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domingo, 10 de janeiro de 2021

Coração, cérebro, pulmão: como a Covid-19 afeta nossos órgãos vitais

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Em um ano, o coronavírus mostrou causar muito mais do que uma doença respiratória: ele afeta diferentes partes do corpo por uma mistura de ataque direto a células, alterações na circulação de sangue e uma reação inflamatória exagerada. 
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TOPO
Por Mariana Alvim, BBC  
09/01/2021 08h18 Atualizado há um dia
Postado em 10 de janeiro de 2021 às 09h20m


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Principais alvos da Covid-19 são o pulmão e as vias respiratórias, mas vírus tem surpreendido por seu variado ataque, do cérebro aos rins — Foto: Getty Images via BBC
Principais alvos da Covid-19 são o pulmão e as vias respiratórias, mas vírus tem surpreendido por seu variado ataque, do cérebro aos rins — Foto: Getty Images via BBC

Embora ainda haja muitas perguntas em aberto sobre o coronavírus que parou o mundo há quase um ano, cientistas conseguiram neste período correr contra o tempo e trazer muitas respostas sobre a nova doença — algumas delas surpreendentes.

Por exemplo, a de que a Covid-19, descrita desde o início como uma doença respiratória, não ataca apenas os pulmões.

Conforme o coronavírus foi se espalhando pelo mundo e adoecendo mais pessoas — até aqui, infectando pelo menos 88 milhões no planeta —, médicos e pesquisadores começaram a constatar que órgãos tão diferentes como coração, cérebro e rins também podiam ser afetados, às vezes fatalmente, pelo coronavírus.

O patógeno também já causou problemas em dedo dos pés, foi detectado no testículo e ainda nas lágrimas de pacientes — mas é importante lembrar que ser encontrado em uma parte do corpo ou no ambiente não necessariamente significa adoecimento ou transmissibilidade.

Em relação aos chamados órgãos vitais, porém, a doença tem gerado incógnitas, pesquisas científicas e, em alguns casos, grande preocupação. Por isso, a BBC News Brasil procurou artigos científicos e pesquisadores brasileiros para responder o que se sabe até aqui sobre as consequências da Covid-19 em cinco órgãos fundamentais para a nossa sobrevivência: pulmões, coração, rins, fígado e cérebro.

Vale lembrar que a definição de quais são os órgãos vitais é variada, mas de acordo com os entrevistados, estes cinco estão mais perto de um consenso de serem fundamentais para a continuidade da vida e insubstituíveis, considerando as intervenções médicas existentes.

1. Pulmões

Falta de ar é sinal de que pulmão foi afetado, explica pesquisadora — Foto: Getty Images via BBC
Falta de ar é sinal de que pulmão foi afetado, explica pesquisadora — Foto: Getty Images via BBC

Apesar de afetar outras partes do corpo, ainda são "as vias respiratórias e os pulmões" os principais alvos da Covid-19, lembra a pesquisadora Marisa Dolhnikoff, professora associada da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e coordenadora dos Estudos em Autópsia da Covid-19 no Hospital das Clínicas da faculdade.

Tudo começa quando uma pessoa sadia entra em contato com gotículas do vírus, como através da tosse ou espirro de alguém infectado, ou ainda por meio do contato com uma superfície contaminada com essas partículas. A partir daí, o vírus começa a "hackear" as células das vias respiratórias (canais que conduzem o ar aos pulmões, como o nariz e a traqueia) e dos pulmões, transformando-as em fábricas de coronavírus que se espalham por mais células.

Tosse, coriza e espirros podem surgir por conta do ataque às vias respiratórias. Esses sintomas também podem ser reflexo do acometimento dos pulmões — mas, segundo Dolhnikoff, o sinal mais claro de que este órgão vital foi afetado é a falta de ar.

Um estudo publicado em junho na revista científica Lancet, com dados de 257 pacientes em Nova York (EUA), mostrou que a falta de ar foi o sintoma mais frequente na entrada no hospital, registrado em 74% dos infectados, seguido por febre (71%) e tosse (66%).

