Um sonho, porém, continuou vivo: a conquista de Marte
— sonho que, aos poucos, foi se tornando realidade. Em passos
históricos, a humanidade expandiu sua exploração do Planeta Vermelho,
para onde enviou novas sondas e veículos e onde confirmou a existência
de água.
Além disso, mirando outros pontos do universo vimos pela primeira vez a imagem de um buraco negro, objetos construídos pelo ser humano saíram do Sistema Solar, e os primeiros turistas compraram passagens para um passeio na estratosfera.
No século 21, a exploração do espaço colocou a humanidade mais perto de outros mundos.
Desastre no céu
No começo do novo milênio, o mundo já se acostumara com as idas e
vindas ao espaço dos ônibus espaciais americanos. Columbia, Atlantis,
Discovery, Endeavour e Challenger já haviam retornado do espaço
aterrissando tranquilamente sobre uma pista um total de 111 vezes. Uma
trágica missão, em 1986, terminara na explosão da Challenger durante o
lançamento, mas a aterrissagem era garantia de um espetáculo belo e
seguro. Até o desastroso dia 1º de fevereiro de 2003.
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O acidente com o Columbia, em que morreram sete astronautas, abalou o
programa espacial dos EUA — Foto: Brett Coomer/Getty Images
O Columbia era o mais antigo ônibus espacial do programa iniciado pelos
EUA no final da década de 1970, tendo realizado até então 27 missões
bem-sucedidas. Naquele dia de fevereiro, depois de passar mais de 15
dias em órbita em torno da Terra numa missão científica, longe da
Estação Espacial Internacional, a nave entrava na atmosfera a caminho de
Cabo Canaveral, no Estado da Flórida. A apenas 16 minutos da aterrissagem, o Columbia se despedaçou. Pouco depois de perder contato com o centro de controle em Houston, partes da nave riscaram o céu sobre o Estado do Texas.
"Perdemos o Columbia. Não há sobreviventes", disse o presidente George
W. Bush, num sombrio pronunciamento à nação em que confirmava a morte
dos sete astronautas. O
desastre, causado pelo descolamento de um pedaço de espuma do tanque de
combustível que atingiu e danificou a asa esquerda da nave, durante sua
decolagem, levou à suspensão imediata dos voos dos ônibus espaciais.
Em 14 de janeiro de 2004, Bush anunciou a futura aposentadoria das
naves e o fim do programa — que, entre suas inúmeras realizações
colocara em órbita o telescópio Hubble, em 1990. Os EUA, disse o
presidente, apenas cumpririam os compromissos de conclusão da Estação
Espacial, previstos até 2010. As
viagens com os ônibus seriam retomadas em 2005, com a volta do
Discovery ao espaço, mas a missão do Atlantis de maio de 2011 seria a
última do programa.
Os trabalhos e as estratégias da Nasa, a agência espacial americana, começavam a ser reinventados.
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O Atlantis fez a última missão de todos os ônibus espaciais americanos, em julho de 2011 — Foto: Nasa
As razões para o gradual fim do programa com os ônibus espaciais foram muitas, mas se resumiam a dois aspectos: segurança e, principalmente, custo.
O então engenheiro da Nasa Mark Adler escreveu em 2015, no site de
ciência e tecnologia Gizmodo, que o programa era "caro demais".
"O
ônibus nunca cumpriu sua promessa de acesso de baixo custo ao espaço
graças à reutilização do sistema", disse Adler. "O ônibus e a Estação
Espacial dominavam completamente o orçamento da Nasa para voos espaciais
com seres humanos, a ponto de não ser possível nenhum outro
desenvolvimento significativo."
As consequências da progressiva aposentadoria dos ônibus espaciais foram significativas.
Primeiro, os EUA ficariam sem um veículo próprio para enviar
astronautas ao espaço. Segundo, as limitações orçamentárias foram uma
forte sinalização para a iniciativa privada de que, a partir de então, o
setor espacial estava aberto para visionários e ambiciosos empresários.
China, Europa e Marte
O mundo ainda se recuperava do chocante desparecimento do Columbia quando uma nova potência entrou na cena espacial.
