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segunda-feira, 20 de dezembro de 2021

Como o peru, originário do México, tornou-se o prato típico de Natal no mundo todo

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Séculos atrás, a carne mais consumida no Natal era... cabeça de javali em conserva.
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TOPO
Por BBC

Postado em 20 de dezembro de 2021 às 21h55m

Post.- N.\ 10.139

Introduzido na Inglaterra no século 16, o peru somente se tornaria um clássico do Natal 400 anos depois — Foto: Alamy/BBC
Introduzido na Inglaterra no século 16, o peru somente se tornaria um clássico do Natal 400 anos depois — Foto: Alamy/BBC

Em 25 de dezembro de 1406, o bispo de Salisbury, no Reino Unido, sentou-se à mesa para sua ceia de Natal.

Richard Mitford, já idoso, teve uma vida agitada, cheia de altos e baixos. Ele chegou a trabalhar em um alto posto na residência do rei Ricardo 2°, para depois ser preso na Torre de Londres por traição.

Mas agora Mitford vivia alegremente seus últimos anos.

A refeição era modesta, pelos padrões costumeiros do bispo - apenas 97 pessoas foram convidadas. O cardápio era abundantemente carnívoro e parecia mais um zoológico. Havia metade de uma vaca, três carneiros, 24 coelhos, um porco, metade de um javali silvestre, sete leitões, dois cisnes, duas galinhas d'água, quatro patos-reais, 20 narcejas (aves pernaltas com longos bicos que balem como cabras), 10 capões (frangos capados) e três marrecos.

Naquele ano o dia de Natal ocorreu em um sábado - um dia de adoração, no qual tecnicamente as pessoas deveriam comer apenas peixe. Por isso, o bispo também encomendou alguns animais aquáticos.

Ao todo, foram servidos aos convidados 50 arenques-brancos (em conserva, como filés enrolados), 50 arenques-vermelhos (arenques tão salgados que assumem coloração vermelho-cobre), três longas enguias-do-mar, 200 ostras e 100 caracóis.

Naquela época, não havia garfos, e as pessoas não usavam pratos individuais nas refeições. Os garfos ainda não haviam chegado à Inglaterra e os pratos somente seriam inventados no século 17.

Com apenas facas e colheres à disposição, Mitford e seus convidados comiam os alimentos fatiados ou moídos, para que pudessem ser servidos sobre grossas fatias redondas de pão chamadas em inglês de "trenchers".

"É uma grande cerimônia", afirma Chris Woolgar, professor emérito de história e estudos documentais da Universidade de Southampton, no Reino Unido, que estudou extensamente os hábitos culinários de Mitford.

"São alimentos nobres sendo exibidos", acrescenta ele, explicando que havia garçons cortadores trabalhando para empilhar alimentos para os convidados.

Mas uma carne foi excluída da coleção de animais natalina de Mitford: não havia peru assado.

Esse prato, na verdade, somente surgiria na Inglaterra décadas depois - e apenas se tornaria um clássico de fim de ano no início do século 20.

Com toda a imensa oferta de outras carnes para escolher, como essa estranha ave mexicana acabou por dominar o cardápio? E quais iguarias natalinas antigas ele veio a substituir?

O lado bom

Woolgar tomou conhecimento de Mitford quando trabalhava como arquivista na Universidade de Oxford, no Reino Unido, em 1979.

Naquela época, ele estava catalogando os relatos domésticos de grandes residências - registros que descreviam os gastos culinários dos lordes, damas e bispos em detalhes.

Ele rapidamente percebeu a visão detalhada que esses registros poderiam fornecer sobre a vida na era medieval e reuniu suas descobertas em um livro chamado The Culture of Food in England, 1200-1500 ("A Cultura do Alimento na Inglaterra, 1200-1500", em tradução livre).

"Eles descrevem, dia após dia, o que as pessoas compravam e o que consumiam", afirma Woolgar.