Ainda segundo a pesquisadora da USP, um outro sinal importante vem das tomografias — quando elas mostram mais de 50% da área dos pulmões acometida pelo coronavírus, este é um indicador de gravidade e de insuficiência respiratória, que demanda suporte como a ventilação mecânica. Ambos pulmões costumam ser afetados juntos.

Tanto nas vias respiratórias quanto nos pulmões, o coronavírus encontra um facilitador — células contendo receptores da proteína ECA-2, uma espécie de chave que permite o início da infecção.

"Nos casos mais graves, há também infecção dos alvéolos, estruturas responsáveis pela troca gasosa nos pulmões — a captação de O2 do ar para o sangue, e liberação de CO2", explicou por e-mail à BBC News Brasil a pesquisadora.

É por isso que os pulmões são vitais — eles nos dão, literalmente, o ar que respiramos. O órgão absorve o oxigênio externo e o distribui para todo o corpo através do sangue e, na via contrária, recolhe o gás carbônico dispensado após vários processos dentro do corpo.

"Quando infectadas, as células dos alvéolos sofrem alterações importantes que levam à sua morte, desencadeando um processo de inflamação e edema pulmonar (excesso de líquido) que impedem as trocas gasosas, culminando com a insuficiência respiratória", completa Dolhnikoff, cuja equipe no Hospital das Clínicas está realizando desde o início da pandemia um método inovador de autópsias minimamente invasivas, de forma a evitar o contágio no contato com corpos, para fins de pesquisa.

Entenda como a Covid-19 pode afetar outros órgãos, além dos pulmões
Entenda como a Covid-19 pode afetar outros órgãos, além dos pulmões

Além da infecção das células das vias respiratórias e dos alvéolos, em uma segunda frente, os vasos sanguíneos também são atacados. Isso leva ao aumento da coagulação e à formação de trombos (conjunto de sangue coagulado), que dificultam a passagem de sangue nos alvéolos. Com isso, as trocas gasosas são mais uma vez comprometidas.

Ainda no início da pandemia, em abril, a equipe que está trabalhando com autópsias na USP publicou no periódico científico Journal of Thrombosis and Haemostasis os resultados destas análises em dez pacientes, demonstrando alvéolos amplamente danificados e pequenos trombos no pulmão — cuja formação devido à Covid-19 era pouco conhecida naquele momento.

Quando o quadro pulmonar é muito grave, incluindo um conjunto de indicadores como a insuficiência respiratória e a inflamação sistêmica, ele pode configurar a síndrome do desconforto respiratório aguda (ARDS, na sigla em inglês).

2. Coração

Se os pulmões realizam as trocas gasosas, é o coração que bombeia o sangue com oxigênio para o corpo e que volta para os pulmões com sangue repleto de gás carbônico.

E, nos quadros mais graves, este órgão muscular e vital é significativamente afetado — podendo levar a óbito.

Um estudo de referência, publicado em fevereiro de 2020 com dados de 138 pacientes hospitalizados em Wuhan, mostrou que 16,7% deles desenvolveram arritmia e 7,2% lesão cardíaca aguda — ou seja, dois problemas de saúde atingindo o coração. Aqueles que precisaram ir para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) apresentaram estes quadros com mais frequência.

"Na Covid-19, o coração pode ser atingido em até 40% dos casos graves", aponta Marisa Dolhnikoff, acrescentando outras consequências da covid-19 no coração como a miocardite (inflamação no coração), tromboses arteriais e infarto do miocárdio.

"Pessoas com comorbidades — diabetes, hipertensão, obesidade e cardiopatias prévias — têm maior risco de manifestação cardíaca na Covid-19."

Estudos de várias partes do mundo mostram problemas no coração como uma das comorbidades mais comuns entre pacientes graves infectados — um boletim do Ministério da Saúde de dezembro revelou que, no Brasil, as cardiopatias (doenças no coração) foram o fator de risco mais frequente entre pessoas que morreram por covid-19 no país, seguidas por diabetes.

Dolhnikoff explica que as células cardíacas também têm receptores da proteína ECA-2, ativadas no ataque direto do vírus ao órgão.