Em
15 de outubro de 2003, a China colocou em órbita seu primeiro
astronauta, Yang Liwei, um piloto de 38 anos da Força Aérea do país.
Depois de contornar a Terra 14 vezes, durante 21 horas, em sua nave
Shenzhou, Yang pousou no norte da China e foi recebido como herói por
cerca de 600 pessoas da região. Com o feito, a China tornou-se apenas o
terceiro país a colocar uma pessoa no espaço, depois da União Soviética e
dos EUA, ambos nos anos 1960.
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O feito de Yang Liwei ocupou as capas dos jornais chineses e fez de seu
país uma nova potência da exploração espacial — Foto: Getty Images
"Os americanos estão muito preocupados", disse à BBC News na época o
professor Phil Deans, especialista em China da Universidade de Londres.
"Desde o fim da Guerra Fria, eles têm tido quase um completo monopólio em ir ao espaço. Agora tem muito mais concorrência."
A viagem de Yang ao espaço seria apenas o primeiro passo do ambicioso programa espacial chinês. Os objetivos de Pequim incluíam a construção de uma estação espacial e a exploração da Lua.
Também em 2003, em junho, fora aberta a temporada marciana, impulsionada pelas movimentações no Sistema Solar.
Naquele
período, Terra e Marte estariam mais pertos um do outro do que jamais
haviam estado desde que se tinha registro, fazendo com que uma viagem
durasse apenas sete meses.
No dia 2, a ESA (Agência Espacial Europeia) usou um foguete russo
Soyuz, a partir do Cazaquistão, para lançar sua missão Mars Express.
Após o bem-sucedido lançamento, a BBC News noticiava: "A Europa vai
para Marte". Além do satélite de mesmo nome, cujo objetivo era orbitar e
investigar o planeta do alto, a missão incluía o módulo Beagle 2, que
seria lançado sobre a superfície para coletar material e investigar a
possibilidade de vida em Marte.
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O Beagle 2 deveria colher investigar sinais de vida em Marte, mas se
acidentou no pouso e não cumpriu sua missão — Foto: ESA-SPL
Aqueles fascinados pelo Planeta Vermelho mal tiveram tempo de se
recuperar da euforia com o lançamento europeu. Uma semana depois, no dia
10, a Nasa usou um foguete Delta II para levar ao espaço o veículo de exploração Spirit.
Continuando a tradição iniciada em 1997 com a missão Pathfinder, que
incluiu o veículo Sojourner, o Spirit era um robô que passearia sobre o
solo rochoso do planeta para aprender mais sobre ele.
"Temos
muitos desafios pela frente, mas este lançamento correu tão bem, que
estamos encantados", disse na época Pete Theisinger, gerente de projetos
das missões a Marte da Nasa.
Menos de um mês depois, um novo foguete Delta II partiu da Flórida
levando um irmão gêmeo do Spirit, chamado Opportunity. Igual ao
primeiro, o segundo robô enviado pela Nasa em menos de um mês tinha como
endereço um ponto diferente de Marte. Ambos investigariam a
possibilidade de ter havido vida no planeta vizinho num passado
distante.
Os lançamentos a Marte e o feito dos chineses serviram de alívio em um
ano que vinha marcado pela tragédia do Columbia. Como disse uma
reportagem do site da rede americana NBC em 23 de dezembro, 2003 foi "o
pior dos tempos e o melhor dos tempos" para a exploração espacial.
Haveria uma decepção extra, porém. No dia de Natal, o módulo Beagle 2
deveria aterrissar em Marte e começar a enviar dados de volta à Terra,
seis dias depois de ter se separado da sonda Mars Express, que orbitava o
planeta.
Tudo parecia ir bem até que o Beagle 2 — um equipamento pequeno, de
menos de 1 metro de largura — ficou em silêncio. Dois meses depois, ele
seria dado como perdido, para a tristeza dos cientistas do programa
europeu.
Missões inéditas
O sorriso voltaria logo aos rostos dos cientistas da agência europeia,
mas por outro motivo. Em 2 de março de 2004, um foguete Ariane foi
lançado na Guiana Francesa. Num projeto da ESA, o Ariane carregava a
sonda Rosetta, cuja missão era das mais ousadas já imaginadas: alcançar,
fotografar e estudar um cometa.