Os relatos de Mitford revelam, por exemplo, como a sua alimentação era imensamente variada. Em apenas um ano, ele consumiu 42 tipos diferentes de peixes, incluindo arraias, peixes miúdos, robalos, carpas, bacalhau, lagostins, enguias, cadozes, hadoques, pescadas, cavalas, lampreias, tainhas, percas e lúcios.

Mas, embora os nobres tenham sempre passado bem, um aspecto da vida - que inclui o Natal - havia acabado de melhorar para todos no final do século 14. Foi um efeito colateral inesperado de uma tragédia global: a Grande Peste.

Antes da Peste, a maioria das pessoas sobrevivia principalmente à base de alimentos preparados com cereais, como pães e uma espécie de mingau feito de trigo picado fervido com leite ou caldo de animais.

Na Idade Média, era servida no Natal uma cabeça de javali esfolada e costurada novamente — Foto: Alamy/BBC
Na Idade Média, era servida no Natal uma cabeça de javali esfolada e costurada novamente — Foto: Alamy/BBC

"Havia muito pouca proteína na alimentação, em termos de carne ou laticínios", afirma Woolgar, acrescentando que muitas pessoas se alimentavam de doações de famílias ricas ou asilos.

Havia, por exemplo, a esposa de um funcionário público de Norfolk, no Reino Unido, que fornecia alimentos todos os dias para 13 camponeses - número cuidadosamente escolhido pelo seu simbolismo cristão - mas apenas pão e arenque.

Mas, quando a Grande Peste se espalhou pela Europa, a Ásia e o norte da África, em meados do século 14, ela varreu algo entre 30% e 40% da população do planeta - e os sobreviventes perceberam que havia muito mais alimentos disponíveis.

"A pandemia matou as pessoas, e não os animais. Por isso, o equilíbrio mudou muito a partir dali", explica Woolgar. De repente, a carne retornou ao cardápio da população e todos queriam comer como um nobre no Natal.

Criação de Frankenstein

Acredita-se que uma das principais e mais populares carnes para as festas natalinas na Idade Média seja ainda mais antiga - a cabeça de javali em conserva.

A preparação do prato devia ser extremamente trabalhosa. A cabeça do animal era normalmente apresentada com uma maçã na mandíbula e elaborada decoração com ervas.

A iguaria era tão apreciada que ganhou até uma canção: o Cântico da Cabeça de Javali, que era entoado quando ela entrava na sala sobre a travessa. Nas residências ricas, a canção era apresentada por menestréis - os artistas medievais - e anunciada por trombetas:

"A cabeça de javali trago nas mãos,

com guirlandas alegres e pássaros cantando!

Peço que me ajudem a cantar todos vocês que estão neste banquete!

A cabeça de javali, pelo que sei,

É o prato principal de toda esta terra!

Onde quer que esteja, ela é servida com mostarda!..."

Mas, apesar da popularidade do prato - que é amplamente ilustrado em cenas natalinas da época - não se tem muita certeza de como ele era realmente preparado. O que se sabe é que era um processo terrível.

Um possível método incluía fatiar o rosto do javali e conservá-lo em sal por várias semanas, junto com carne do interior da cabeça, antes de costurá-lo de volta em uma espécie de Frankenstein suíno.

A carne curada podia então ser picada e misturada com toucinho e especiarias para fazer uma espécie de recheio em camadas, que poderia ser usado para rechear novamente a cabeça.

Todo o conjunto precisaria então ser firmemente amarrado com tecido de musseline, para criar novamente a forma de uma cabeça, e depois fervido por horas sobre uma camada de cenouras, pastinacas e cebolas. Para decorar, acredita-se que ela pudesse ser coberta com fuligem para simular o pelo do animal.

Afirma-se que o prato terminado teria um sabor delicioso de torta de carne de porco e era muitas vezes servido com "músculo" - carne dos ombros do javali, preservada em cidra, vinho ou vinagre.