Mas o órgão pode ser afetado também pela inflamação sistêmica, reação exagerada do corpo que leva a diversas alterações prejudiciais como a baixa de oxigênio e à chamada tempestade de citocinas — substâncias agressivas que o sistema imunológico libera para atacar um invasor, mas que, em excesso, podem acabar atacando partes vitais para nossa sobrevivência, como o coração.

A partir da autópsia e de exames referentes ao caso de uma menina de 11 anos que perdeu a vida para a Covid-19, Dolhnikoff e sua equipe conseguiram demonstrar o ataque do vírus a diversas células do coração, nas quais foram encontradas partículas do vírus. A resposta inflamatória agravou o problema, levando à falência cardíaca e morte.

O pulmão da criança também foi afetado, mas os cientistas identificaram o coração como o órgão mais comprometido pelo vírus

Os resultados foram publicados no periódico internacional Lancet Child & Adolescent Health.

3. Rins

Assim como acontece com o coração, quando os rins são afetados pela Covid-19, o nível de alerta é aumentado.

"A lesão renal é incremental, compõe o quadro de um doente mais complexo. São doentes muito graves. Quando a doença é avassaladora, ela é avassaladora", resume o nefrologista José Suassuna, chefe do Setor de Nefrologia do Hospital Pedro Ernesto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Hupe/Uerj).

Os rins são vitais por regularem a concentração de água no sangue e por eliminarem detritos tóxicos do corpo.

No artigo publicado no periódico Lancet envolvendo 257 pacientes em Nova York, 31% desenvolveram lesões agudas neste órgão e precisaram das chamadas terapias de substituição renal, que incluem intervenções como a hemodiálise — este procedimento, em linhas gerais, substitui o órgão no trabalho de filtrar o sangue.

Neste grupo nos Estados Unidos, 14% já tinham alguma doença crônica afetando os rins antes da Covid-19.

"Grupos de risco como obesos, diabéticos, pessoas com doenças cardiovasculares e idosos muitas vezes já têm algum grau de comprometimento renal — então, quando infectados pelo coronavírus, não partem do 0. Eles já estão na metade do caminho e caminham mais rapidamente para a insuficiência renal aguda e para a necessidade de suporte", explica Suassuna, destacando porém que há casos em que o paciente não tem fatores de risco mas tem os rins comprometidos.

De acordo com o nefrologista, os rins também têm receptores ECA-2, mas as evidências até agora indicam que possivelmente não é este ataque direto do vírus ao órgão o principal motivo de acometimento dos rins.

Mais uma vez, a inflamação exacerbada do corpo ao coronavírus parece ter um papel importante.

Uma evidência disso é a conexão entre os pulmões e o rins, a chamada cross talk entre os órgãos.

"É uma ligação cruzada, a situação em que o acometimento de um órgão determina o de outro. Na covid-19, isso tem se mostrando entre rins e pulmões, assim como pulmões e coração. O envolvimento pulmonar mais grave se associa a um risco muito maior para os rins. Há uma associação grande entre entubar e a insuficiência renal", aponta Suassuna, explicando que quando há esta insuficiência nos rins, o paciente deixa de urinar, precisando de suporte.

Além disso, outra explicação para o acometimento simultâneo de vários órgãos na fase mais avançada da infecção é a baixa oxigenação.

"A Covid-19 nos deixa com uma oxigenação como se estivéssemos subindo o Himalaia, mesmo estando a nível do mar. Uma parte funcional do rim, que ajuda a produzir a urina, já vive como se estivesse no Everest — no que a gente chama de hipoxia, uma oxigenação muito baixa", diz o médico, também professor da UERJ.

"O rim é um órgão muito sensível às quedas de oxigenação prolongadas porque já vive na beira do precipício. E à piora da oxigenação se soma a tempestade de citocinas, um mecanismo importante da disseminação do dano da covid do pulmão para o resto do corpo."

Apesar de seu adoecimento ser um indicador de gravidade, os rins também podem ser afetados em casos mais leves, explica Suassuna. Entretanto, talvez isso nunca se manifeste em sintomas, mas apenas exames específicos de urina e de alteração da função renal.