O
plano, um projeto de cerca de US$ 1 bilhão, previa que a Rosetta
viajasse 7 bilhões de quilômetros na direção do cometa
67P/Churyumov-Gerasimenko.
Dez anos depois da partida, a sonda entraria em órbita em torno do 67P e
lançaria um pequeno módulo em sua superfície para estudar sua
composição.
"A Rosetta é parte da nossa busca por conhecimento e nossos sonhos",
afirmou o diretor-geral da ESA, Jean-Jacques Dordain. O público,
intrigado com a missão, ainda teria de esperar uma década para saber se o
plano daria mesmo certo.
Em 19 de janeiro de 2006, foi a vez de a Nasa fazer algo que nunca fora
feito antes. Após dois dias de suspense e adiamentos devido ao mau
tempo, um foguete Atlas 5 partiu de Cabo Canaveral, na Flórida,
carregando a sonda New Horizons.
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Em 2006, o foguete Atlas 5 partiu de Cabo Canaveral, na Flórida,
carregando a sonda New Horizons em direção a Plutão — Foto: Bruce
Weaver/Getty Images
O destino: Plutão, o último planeta do Sistema Solar,
misterioso como o Deus grego que inspirou seu nome. Alan Stern, um dos
chefes da missão New Horizons, dizia que provavelmente a viagem mudaria
muito do que se sabia sobre o planeta. "Eu acho emocionante que todos os
livros didáticos terão de ser reescritos", afirmou Stern, segundo o
site Space.com.
A verdade é que os livros tiveram mesmo de ser reescritos, mas muito
antes de a New Horizons enviar qualquer novidade sobre Plutão. Em agosto
de 2006, apenas sete meses depois do lançamento da sonda, cerca de
2.500 cientistas reunidos em Praga (República Tcheca), durante encontro
da União Astronômica Internacional, tomaram uma decisão dramática. Determinaram que, a partir de então, Plutão não seria mais um planeta.
Diante
da descoberta de outros corpos celestes que também circundavam nosso
Sol e eram maiores que Plutão, os cientistas estabeleceram três principais critérios para determinar o que era um planeta.
Primeiro, ele precisaria orbitar uma estrela; em segundo, precisaria ter massa e tamanho suficientes para obter um formato redondo; e, em terceiro, precisaria ter uma órbita só sua, tendo forçado outros objetos a afastar-se de seu caminho.
A órbita de Plutão não é exclusiva, já que ele invade a do muito maior Netuno, portanto ele não sobreviveu à terceira exigência. Com isso, os cientistas decidiram que o longínquo planeta ganharia uma nova definição: planeta anão.
Água em Marte
Março de 2004 foi mesmo um mês importante para os europeus. No dia 30, a
ESA comunicou que a Mars Express havia detectado metano na atmosfera de
Marte. Em pequena quantidade, é verdade, mas
o suficiente para que os cientistas voltassem a associar o vizinho da
Terra àquela palavra de quatro letras que tanto entusiasma astrônomos e
leigos: vida.
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O interesse por Marte aumentou, com o envio de várias sondas de
exploração e planos para uma viagem tripulada — Foto: Science Photo
Library
A primeira hipótese sobre a origem do gás metano na atmosfera marciana
era a de que seria resultado de "atividade vulcânica ou termo-hídrica",
como explicou em nota a agência europeia. No mesmo anúncio, a ESA
lembrou que "na Terra, o metano é subproduto de atividade biológica,
como a fermentação". Tal relação permitia considerar uma possível
associação a alguma forma de vida alienígena, disse o técnico da ESA
Vittorio Formisano: "Se tivermos de excluir a hipótese vulcânica, nós
ainda podemos considerar a possibilidade de vida".
Os robôs Spirit e Opportunity continuavam se movimentando na superfície
do Planeta Vermelho, enviando dados e imagens impressionantes.