Mas, embora a cabeça de javali e sua canção tenham sido há muito esquecidas pelo público em geral, elas permanecem vivas em uma instituição até hoje. O Queen's College, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, promove há séculos a Festa da Cabeça de Javali - um banquete completo com uma cabeça de javali em conserva e a canção tradicional entoada por um coral.

A festa começou originalmente como um banquete de Natal comum para membros da faculdade que lá permaneciam durante as festas e, desde então, evoluiu até tornar-se uma celebração anual, no último sábado antes do Natal.

Outro prato medieval levemente macabro era o "pavão dourado", que envolvia esfolar um pavão mantendo suas penas e a cabeça. O corpo era então assado e, por fim, colocado de volta no lugar.

As penas poderiam então ser espalhadas pela mesa e a crista da ave era decorada com folhas de ouro para formar uma impressionante decoração de Natal.

Mas o prato tinha fama de não ser muito saboroso. Aparentemente, o sabor era uma mistura de galinha e faisão, mas a carne das aves mais velhas poderia ser dura e seca.

Independentemente das carnes específicas e outros pratos servidos nos banquetes de Natal da Idade Média, Woolgar explica que os molhos que os guarneciam provavelmente não sofriam grandes alterações.

Diferentemente dos molhos ricos e brilhantes preferidos hoje em dia, os molhos da época, em sua maioria, eram misturas ácidas feitas de vinho ou vinagre aromatizado com ervas.

Uma dessas criações era o "molho Cameline", feito de canela - que era muito popular e surpreendentemente abundante - fervida no vinagre com pedaços de pão. Era o catchup da época, tão popular que podia até ser comprado pronto.

"Acho que o sabor de muitos desses alimentos nos desagradaria porque não temos o mesmo tipo de temperos que costumávamos ter", afirma Woolgar.

"Mas deve ser como o primeiro gole de cerveja - você acaba se acostumando. Tudo se torna desejável quando as outras pessoas estão consumindo."

Novo produto de importação

Em 1526, um jovem proprietário de terras de Yorkshire, na Inglaterra, voltou para casa após uma longa viagem. William Strickland havia navegado para o Novo Mundo em uma viagem de descobertas, onde comprara seis aves com aparência estranha de comerciantes nativos americanos.

Essas aves tinham pedaços de pele oscilantes que balançavam junto aos bicos como meias vermelhas e gostavam de desfilar com suas caudas expostas. Eram perus e, quando seu navio atracou no porto de Bristol, Strickland os vendeu a habitantes locais por dois pences cada um.

Ou pelo menos foi assim que Strickland contou posteriormente como havia introduzido o peru na Inglaterra, embora sua história nunca tenha sido confirmada.

Décadas depois, o rei Eduardo 6° permitiu que ele incluísse a ave no brasão da família - a primeira ilustração já feita de um peru no mundo ocidental.

Recentemente, foram encontradas evidências adicionais dessa história. Em 1981, arqueólogos escavavam um local chamado Paul Street, no centro da cidade de Exeter, no sul da Inglaterra, e encontraram ossos de peru. Na época, o achado não foi considerado muito significativo. Mas, em 2018, uma nova análise revelou algo surpreendente.

Os ossos de peru encontrados estavam rodeados de vidro e cerâmica sofisticada, o que sugere que eles teriam sido consumidos como parte de um antigo banquete da nobreza. Os fragmentos foram datados como sendo de 1520 a 1550, o que está de acordo com a introdução das aves no país em 1526.

Portanto, eles não eram perus comuns - poderão ter sido alguns dos primeiros perus da Inglaterra.

Embora esse novo tipo de ave tenha levado séculos para cair no gosto do público em geral, os perus fizeram sucesso imediato junto à elite. Eram muito apreciados principalmente por serem exóticos. Como o colorido pavão, originário da Índia, ter peru na mesa era um símbolo de status importante.