"Os rins, em qualquer doença, sofrem em silêncio — e Covid-19 não é uma exceção", explica Suassuna, acrescentando que esse órgão é afetado bilateralmente, ou seja, adoece tanto do lado esquerdo quando direito.

"Não tem grande manifestação de sintomas, a maior parte dos sinais só aparece no laboratório. Temos pacientes iniciando diálise que não sentem nada, apenas quando já têm menos 10% da função renal. De repente, param de urinar."

4. Fígado

Exames também já detectaram, em alguns pacientes, alterações no fígado — que tem entre suas funções eliminar toxinas do corpo, regular o açúcar no sangue e ajudar na digestão de gorduras.

Entretanto, diferente de outros órgãos, tais alterações não necessariamente significam o adoecimento do órgão.

"As enzimas hepáticas (substâncias produzidas pelo órgão) estão elevadas em cerca de 15 a 60% dos casos de COVID-19, o que sugere acometimento do fígado. Porém, estas alterações das enzimas em geral não provocam sintomas", explica o hepatologista Edmundo Lopes, médico do Hospital das Clínicas e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

"Apesar destes distintos mecanismos de agressão ao fígado durante a Covid-19, ele não é comumente nem intensamente comprometido, como ocorre com outros órgãos, como os pulmões, o coração e os rins", diz. "As explicações para esta 'menor' agressão ao fígado ainda não estão bem elucidadas."

Os distintos mecanismos de agressão mencionados por Lopes passam, mais uma vez, pelos efeitos da inflamatória sistêmica no corpo e também, no caso desse órgão responsável por lidar com substâncias potencialmente tóxicas, por eventuais danos provocados pelos medicamentos usados contra a Covid-19.

A ação direta do vírus sobre o órgão também é uma possibilidade, até porque as células hepáticas chamadas de colangiócitos têm receptores ECA-2. Entretanto, segundo o professor da UFPE, essa via direta "nunca foi muito bem demonstrada" na ciência.

"As evidências sugerem que o processo inflamatório (tempestade de citocinas) parece ter um papel relevante na agressão ao fígado, já que os pacientes mais graves e que apresentam maiores indícios de atividade inflamatória nos exames laboratoriais são os que apresentam mais frequentemente e mais intensamente alterações das enzimas hepática", escreveu o hepatologista por e-mail à BBC News Brasil.

5. Cérebro

Covid-19 leve tem deixado efeitos neurológicos como maior ansiedade e cansaço e, nos casos graves, derrame e convulsões — Foto: Getty Images via BBC
Covid-19 leve tem deixado efeitos neurológicos como maior ansiedade e cansaço e, nos casos graves, derrame e convulsões — Foto: Getty Images via BBC

Se tem um órgão que os entrevistados dizem estar rodeado de incógnitas sobre seu acometimento pela Covid-19, é o cérebro.

Fato é que diversos estudos e relatos de casos já mostraram que ele pode ser afetado, dos quadros leves aos graves.

A pesquisadora Clarissa Yasuda, médica e professora do departamento de neurologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que o diga: ela mesma teve Covid-19 em agosto e conta ainda sentir consequências relacionadas ao cérebro, como sono, fadiga e alterações na memória.

Ela e colegas publicaram em outubro um estudo em estágio pré-print (sem a chamada revisão dos pares, etapa padrão em que outros especialistas analisam um estudo e decidem se ele será publicado ou não em uma revista científica) com dados sobre 81 pessoas que tiveram Covid-19 leve e se recuperaram.

Esses voluntários foram submetidos a exames de ressonância magnética, que detectaram alterações no córtex, a parte mais externa do cérebro e fundamental para processos envolvendo a memória, linguagem, entre outros.

Questionários e testes cognitivos também mostraram que, em média 60 dias após o diagnóstico da covid-19, os pacientes ainda apresentavam dor de cabeça (40%), fadiga (40%), alteração de memória (30%), ansiedade (28%), depressão (20%), perda de olfato (28%) e paladar (16%), entre outros.