Previstos originalmente para operar por no máximo 90 dias, os dois
ultrapassaram um ano de missão e no início de 2006 chegaram ao segundo
aniversário em solo marciano. Na mesma época, a festa humana em Marte
ficou ainda mais animada com a chegada à órbita marciana da sonda MRO
(Mars Reconnaissance Orbiter).
Lançada pela Nasa em agosto de 2005, a MRO era mais um par de olhos
eletrônicos observando a superfície vermelha do alto — um céu cada vez
mais movimentado.
No entanto, enquanto Spirit e Opportunity investigavam possíveis sinais
de vidas passadas, a MRO tinha uma principal coisa em mente: água,
especialmente em estado líquido.
Segundo a Nasa, seus instrumentos iriam "obter fotos da superfície
marciana de bem de perto, analisar minérios, procurar água sob a
superfície", entre outras tarefas necessárias para decifrar o histórico
da presença do líquido. A Nasa parecia confiante de que havia chance de
haver água no mundo desértico marciano — e tinha razão.
O trabalho da MRO seria em certa medida uma continuação do que fazia a
sonda MGS (Mars Global Surveyor), lançada em 1996 e que ficou em órbita
por incansáveis dez anos.
Antes de se aposentar de vez, a MGS produziu imagens da superfície que
levaram cientistas da Nasa a uma grande descoberta. Em 2006, eles
disseram que marcas na superfície marciana, algo como grandes
escoadouros, haviam aparecido recentemente, depois de 1999. Segundo
eles, era grande a chance de que haviam sido feitos pela passagem de
água saída do interior das montanhas.
A tese foi questionada por especialistas, para quem avalanches causadas
por rochas eram a causa mais provável das marcas, mas retornou anos
depois, com ainda mais força.
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A sonda europeia Mars Express identificou a presença de água em lagos substerrâneos de Marte — Foto: ESA/DLR/FU BERLIN/DUNFORD
Em setembro de 2015, veio a grande notícia. A Nasa informou que novos dados coletados pela sonda MRO indicavam que era mesmo água a responsável pelas marcas registradas superfície de Marte, dependendo da época do ano e das condições.
"Marte
não é o planeta seco, árido que pensávamos no passado", disse o
cientista da Nasa James Green. "Sob certas circunstâncias, água em
estado líquido foi encontrada em Marte."
A descoberta da MRO foi possível graças a um de seus equipamentos,
chamado Crism, que conseguia determinar a composição química de
materiais na superfície do planeta. O Crism conseguiu estabelecer que os
caminhos deixados no relevo marciano eram cobertos por sais —
perclorato de magnésio, clorato e cloreto —, que por sua vez criavam
condições para que a água se mantivesse líquida por tempo suficiente
para percorrer um trecho da superfície. Mais champanhe na Nasa.
Três anos depois, mais água em Marte,
agora subterrânea. Dessa vez a sonda europeia Mars Express, que como a
MRO orbitava o planeta, foi a responsável pelas boas novas.
O radar da nave identificou um grande lago subterrâneo, de cerca de 20
quilômetros de extensão, no polo sul de Marte, a 1,5 quilômetro de
profundidade. Foi a primeira vez que um foco permanente de água líquida
existente no planeta foi encontrado — e não ficaria apenas nisso.
Em 2020, a ESA anunciou que outros três lagos subterrâneos na mesma região haviam sido identificados.
Na
superfície, os avanços no conhecimento sobre a atmosfera, o solo e o
subsolo de Marte ganharam impulso e emoção com chegada de um módulo
ainda mais moderno a Marte: o Curiosity.
Enviado ao planeta pela Nasa em 2011, o Curiosity era maior, mais
completo e mais robusto que qualquer um de seus antecessores. Com três
metros de comprimento e quase três de largura, o novo robô chegou com a
autoridade de um carro feito para circular pela superfície árida
dourada.
Aterrissou em agosto de 2012 e gerou renovado interesse no mundo todo
pelas aventuras marcianas da humanidade, ocupando a capa da influente
revista americana Time em agosto de 2012. "O que podemos aprender com um
robô distante 154 milhões de milhas", dizia a publicação.
Como se esperava, aprendeu-se muito. Em primeiro lugar, as imagens que o
Curiosity passou a enviar para a Terra eram impressionantes.