O peru também foi associado quase instantaneamente ao almoço de Natal, possivelmente porque ele atinge seu tamanho adulto no outono e normalmente as aves são abatidas no meio do inverno do hemisfério norte.

Acredita-se que o rei mais famoso da Inglaterra, Henrique 8°, comia peru no Natal pouco depois da introdução da ave no país.

Nos séculos que se seguiram, o peru se tornou parte importante dos banquetes de Natal da classe mais abastada, embora nem sempre fosse necessariamente o astro do espetáculo.

Até que surgiu o escritor Charles Dickens.

Dickens gostava muito de perus e escreveu sobre eles no seu Conto de Natal, onde o avarento Ebenezer Scrooge (atenção: spoiler!) observa seus erros cometidos e muda sua vida, acabando por providenciar um enorme peru de última hora no dia de Natal para seu funcionário mal remunerado.

Pouco depois da publicação do conto, em 1843, o guia turístico e amigo de Dickens George Dolby prometeu ao escritor um peru espetacular para o seu almoço de Natal - o melhor de todo o condado de Herefordshire, na Inglaterra. Foi aí que aconteceu o desastre.

O peru de 13 kg foi morto e embalado com segurança em um cesto com diversas outras iguarias e enviado de trem para Londres. Mas, no dia seguinte, Dolby recebeu uma carta urgente de Dickens: "Onde está aquele peru? Ele não chegou!!!!!!!!!!!"

Dolby acabou por descobrir que o cesto havia sido transferido ao longo do caminho para uma carroça, que pegou fogo, destruindo todo o seu interior. Dickens referiu-se posteriormente ao incidente de forma bem humorada, especialmente porque os restos carbonizados haviam sido distribuídos para famílias pobres locais como um delicioso almoço de Natal, ainda que levemente queimado.

Entre as muitas tradições, credita-se atualmente a Dickens a popularização do peru como clássico de Natal. Mas a preferência mais comum na época era o ganso assado. Seu concorrente mais exótico somente se tornaria o almoço festivo disseminado quase 100 anos depois, porque ele precisava de um incentivo final.

Na década de 1920, os avanços da produção de alimentos trouxeram reduções dos preços. Pequenas fazendas foram absorvidas pelas grandes e surgiram máquinas agrícolas de ponta.

E os perus domésticos, que até então eram muito parecidos com seus primos selvagens, foram criados para tornar-se adultos mais rapidamente e assumir proporções gigantescas. Tanto que, atualmente, eles costumam sofrer de problemas nos ossos, que não acompanharam seus corpos superdimensionados.

Uma década mais tarde, os perus finalmente tornaram-se acessíveis para as pessoas comuns - ainda que custando cerca de uma semana de salário - e, nos anos 1930, eles superaram outros tipos de carne, tornando-se o prato principal entre os assados típicos do Natal.

Mas pode ainda haver uma evolução por vir. Em algumas partes do mundo, surgem os primeiros sinais de que os perus não são mais considerados apenas ceias de Natal ambulantes, mas sim aves muito sociáveis e afetuosas que adoram massagens no pescoço. Segundo alguns relatos, eles podem ser realmente carentes de atenção.

Os perus são tão amistosos que até jogam futebol - ou, pelo menos, gostam de perseguir e bicar objetos redondos. Agora, algumas celebridades estão incentivando as pessoas a adotá-los em vez de comê-los. E outros estão defendendo os perus como animais de estimação.

Talvez os perus não sejam vistos como almoço de Natal para sempre. Talvez eles sejam apenas outra mania passageira, como o espetáculo de carnes de Mitford e a elaborada cabeça de javali.

* Zaria Gorvett é jornalista sênior da BBC Future.