Aliás, Yasuda lembra que a perda destes sentidos é considerada pelos especialistas um sintoma neurológico — precisamos do cérebro para sentir gostos e cheiros.

"Acho que não estava na conta de ninguém imaginar que pessoas que não foram internadas, que seriam quadros 'leves', pudessem ficar com uma gama de alterações neurológicas incapacitantes, como observamos não só aqui mas no mundo inteiro", diz a neurologista, fazendo a ressalva de que o grupo de voluntários estudados foi formado por pessoas que já estavam relatando sintomas neurológicos, então há uma inclinação de que estes sejam mais frequentemente registrados do que se o estudo envolvesse uma população mais ampla.

"Além desses casos leves (que estão mostrando consequências prolongadas), há o grupo de alterações neurológicas por Covid-19 que surgem na fase aguda e que podem ser bem graves — como derrame, encefalite, convulsão e redução do nível de consciência. Em alguns casos, os derrames aumentam a chance de AVC (acidente vascular cerebral). Não sabemos se estes efeitos serão transitórios ou se deixarão sequelas."

Parte da equipe que está trabalhando com autópsias no Hospital das Clínicas da FMUSP, o médico Amaro Nunes Duarte Neto relata que uma alteração muito comum observada nos cérebros de pessoas que morreram após a infecção pelo coronavírus é a lesão dos neurônios.

"São lesões cerebrais decorrentes da hipóxia (oxigenação diminuída) pelo acometimento pulmonar grave na covid-19, não atribuídas diretamente ao vírus", explicou por e-mail o pesquisador.

Isto porque, como em outros órgãos, os efeitos da Covid-19 não necessariamente ocorrem devido ao ataque direto do coronavírus, mas sim pelas consequências da resposta inflamatória do corpo e de alterações na circulação do sangue, entre outros.

Por exemplo, Duarte Neto relata também a observação, nas autópsias, de microsangramentos nos vasos que irrigam o órgão, além da hipertrofia dos astrócitos — células em torno dos vasos cerebrais e que dão suporte fundamental para os neurônios.

Na publicação em pré-print da qual Yasuda foi uma das autoras, a equipe demonstrou que os astrócitos foram o principal alvo do coronavírus no cérebro. Isto também a partir de 26 autópsias minimamente invasivas, realizadas por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP.

Mesmo que nem todo efeito neurológico do coronavírus seja atribuído ao seu ataque direto, os pesquisadores entrevistados dizem que há sinais de que o patógeno chega até o cérebro através do nariz, pelo mesmo caminho que um aroma "faz" para chegar até lá.

Ainda assim, "o conhecimento sobre o mecanismo de lesão do vírus Sars-CoV-2 no sistema nervoso central ainda é pouco esclarecido", diz o pesquisador da USP.

A professora Clarissa Yasuda concorda.

"É muita coisa que a gente não sabe, muita coisa para ser estudada: o quanto desses quadros neurológicos tem um componente inflamatório, o quanto é autoimune, o quanto é um ataque direto do vírus. Ninguém tem uma resposta, mas acho que é uma combinação disso tudo."

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sábado, 9 de janeiro de 2021

2020 empata com 2016 como ano mais quente já registrado, diz serviço climático europeu

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Países e empresas precisam reduzir as emissões de gases de efeito estufa com rapidez, dizem cientistas. 
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TOPO
Por Kate Abnett e Matthew Green, Reuters  
08/01/2021 13h26 Atualizado há um dia
Postado em 09 de janeiro de 2021 às 09h45m


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Brasil fica fora dos discursos da cúpula do Acordo de Paris
Brasil fica fora dos discursos da cúpula do Acordo de Paris

O ano passado empatou com 2016 como o mais quente já registrado, fechando a década mais quente globalmente com a intensificação dos impactos da mudança climática, disse o Copernicus Climate Change Service, da União Europeia, nesta sexta-feira (8).

Após um outono e inverno excepcionalmente quentes na Europa, o continente teve seu ano mais quente já registrado em 2020, enquanto o Ártico sofreu um calor extremo e as concentrações atmosféricas de dióxido de carbono, que aquecem o planeta, continuaram a aumentar.