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O Curiosity, com mais mobilidade, chegou a Marta em 2012 e registrou imagens incríveis, inclusive de si mesmo — Foto: Nasa
Chamavam a atenção de muitos seus autorretratos — ou "selfies" —,
produzidos com seu eficiente braço mecânico — o equivalente a um "pau de
selfie".
Como para concluir cada autorretrato o robô da Nasa precisava produzir
86 imagens, já que as fotos registravam apenas uma área pequena do
módulo, a foto final não exibia o braço mecânico, dando a impressão de
que alguém mais teria produzido a fotografia. No que realmente
importava, sua missão, o Curiosity também não decepcionou.
O robô-carro fora a Marte para investigar a possibilidade de o planeta
já ter abrigado alguma forma de vida, e em 2018 fez seu maior avanço.
Em junho daquele ano, a Nasa anunciou que o Curiosity havia descoberto
"antigo material orgânico", em rochas de 3 bilhões de anos na
superfície, e "misterioso metano" na atmosfera, reforçando a descoberta
anterior dos europeus.
"Embora
comumente associadas com a vida, moléculas orgânicas também podem ser
criadas por processos não-biológicos e não são necessariamente
indicadores de vida", explicou a Nasa.
Não eram garantia de vida. Tampouco as várias sondas e robôs enviados
ao Planeta Vermelho fotografaram alienígenas verdes em sua superfície.
As missões da MRO, da Mars Express, do Curiosity e outras, porém, foram
sem dúvida alguns dos maiores sucessos espaciais, de público e crítica,
do início do século.
Fronteira final
A exploração espacial também aproximou mais a humanidade do espaço
longínquo — a chamada fronteira final. Em setembro de 2013, uma equipe
da Nasa anunciou que a sonda Voyager-1, lançada ao espaço em 1977, já
estava numa região interestelar - entre diferentes estrelas. Ou seja,
ela havia saído do nosso sistema solar.
Apesar de confirmada apenas naquela data, a passagem ocorrera em agosto
de 2012, a primeira vez na história que um objeto fabricado pelo ser
humano saía da área dominada pelo nosso Sol.
Na época, o professor de ciência e mídia da Universidade de Lincoln
Chris Riley disse à BBC News: "Um feito como esse pode ser a maior coisa
que nós, seres humanos, jamais consigamos realizar, um monumento à
nossa existência que pode durar mais que a própria civilização".
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As sondas gêmeas Voyager 1 e 2 foram os primeiros objetos fabricados pelo ser humano a deixar o Sistema Solar — Foto: Nasa
Seis anos depois, em novembro de 2018, foi a vez da Voyager-2, sua
sonda gêmea. Lançada também em 1977, duas semanas antes da Voyager-1, a
sonda fez um caminho mais longo até se lançar rumo à fronteira final, na
direção de outras estrelas e sistemas.
A Voyager-2 encontrava-se então a 18 bilhões de quilômetros da Terra,
viajando a 54 mil km/h, enquanto sua sonda irmã já estava a 22 bilhões
de quilômetros de nosso planeta, viajando a 61 mil km/h.
Desde então, ambas desbravam uma área completamente nova, numa viagem
para qual nem haviam sido preparadas — suas missões envolviam os estudos
dos planetas mais distantes do sistema solar.
Com as duas Voyagers no espaço interestelar, outro acontecimento
lembrou a todos na Terra dos mistérios em pontos distantes do universo.
Em 2016, cientistas anunciaram ter identificado ondas gravitacionais
geradas pela colisão entre dois buracos negros — o que causou uma dobra
do chamado "espaço-tempo", central na teoria da relatividade do alemão
Albert Einstein (1879-1955).
A descoberta, feita pela equipe do projeto americano Ligo Scientific
Collaboration, foi vista como uma comprovação da teoria de Einstein, cem
anos depois de sua publicação final, em 1916.
"É
a primeira vez que o universo falou conosco por intermédio de ondas
gravitacionais. Até agora, nós estávamos surdos", disse David Reitze,
diretor-executivo do Ligo, criado para estudar esse tema e explorar os
fundamentos físicos da gravidade.