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Sobe para 375 o número de mortos em passagem de tufão nas Filipinas

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Rai é um dos tufões mais letais a atingir o país nos últimos anos. Ao menos 500 pessoas ficaram feridas e 56 estão desaparecidas no sul e no centro do arquipélago asiático.
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TOPO
Por France Presse

Postado em 20 de dezembro de 2021 às 08h00m

Post.- N.\ 10.138

Árvores e estruturas derrubadas durante a passagem do tufão Rai na Ilha Siargao, no sul das Filipinas, no domingo (19) — Foto: Gabinete do vice-presidente das Filipinas via AP
Árvores e estruturas derrubadas durante a passagem do tufão Rai na Ilha Siargao, no sul das Filipinas, no domingo (19) — Foto: Gabinete do vice-presidente das Filipinas via AP

Ao menos 375 pessoas morreram na passagem do Rai pelas Filipinas, um dos tufões mais letais a atingir o país nos últimos anos, enquanto prosseguem os esforços para levar comida e água à população das ilhas devastadas.

Outras 500 pessoas ficaram feridas e 56 ainda estão desaparecidas no sul e no centro do arquipélago asiático, segundo a polícia, que divulgou os novos números nesta segunda-feira (20).

Mais de 300 mil pessoas foram forçadas a abandonar suas casas e hotéis de praia, e várias áreas estão sem comunicação e sem energia elétrica. A Cruz Vermelha filipina fala um "desastre total" nas áreas costeiras, com casas, escolas e hospitais destruídos.

Veja o trajeto do tufão que atingiu as Filipinas — Foto: Juan Silva e Sávio Ladeira/g1
Veja o trajeto do tufão que atingiu as Filipinas — Foto: Juan Silva e Sávio Ladeira/g1


Sobe o número de mortos em passagem de tufão nas Filipinas
Sobe o número de mortos em passagem de tufão nas Filipinas

"Nossa situação é desesperadora", diz Ferry Asuncion, um vendedor ambulante da cidade de Surigao, que foi devastada pela tempestade.

O tufão Rai atingiu as Filipinas na quinta-feira (16), com ventos de 195 km/h, e causou destruição generalizada também nas ilhas de Siargao, Dinagat e Mindanao.

A governadora de Dinagat, Arlene Bag-ao, disse no sábado (18) que os danos à ilha "são uma lembrança igual ou pior" à destruição causada pelo supertufão Haiyan, em 2013. Haiyan foi o ciclone mais mortal já registrado no país, com mais de 7,3 mil pessoas mortas ou desaparecidas.

Milhares de policiais, militares, agentes da Guarda Costeira e bombeiros continuam mobilizados para ajudar nas buscas e nos resgates nas áreas atingidas. Retroescavadeiras e tratores estão sendo usados para ajudar a desobstruir estradas bloqueadas pela queda de postes e árvores.

Imagem aérea mostra casas danificadas pelo tufão Rai, na cidade de Surigao, em 17 de dezembro de 2021 nas Filipinas — Foto: Guarda costeira das Filipinas via Reuters
Imagem aérea mostra casas danificadas pelo tufão Rai, na cidade de Surigao, em 17 de dezembro de 2021 nas Filipinas — Foto: Guarda costeira das Filipinas via Reuters

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domingo, 19 de dezembro de 2021

Geleira gigante na Antártica pode se desintegrar rapidamente, advertem cientistas

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Cientistas dizem que uma seção na frente da geleira Thwaites poderá em breve 'estilhaçar-se como o para-brisa de um carro'.
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TOPO
Por Jonathan Amos, BBC

Postado em 19 de dezembro de 2021 às 11h25m

Post.- N.\ 10.137

Frente da geleira Thwaites está derretendo — Foto: Rob Larter via BBC
Frente da geleira Thwaites está derretendo — Foto: Rob Larter via BBC

Os cientistas estão alertando sobre mudanças dramáticas em uma das maiores geleiras da Antártica, potencialmente nos próximos cinco a 10 anos.

Eles dizem que uma seção flutuante na frente da geleira Thwaites que até agora esteve relativamente estável poderia "quebrar como o para-brisa de um carro".

