Só a Oceania tem menos mortes, em números absolutos, que a África.
Enquanto nas Américas já morreram mais de 1,5 milhões de pessoas desde o
início da pandemia, na África, o número total de mortes é de pouco mais
de 224 mil.
Mais de 600 mil brasileiros morreram de Covid desde o início da pandemia,
ou seja, o Brasil teve quase três vezes mais mortes que todo o
continente africano. E a África tem um bilhão de pessoas a mais que o
Brasil.
Mas o que existe por trás deste "fenômeno"?
A BBC News Brasil lista aqui cinco teorias que podem explicar melhor o que tem acontecido na África:
1. Média de idade
Mulher é vacinada contra a Covid-19 em Joanesburgo, África do Sul, no dia 6 de dezembro. — Foto: Shiraaz Mohamed/AP Segundo dados da ONU, a população africana é a mais jovem do mundo, com uma idade média de 19 anos.
Globalmente, a maioria das mortes por Covid-19 ocorre em pessoas com 65
anos de idade ou mais. Ou seja, o fato de a África ter uma população
bastante jovem pode ter tido um papel relevante no seu número de mortes
por coronavírus.
Vamos comparar dois países com tamanho populacional semelhante para essa diferença ficar mais clara: Canadá e Uganda. No Canadá, a idade média é de 41 anos e a expectativa de vida é de 82 anos. Cerca de 18% da população tem 65 anos ou mais.
Já em Uganda
a expectativa de vida é bem mais baixa, de 63 anos. A idade média lá é
de 16 anos e apenas 2% da população têm 65 anos ou mais.
Na pandemia de Covid-19, os dois países têm tido resultados bastante
diferentes. Até o momento, o Canadá registrou quase 1,8 milhões de casos
de covid e 29 mil mortes, enquanto que Uganda registrou 128 mil casos e 3 mil mortes, até o dia 9 de dezembro.
2. Respostas eficazes de saúde pública de governos
23 de abril: profissionais de saúde se desinfectam depois de testarem
pacientes para Covid-19 em um hospital em Dacar, no Senegal. — Foto:
John Wessels/AFP O primeiro caso de covid na África foi confirmado no Egito,
em 14 de fevereiro de 2020. Àquela altura, havia muito receio de que o
novo vírus pudesse levar os sistemas de saúde do continente ao colapso.
Entretanto, os governos africanos, que já assistiam o caos que se
instalava em países da Europa com a propagação do vírus, adotaram
respostas rápidas de saúde pública tais como medidas de distanciamento social e obrigação de usar máscaras.
De acordo com um índice da Universidade de Oxford, na Inglaterra, sobre as respostas dos governos à pandemia, países africanos como Marrocos, Tunísia e Ruanda estiveram entre os primeiros do mundo a estabelecer medidas mais duras como lockdowns e controle rígido de viagens.
Mas os governos não agiram sozinhos. A população, em sua grande maioria, colaborou bastante.
Uma pesquisa feita em 18 países africanos em agosto de 2020 apontou um grande apoio das pessoas às medidas de segurança. Segundo esse estudo, 85% dos entrevistados disseram que estavam usando máscara.
3. Subnotificação de mortes por Covid
Pessoas fazem fila para receber vacina contra a Covid-19 em Narok, no
Quênia, no dia 1º de dezembro. — Foto: Baz Ratner/Reuters
Alguns especialistas sugerem que a subnotificação do número de mortes
por Covid pode pintar um quadro mais positivo do que a realidade. Ou
seja, mais pessoas podem ter morrido de Covid no continente sem o devido
registro por causa da baixa capacidade de testagem em alguns países.
"A coleta insuficiente de dados pode significar que não sabemos
realmente a incidência e prevalência de Covid-19. Embora variem na
África Subsaariana, os níveis de teste têm sido baixos em comparação com
outras áreas do mundo", dizem os especialistas Alex Ezeh, da Drexel
University, Michael Silverman e Saverio Stranges, ambos da Western
University, num artigo acadêmico publicado no dia 17 de agosto.
Mas Jeremias Agostinho, especialista em saúde pública de Angola, contesta essa teoria.
O médico disse à BBC News Brasil que "se houvesse um número elevado de
mortes por Covid não identificados, nós teríamos um aumento na
mortalidade por outras doenças ou por doenças desconhecidas. Mas neste
momento este fenômeno não ocorre".
"Independentemente
de nós fazermos poucos testes, não temos uma alteração significativa na
taxa total de mortalidade a nível do continente", acrescentou o
especialista.
4. Falta de casas de repouso As casas de repouso foram tidas como um grande foco de contágio da Covid-19. No Reino Unido e outros países da Europa, a doença se espalhou rapidamente nessas instituições, matando milhares de idosos.
Em boa parte dos países na África, o número de idosos que vivem em
clínicas ou casas de repouso é pequeno, o que contrasta com a realidade
em muitos países chamados desenvolvidos.
Anne Soy, correspondente sênior da BBC África, explicou à BBC News
Brasil que, por razões culturais, "quando as pessoas se aposentam em
muitas cidades africanas elas voltam para as zonas rurais."
"É quase um tabu mandar embora os seus velhos, porque as pessoas vão
pensar assim, 'eles cuidaram de você quando você era mais novo, e você
agora está jogando eles fora", ela complementa.
Na visão de Soy, este pode ter sido um elemento que contribuiu para o baixo número de mortes do continente.
"A
configuração nas zonas rurais é tal que as casas ficam distantes umas
das outras. Então, eles já estão socialmente distanciados. Você não pode
comparar isso com pessoas que moram em um apartamento que provavelmente
tem centenas de famílias."
Durante a primeira onda da pandemia, por exemplo, cerca de 81% das mortes no Canadá ocorreram em casas de repouso para idosos.
5. O clima favorável
Um estudo da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, encontrou
uma correlação entre temperatura, umidade e latitude e a disseminação da
Covid-19.
Em entrevista à BBC África em outubro de 2020, Mohammad Sajadi, o líder
da pesquisa, disse: "Nós observamos a propagação precoce [do vírus] em
50 cidades ao redor do mundo. O vírus teve mais facilidade de se
espalhar em temperaturas e umidade mais baixas".
Sajadi acrescentou que: "Não é que o coronavírus não se espalhe em
outras condições — ele apenas se espalha melhor quando a temperatura e a
umidade caem".
No entanto, alguns casos de alta mortalidade em países quentes, como o
Brasil, podem desafiar essa teoria. Ou será que teria havido ainda mais
mortes no Brasil se o clima fosse mais frio e menos úmido?
Não há resposta para essa pergunta — o fato é que é preciso mais estudos para entender melhor a dinâmica do contágio.