Como diria Spock, fascinante! No entanto, talvez o que muitos quisessem
mesmo era ver um buraco negro, saber como ele é. Pois isso foi possível
três anos depois.
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Oito telescópios foram usados para registrar a imagem do buraco negro no centro da galáxia Messier 87 — Foto: EHT
Em 2019, pela primeira vez na história foi captada a imagem desse que é
um dos elementos mais enigmáticos do universo. "Um buraco negro é um
objeto extremamente denso do qual nenhuma luz consegue escapar", disse
de forma didática o comunicado da agência americana que anunciou a
imagem, em abril de 2019, para depois mergulhar no que soa como ficção
científica.
"Qualquer coisa que chegue ao 'horizonte de eventos' do buraco negro,
seu ponto sem volta, será consumido, para nunca mais voltar, por causa
da gravidade inimaginavelmente forte do buraco negro."
A incrível fotografia desse assustador devorador de matéria mostrava um
buraco negro no centro da galáxia Messier 87, ou M87, localizada a 55
milhões de anos-luz da Terra — ou seja, viajando à velocidade da luz,
seriam necessários 55 milhões de anos para chegar a ela.
A imagem rodou o mundo, revelando seu centro escuro, cercado por um
anel laranja e avermelhado, ardente como fogo. Na base do círculo, um
trecho mais intenso parecia compor um sorriso. O tamanho do buraco negro
era tão impressionante quanto a distância: 6,5 bilhões de vezes a massa
do nosso Sol.
Para conseguir obter uma imagem desse tipo, antes se acreditava que
seria necessário construir um gigantesco telescópio apenas para esse
objetivo.
Mas a missão foi cumprida de forma mais criativa: com o projeto Event
Horizon Telescope, ou EHT, que reuniu oito telescópios baseados em
diferentes regiões da Terra.
Combinados, eles atuaram como um telescópio do tamanho do nosso
planeta. "É um sonho realizado", disse à BBC News o chefe do EHT, Heino
Falcke. "Você pensa nisso por 20 anos, e aí você finalmente vê, e se
parece como nos seus sonhos."
Cometa e Plutão
A segunda década do século 21 trouxe recompensas por esforços feitos na primeira.
Dez anos após sua partida num foguete Ariane, a sonda Rosetta, da
agência espacial europeia, alcançava seu mais importante objetivo:
orbitar um cometa.
"Depois de uma jornada de uma década buscando seu alvo, a Rosetta, da
ESA, tornou-se hoje a primeira nave espacial a se encontrar com um
cometa, abrindo um novo capítulo na exploração do Sistema Solar", disse o
orgulhoso comunicado da ESA, em 6 de agosto de 2014.
"O cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko e a Rosetta estão agora a 405
milhões de quilômetros da Terra, no meio do caminho entre as órbitas de
Júpiter e Marte, correndo na direção do Sistema Solar interior a quase
55 mil km/h."
Viajando a uma distância de apenas 100 quilômetros do cometa — a órbita
chegaria a 50 quilômetros —, a Rosetta começava a enviar imagens
surpreendentes de seu relevo.
Uma das pontas do 67P/Churyumov-Gerasimenko logo ficou conhecida como
"bico de pato", devido a seu formato. O momento mais esperado da missão,
porém, viria em novembro do mesmo ano.
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O cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko foi orbitado e fotografado pela sonda europeia Rosetta — Foto: ESA/ROSETTA/MPS
Em novembro de 2014, a Rosetta lançou sobre o 67P o módulo Philae, a
primeira vez na história que um objeto artificial pousou num cometa.
O pouso não foi dos mais suaves, e o Philae acabou caindo sobre o relevo e se instalando num ponto relativamente encoberto.
Comunicou-se e enviou informações por três dias, incluindo algo que
entusiasmou os cientistas: o módulo identificara a presença de
"moléculas orgânicas" na fina atmosfera do 67P, incluindo compostos
ricos em carbono e nitrogênio.
A descoberta reforçou a tese de muitos de que cometas podem ter tido um
papel essencial no desenvolvimento de vida na Terra, ao espalhar
componentes orgânicos necessários para seu surgimento.