Pesquisadores dos Estados Unidos e do Reino Unido estão atualmente envolvidos em um intenso programa de estudos em Thwaites por causa de sua taxa de derretimento. Ela já está despejando 50 bilhões de toneladas de gelo no oceano a cada ano.

Infográfico mostra tamanho da geleira Thwaites — Foto: BBC
Infográfico mostra tamanho da geleira Thwaites — Foto: BBC

Isso está tendo um impacto limitado nos níveis globais do mar hoje, mas há gelo suficiente retido na bacia hidrográfica da geleira para elevar o nível dos oceanos em 65 cm — se tudo derreter.

É improvável que esse cenário de "juízo final" aconteça por muitos séculos, mas a equipe de estudo diz que Thwaites agora está respondendo a um mundo em aquecimento de maneiras realmente muito rápidas.

"Haverá uma mudança dramática na frente da geleira, provavelmente em menos de uma década. Tanto os estudos já publicados quanto os ainda não publicados apontam nessa direção", diz à BBC News o glaciologista Ted Scambos, coordenador-chefe dos EUA para a Colaboração Internacional da Geleira Thwaites (ITGC, na sigla em inglês).

"Isso vai acelerar o ritmo (do degelo da Thwaites) e ampliar, efetivamente, a parte perigosa da geleira", acrescenta ele.

A Thwaites é um colosso. É quase do tamanho da Grã-Bretanha ou da Flórida, e sua velocidade de derretimento dobrou nos últimos 30 anos.

O manto de gelo da Antártica Ocidental ficou ainda mais fino — Foto: BBC
O manto de gelo da Antártica Ocidental ficou ainda mais fino — Foto: BBC

O ITGC mostrou como essa dinâmica está acontecendo. É o resultado da água quente do oceano passando por baixo — e derretendo — a frente flutuante de Thwaites, ou plataforma de gelo como é conhecida.

A água quente está afinando e enfraquecendo esse gelo, fazendo-o derreter mais rapidamente e empurrando para trás a zona onde o corpo da geleira principal se torna flutuante.

No momento, a borda da plataforma oriental de gelo está fixada no lugar por uma crista submarina offshore, o que significa que sua velocidade de vazão é um terço daquela observada no setor oeste da plataforma de gelo, que não tem tal restrição.

Mas a equipe do ITGC diz que a plataforma leste provavelmente se desacoplará da crista nos próximos anos, o que a desestabilizará. E mesmo se isso não acontecer, o aparecimento contínuo de fraturas na plataforma de gelo quase certamente vai romper a área de qualquer maneira.

"Visualizo isso de forma semelhante à janela do carro onde você tem algumas rachaduras que estão se propagando lentamente e, de repente, você passa por um solavanco e a coisa toda começa a quebrar em todas as direções", explica Erin Pettit, da Oregon State University, nos Estados Unidos.

A área afetada é muito pequena quando considerada no contexto da geleira como um todo, mas representa uma mudança para um novo regime, e o mais importante é o que isso significa para mais perda de gelo.

Atualmente, a plataforma oriental, que tem uma largura de cerca de 40 km, avança cerca de 600 m por ano. A próxima mudança de status provavelmente fará com que o gelo salte em velocidade para cerca de 2 km por ano — o mesmo que a velocidade atual registrada no setor oeste de 80 km de largura.

Financiado conjuntamente pela Fundação Nacional da Ciência dos Estados Unidos e pelo Conselho de Pesquisa em Conselho de Pesquisa em Meio Ambiente Natural do Reino Unido, o projeto do ITGC, que vai durar cinco anos, investiga a Thwaites nos mínimos detalhes.

A cada verão na Antártica, equipes de cientistas analisam o comportamento da geleira de todas as maneiras possíveis. De satélite, no gelo e de navios na frente de Thwaites.