Cientistas disseram que os dados mais recentes ressaltam a necessidade de países e empresas reduzirem as emissões de gases de efeito estufa com rapidez suficiente para alcançar as metas do Acordo de Paris de 2015 para evitar mudanças climáticas catastróficas.

"Os eventos climáticos extraordinários de 2020 e os dados do Copernicus Climate Change Service nos mostram que não temos tempo a perder", disse Matthias Petschke, diretor para Espaço na Comissão Europeia, braço executivo da UE. Os programas espaciais do bloco incluem os satélites de observação terrestre Copernicus.

Em 2020, as temperaturas globais ficaram em média 1,25ºC mais altas do que nos tempos pré-industriais, segundo Copernicus. 
Acordo de Paris

O Acordo de Paris foi assinado em 2015, durante a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climática. O texto fala em manter a temperatura do planeta com uma elevação "muito abaixo de 2°C" mas "perseguindo esforços para limitar o aumento de temperatura a 1,5°C".

São os principais pontos do Acordo de Paris:

  • Países devem trabalhar para que aquecimento fique muito abaixo de 2ºC, buscando limitá-lo a 1,5ºC;
  • Países ricos devem garantir financiamento de US$ 100 bilhões por ano;
  • Não há menção à porcentagem de corte de emissão de gases-estufa necessária;
  • Texto não determina quando emissões precisam parar de subir;
  • Acordo deve ser revisto a cada 5 anos.

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quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Elon Musk supera Jeff Bezos e se torna a pessoa mais rica do mundo

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Fundador da Tesla alcançou patrimônio de US$ 188,5 bilhões nesta quinta-feira (7).  
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Por G1  
07/01/2021 12h57 Atualizado há 3 horas
Postado em 07 de janeiro de 2021 às 16h00m


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O empresário Elon Musck em foto de arquivo de janeiro de 2020  — Foto: Joe Skipper/Reuters/Arquivo
O empresário Elon Musck em foto de arquivo de janeiro de 2020 — Foto: Joe Skipper/Reuters/Arquivo 

O empresário Elon Musk, fundador da Tesla, tornou-se nesta quinta-feira (7) a pessoa mais rica do mundo ao acumular uma fortuna superior a de Jeff Bezos, da Amazon, segundo o ranking da Bloomberg.

Com a alta de 4,8% nas ações da Tesla na manhã desta quinta, Musk, que tem uma participação de 18% na empresa, viu seu patrimônio alcançar US$ 188,5 bilhões (o equivalente a R$ 1,01 trilhão na cotação desta quinta), o que representa US$ 1,5 bilhão a mais do que possui Bezos.

Na quarta-feira, a Tesla superou pela primeira vez os US$ 700 bilhões de capitalização de mercado no fechamento da bolsa de Nova York, com uma alta de quase 3% de suas ações para 755,98 dólares.

Musk também é fundador da SpaceX.

Anúncio de caminhonete elétrica da Tesla com ‘vidro inquebrável’ termina em vexame
Anúncio de caminhonete elétrica da Tesla com ‘vidro inquebrável’ termina em vexame

A liderança do ranking das pessoas mais ricas do mundo era ocupada pelo empresário da Amazon desde outubro de 2017. No ano passado, a fortuna de Musk aumentou US$ 150 bilhões com avanço acelerado das ações da Tesla. O papel da companhia avançou 743% no período.

Em novembro do ano passado, Musk ultrapassou Bill Gates e se tornou o segundo mais rico do mundo.

A Tesla produz carros elétrico, e a confirmação do controle do Senado dos Estados Unidos pelos Democratas pode ajudar a companhia a ganhar mercado, já que o partido do presidente eleito Joe Biden se mostra favorável ao uso de veículos elétricos, destaca a Bloomberg.

As vendas do grupo, no entanto, permanecem muito distantes daquelas dos fabricantes de veículos tradicionais: a Tesla vendeu 499.550 veículos em 2020, longe dos 11 milhões da Volkswagen em 2019.