"Cometas poderiam entregar esses requerimentos necessários para vida
pelo Sistema Solar. Como você 'cozinha' o sistema de uma forma que nós
finalmente emergimos, vivendo num planeta como a Terra, é uma outra
questão", disse à BBC News o professor David Southwood, que trabalhou no
projeto da sonda Rosetta.
"Mas os cometas ou estão carregando o que é às vezes chamado de
'panspermia', entregando vida, ou o material estava lá e de alguma forma
acabou chegando ao nosso planeta."
Sem energia devido a sua posição, que dificultava a entrada de luz do
Sol para alimentar seus painéis solares, após três dias o Philae ficou
em silêncio, em estado de hibernação.
O cometa seguia na direção do Sol, e sete meses depois o módulo
despertou, com baterias recarregadas. Ficou ativo por cerca de um mês,
entre junho e julho de 2015, quando voltou a ficar em silêncio, desta
vez para sempre.
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Após um pouso difícil, o Philae ficou instalado num local de pouca luz
solar do cometa, o que dificultou sua operação — Foto: ESA
Um ano depois, o Philae foi oficialmente desligado, o que gerou mensagens carinhosas de adeus nas redes sociais.
No início de setembro de 2016, a Rosetta, semanas antes de concluir sua
missão, enviou uma imagem que solucionou o mistério sobre o destino do
módulo. "O Philae foi encontrado!", dizia o título do comunicado da
europeia ESA.
A foto mostrava, num canto da imagem, a pequena estrutura metálica, de
apenas 1 metro de largura e extensão, num ponto relativamente escuro da
superfície, no que parecia a entrada de uma gruta.
No fim daquele mês, a missão e a própria Rosetta chegariam ao fim. A
sonda lançou-se contra o 67P/Churyumov-Gerasimenko, não num pouso leve,
mas num choque, planejado para colocá-la fora de operação.
A agência americana Nasa também colheu os frutos de uma ousada e longa
missão iniciada na década anterior. O rebaixamento de Plutão à categoria
de planeta anão não reduziu a empolgação com a viagem de nove anos da
sonda New Horizons ao limite do Sistema Solar, pelo contrário.
Os cientistas da Nasa sabiam que a sonda revelaria imagens e dados
incríveis sobre esse pequeno corpo celeste, localizado a mais de 6
bilhões de quilômetros da Terra e sobre o qual pouco se sabia. Ninguém
imaginava, porém, encontrar um coração.
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O registro de Plutão feito pela New Horizons revelou detalhes inéditos do agora planeta anão — Foto: Nasa
Até julho de 2015, quando a sonda enviou suas primeiras fotos feitas
durante sua passagem pelo ex-planeta, a melhor imagem de Plutão
disponível fora feita pelo telescópio Hubble em 2003.
Ela mostrava uma esfera sem definição ou relevo, e o mundo que a New Horizons revelou era muito mais definido e interessante.
Exibido em detalhes pela primeira vez, Plutão continha montanhas com
mais de 3 mil metros de altura, largas planícies e uma região no formato
de um enorme coração.
Imediatamente identificada como o traço mais marcante da superfície, o
coração recebeu o nome de Tombaugh Regio, em homenagem a Clyde Tombaugh,
o astrônomo que em 1930 descobriu Plutão.
Com a exploração de um cometa e de Plutão, a humanidade esclarecia dois
mistérios ainda não desvendados do Sistema Solar, agora mais explorado
do que nunca.
China e espaço privatizado
O sucesso da exploração do Sistema Solar por meio de sondas e módulos
não eliminou a fascinação exercida pelo envio de pessoas para fora da
Terra.
As temporadas de astronautas na Estação Espacial Internacional
continuaram, com o uso de naves russas Soyuz, produzindo fotos e vídeos
impressionantes do cotidiano humano na órbita terrestre.
Desde sua inauguração, em dezembro de 1998, até o fim de 2020, a
estação recebeu 101 missões tripuladas, 94 delas no século 21. Além de
americanos e russos, estiveram na instalação astronautas de países como
Reino Unido, Alemanha, Itália e Japão, numa verdadeira experiência
internacional.