As equipes já começaram a se deslocar para iniciar os trabalhos na nova temporada que está a ponto de começar — algumas equipes ainda estão em quarentena por covid antes de dar início ao trabalho de campo para valer.

Um dos projetos para o Ano Novo vai envolver o pequeno submarino amarelo conhecido como "Boaty McBoatface".

Sob o gelo flutuante de Thwaites, ele vai coletar dados sobre a temperatura da água, direção da corrente e turbulência — todos fatores que influenciam o derretimento.

O veículo autônomo fará missões com duração de um a quatro dias, navegando em seu próprio caminho pela cavidade abaixo da plataforma.

Trata-se de uma missão de alto risco, pois o terreno do fundo do mar é extremamente acidentado.

"É assustador. Podemos não ter Boaty de volta", diz Alex Phillips, do Centro Nacional de Oceanografia do Reino Unido.

"Nos esforçamos muito no ano passado no desenvolvimento de sistemas anticolisão, para garantir que ele não se chocasse com o fundo do mar. Também temos planos de contingência pelos quais se ele entrar em apuros, pode refazer seus passos e retirar-se em segurança. "

Os mais recentes estudos sobre a geleira Thwaites estão sendo apresentados nesta semana no Encontro de Outono da União Geofísica Americana em Nova Orleans.

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Revista 'Nature' publica estudo brasileiro que estima morte de 17 mil vertebrados por queimadas no Pantanal

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Pesquisa, publicada nesta quinta-feira (16), contabilizou carcaças de animais e criou um modelo matemático para fazer uma estimativa da destruição provocada pelo fogo no bioma.
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Por Rodrigo Lois, G1

Postado em 19 de dezembro de 2021 às 10h00m

Post.- N.\ 10.136

Extermínio no Pantanal: 17 milhões de animais morreram nas queimadas em 2020, diz estudo
Extermínio no Pantanal: 17 milhões de animais morreram nas queimadas em 2020, diz estudo

A revista "Nature" publicou nesta quinta-feira (16) um estudo brasileiro realizado por 30 pesquisadores de órgãos públicos, de universidades e de organizações não-governamentais que estima a morte de, ao menos, 17 milhões de animais vertebrados em consequência direta das queimadas no Pantanal no ano passado.

Segundo a pesquisa, divulgada pelo g1 em setembro deste ano, as vítimas mais recorrentes foram as pequenas cobras, principalmente as aquáticas: mais de 9 milhões de mortes.

Os pesquisadores dizem que o trabalho é pioneiro no uso da "técnica de amostra de distâncias em linhas" para calcular mortes de animais em queimadas.

A metodologia é baseada nos chamados transectos: trilhas em linha reta através de áreas pré-determinadas pelos focos de incêndio no bioma. Cada linha percorrida tinha entre 500m e 3km. Ao todo, o grupo percorreu 114 km de transectos.

Nestes trajetos lineares, as carcaças avistadas eram registradas com datas e coordenadas geográficas, assim como a distância perpendicular de cada uma delas em relação à linha de referência.

Quanto mais longe do transecto, menor a quantidade de animais encontrados. Ao conhecer o comportamento dessa probabilidade, os pesquisadores conseguiram elaborar um modelo matemático para estimar o número de carcaças presentes na área. Isso permitiu a modelagem de estimativas que o grupo considerou confiáveis para o cálculo da densidade de animais mortos.

"O método é diferente, ele se baseia no conhecimento da probabilidade de detectar um animal a diferentes distâncias da linha. É uma estratégia moderna para corrigir o erro de detectabilidade, que é a probabilidade de enxergar o animal quando ele está presente na área em que se passa", explica Walfrido Moraes Tomas, pesquisador da Embrapa Pantanal e coordenador do estudo. 
Número subestimado

Os 17 milhões de animais vertebrados são assumidamente uma subestimativa, porque muitos animais que vivem em tocas ou dentro de ocos de árvores podem ter morrido nesses locais sem terem sido avistados. Há também o caso de vertebrados muito pequenos que podem ter sido completamente calcinados pelo fogo intenso.

