detalhe importante.

Antes do evento ao sul de Java, havia uma enorme proliferação de algas na área.

Nealson, que pesquisou bactérias oceânicas bioluminescentes que se alimentam de algas mortas, disse à BBC que o brilho é para atrair peixes à noite para engoli-los.

"A maioria dessas bactérias que são capazes de brilhar são as E.coli do mar, são as bactérias intestinais dos peixes."

"Quando defecamos E.coli, o que essas bactérias querem é voltar ao intestino."

"No oceano, se eles podem encontrar uma partícula de proteína, digamos, um plâncton morto, e fazê-la brilhar, isso convém porque no oceano o brilho é um sinal de que há algo bom para comer."

Então o brilho é como um "anúncio publicitário" de luz.

Especialistas acreditam que os mares leitosos sejam causados ​​por bactérias bioluminescentes que se comunicam umas com as outras — Foto: GETTY IMAGES
Especialistas acreditam que os mares leitosos sejam causados ​​por bactérias bioluminescentes que se comunicam umas com as outras — Foto: GETTY IMAGES

Manchas brilhantes individuais de algas mortas podem ser rapidamente engolidas pelos peixes, nunca sendo vistas por um marinheiro que passar.

Mas uma floração enorme vai sobrecarregar seu apetite, e essa pode ser a razão para que o mar comece a brilhar.

"É basicamente como fazer um cultivo dessas bactérias, mas em vez de 100 mililitros como em um laboratório, é em 100.000 quilômetros quadrados."

"Essa é a coisa milagrosa sobre essas florações de algas, quando você obtém certas áreas de ressurgência (quando massas de água muito profundas sobem à superfície) e todos os nutrientes que surgem nas algas começam a crescer como loucos", disse o biólogo.

"São centenas de trilhões de partículas, todas brilhando ao mesmo tempo, mescladas com a água e conferindo essa aparência de brilho uniforme. Isso é o que acreditamos que é o processo para nossa interpretação visual de um mar leitoso", acrescentou Miller.

Entre a ciência e o folclore

Não é de estranhar que algo tão marcante como isso tenha sido registrado no passado por marinheiros que o viram mas "foi um assunto que durante muito tempo se moveu às margens do folclore marítimo e do conhecimento científico".

E ainda há incógnitas para resolver.

"Não houve muitas observações de natureza científica do fenômeno, foram principalmente histórias anedóticas de marinheiros ao longo dos séculos, em rotas comerciais, principalmente do Oceano Índico."

"E não são muito comuns em nível mundial. Talvez a gente veja um ou dois mares leitosos por ano, se tivermos sorte. Mas vimos exemplos de mares leitosos que duram apenas um dia ou dois, até 45 dias ou mais... Aquele pelo qual o Ganesha navegou, por exemplo, durou cerca de 60 noites!"

"É ótimo porque agora podemos continuar a estudá-los do mar e do céu até chegar a compreendê-los."

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