A conquista espacial, porém, avançava em ritmo acelerado num projeto
paralelo. Provavelmente ainda na década de 2020, a Estação Espacial
Internacional deveria deixar de ser a única residência humana fora da
Terra, com a construção da estação chinesa.
O feito seria o resultado de duas décadas de conquistas espaciais da
China. Desde o envio de seu primeiro cidadão ao espaço, em 2003, Pequim
continuou colocando mais pessoas em órbita, inclusive a primeira mulher
chinesa, Liu Yang, em 2012.
No ano seguinte, o país enviou uma nave à Lua, onde deixou um módulo
lunar e para onde enviou novas missões não tripuladas, em 2019 e 2020.
Esta última, com Chang'e-5, em dezembro de 2020, trouxe de volta
amostras do solo lunar e plantou a bandeira da República Popular da
China na superfície do satélite natural da Terra - apenas o segundo país
a deixar sua flâmula, após os Estados Unidos, em 1969.
Enquanto o Estado chinês abraçava sua exploração do espaço, o abandono
dos ônibus espaciais pelos Estados Unidos criou novas oportunidades para
o setor privado.
Desde 2011, por nove anos os americanos dependera das naves russas para
visitar a estação espacial, e o futuro novo veículo americano para
viagens espaciais não viria da Nasa. Seria um empreendimento privado.
Em 30 de maio de 2020, num primeiro voo com tripulação reduzida, o
foguete Falcon 9 levou a cápsula Crew Dragon para a estação espacial,
com dois astronautas a bordo.
Foi o primeiro voo espacial tripulado a partir de solo americano, com
nave do próprio país, em nove anos. A missão foi concluída em agosto,
quando a nave voltou à Terra. Numa nova viagem, a dupla Falcon e Crew
Dragon, projetada e construída pela empresa americana Space X,
transportaria uma tripulação de quatro pessoas à estação em novembro de
2020.
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A primeira missão tripulada da Crew Dragon para a estação espacial ocorreu entre maio e agosto de 2020 — Foto: Handout
Fundada em 2002 pelo empreendedor Elon Musk, dono da fabricante de
veículos elétricos Tesla, a Space X desenvolveu vários avanços
tecnológicos. Entre eles, a capacidade do foguete Falcon 9 de retornar
ao solo, pousando verticalmente minutos após o lançamento e liberação da
nave, permitindo seu reaproveitamento.
A Space X também está no centro do projeto de Musk de enviar os
primeiros humanos a Marte, missão que, em 2020, ele considerava ser
possível realizar talvez já em 2026. "Se tivermos sorte, talvez daqui a
quatro anos", disse Musk - ou seja, 2024.
Menos ousado, mas não menos fascinante, era o projeto de outra empresa
privada que encontrou no setor espacial, a Virgin, do empresário
britânico Richard Branson.
A Virgin Galactic, empresa do grupo dedicada aos projetos fora da
Terra, desenvolveu uma nave dedicada ao turismo espacial, a VSS Unity.
Ainda em fase de testes no final de 2020, a Unity deverá levar turistas
para a mesosfera - a camada da atmosfera terrestre acima da
estratosfera. De lá, os passageiros terão uma vista do planeta e do
espaço, sem gravidade - muitos já compraram a passagem.
Enquanto isso, outras partes do mundo lançavam-se para fora do planeta,
entre eles a Índia, com seu programa de exploração da Lua, e os
Emirados Árabes Unidos, que em 2020 enviaram uma sonda rumo a Marte.
Da tragédia com o Columbia à movimentada ocupação de Marte, a visita a
um cometa e a entrada no espaço interestelar, o início do século 21 foi
do drama a conquistas históricas.
Lançou a humanidade mais rapidamente para o futuro, enquanto aumentou
nosso conhecimento sobre as origens do Sistema Solar e do próprio
universo. Comprovou, caso ainda houvesse dúvidas, que a aventura humana
além da Terra estava só começando.
Este artigo é parte da série "21 Histórias que Marcaram o Século 21", da BBC News Brasil.