A busca em campo era feita em até 72 horas após o início de cada foco do incêndio, mas a maioria dos casos foi catalogado entre 24 e 48 horas. A força-tarefa para o trabalho de campo ocorreu entre 1º de agosto e 17 de novembro de 2020 (como noticiou o G1 à época), do norte ao sul do Pantanal.

A estimativa abrange o período entre janeiro e novembro de 2020. No ano passado, o Pantanal foi consumido pela maior tragédia de sua história, com a destruição de cerca de 4 milhões de hectares (26% da área de todo o bioma).

Os animais registrados no levantamento foram divididos em dois grupos, de acordo com o tamanho da carcaça: pequenos vertebrados (menos de 2kg), como anfíbios, pequenos lagartos, cobras, pássaros e roedores; e médios para grandes vertebrados (2kg ou mais), como queixadas, capivaras, mutuns, grandes cobras, tamanduás e primatas.

As serpentes aquáticas representaram 60% das vítimas.

"Esses animais possuem baixa capacidade de locomoção, o que dificulta a fuga durante um incêndio. Durante a estação seca costumam ficar enterradas em áreas de campo inundáveis. Quando o fogo atinge uma área úmida seca é bastante comum ocorrer o incêndio de turfa, que consome a espessa camada de matéria orgânica. Esse tipo de fogo é de difícil combate e detecção, podendo queimar por semanas e atingir os animais que habitam esses ambientes", explicou a bióloga Gabriela do Valle Alvarenga, pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), participante da pesquisa.

Impacto na biodiversidade

A biodiversidade do Pantanal é composta por mais de 2 mil espécies de plantas, 269 peixes, 131 répteis, 57 anfíbios, 580 aves e pelo menos 174 mamíferos. O número de invertebrados é desconhecido.

Grandes vertebrados como cervos, veados, antas e onças não foram observados a partir dos transectos dada a baixa densidade populacional dessas espécies no Pantanal. Mas foram frequentemente encontrados durante o trabalho de combate aos incêndios, mortos ou feridos perto de estradas.

O estudo alerta que as mudanças climáticas provocadas pelas ações do homem têm influenciado a frequência, a duração e a intensidade das secas na região. O impacto de seguidas queimadas pode ser catastrófico e empobrecer o ecossistema, que já é frágil durante o período sem chuvas. O fogo faz parte da dinâmica natural do Pantanal, mas não nessas proporções.

Diante da possibilidade de novos desastres na região, os pesquisadores esperam com o estudo ajudar a dimensionar os impactos cumulativos causados por incêndios recorrentes no bioma.

"Esses números dão uma ideia do cenário das mudanças climáticas. A probabilidade de ter incêndios como esses é alta. Isso pode acontecer, acontecer, e acontecer, destruindo o ecossistema", comenta o coordenador Walfrido Moraes Tomas. 
Força-tarefa

O trabalho contou com pesquisadores da Embrapa Pantanal, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), do Instituto Nacional de Pesquisa do Pantanal (INPP), Universidade do Mato Grosso (UFMT), Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Fundação Meio Ambiente do Pantanal, Instituto Smithsonian (dos Estados Unidos), entre outras instituições.

Houve também o apoio logístico e suporte financeiro de ONGs como WWF Brasil, ONG Panthera, Instituto Homem Pantaneiro, Ecologia e Ação (ECOA), Museu Paraense Emílio Goeldi, além da Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso do Sul e da colaboração de voluntários.

No início dos levantamentos no ano passado, a escassez de verbas impactou o planejamento e as ações no campo, e pesquisadores precisaram trabalhar voluntariamente. Com a repercussão da força-tarefa, chegaram depois recursos de governos estaduais e ONGs.

5 pontos sobre as queimadas no Pantanal
5 pontos sobre as queimadas no Pantanal

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