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MadeiraMadeira torna-se o 16º 'unicórnio' brasileiro; veja a lista

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Site de venda de artigos para o lar recebeu um aporte de US$ 190 milhões liderado por SoftBank e Dynamo, chegando ao marco de US$ 1 bilhão em valor de mercado. Saiba quais outras empresas brasileiras chegaram lá.  
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Por G1  
07/01/2021 12h46 Atualizado há 2 horas
Postado em 07 de janeiro de 2021 às 14h50m


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Da esquerda para a direita, Marcelo Scandian, Daniel Scandian e Robson Privado, fundadores da MadeiraMadeira. — Foto: Divulgação
Da esquerda para a direita, Marcelo Scandian, Daniel Scandian e Robson Privado, fundadores da MadeiraMadeira. — Foto: Divulgação

O site de venda de artigos para o lar MadeiraMadeira tornou-se nesta quinta-feira (7) o 16º unicórnio brasileiro, nome dado a empresas avaliadas em ao menos US$ 1 bilhão. Para chegar no valor, a startup anunciou hoje um aporte de US$ 190 milhões liderado por SoftBank e Dynamo.

A MadeiraMadeira foi criada há 10 anos e registrou crescimento de 120% no ano passado, favorecida tanto pela maior procura por itens para a casa como pelo avanço do comércio eletrônico. Os dois segmentos saíram beneficiados em meio à pandemia do novo coronavírus.

A startup é o primeiro unicórnio de 2021. O Brasil tem outras 15 empresas que atingiram o mesmo marco. A primeira delas foi a 99, em 2017. O ano que mais registrou o "nascimento" de unicórnios foi 2019. Foram cinco: Gympass, Wildlife, Ebanx, Loggi e QuintoAndar.

Segundo a Associação Brasileira de Startups, o Brasil chegou a 13.380 startups em 2020. Em 2017, quando a 99 atingiu o valor de US$1 bilhão, havia 5.147 empresas do tipo cadastradas na Abstartups.

Abaixo, a lista de todos os unicórnios do país:

  1. 99 (2017)
  2. Nubank (2018)
  3. Stone Pagamentos (2018)
  4. PagSeguro (2018)
  5. Arco Educação (2018)
  6. Movile/iFood (2018)
  7. Gympass (2019)
  8. Wildlife (2019)
  9. Ebanx (2019)
  10. Loggi (2019)
  11. QuintoAndar (2019)
  12. Creditas (2020)
  13. Loft (2020)
  14. Vtex (2020)
  15. C6 Bank (2020)
  16. Madeira Madeira (2021)
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Ações europeias saltam diante de expectativas com vacinas e vitória democrata no Senado dos EUA

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O índice pan-europeu STOXX 600 subiu 1,4%, para o seu nível mais alto desde o fim de fevereiro de 2020, enquanto o FTSE 100 do Reino Unido teve alta de 3,5% e o DAX da Alemanha ganhou 1,8%. 
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TOPO
Por Reuters  
06/01/2021 15h14 Atualizado há 4 horas
Postado em 06 de janeiro de 2021 às 19h20m


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As ações europeias avançaram nesta quarta-feira — Foto: Reuters
As ações europeias avançaram nesta quarta-feira — Foto: Reuters

As ações europeias avançaram nesta quarta-feira (6) depois que uma segunda vacina contra a Covid-19 obteve aprovação do órgão regulatório local, enquanto as apostas aumentaram por um maior estímulo fiscal dos Estados Unidos à medida que os democratas se aproximavam da vitória no Senado.

O índice pan-europeu STOXX 600 subiu 1,4%, para o seu nível mais alto desde o fim de fevereiro de 2020, enquanto o FTSE 100 do Reino Unido teve alta de 3,5% e o DAX da Alemanha ganhou 1,8%.

A vacina da Moderna Inc, que obteve aprovação da Autoridade Europeia de Medicamentos e mais tarde da Comissão Europeia, é vista como um grande impulso para as esperanças europeias de conter o coronavírus.

"As ações da zona do euro já estavam em modo de recuperação nesta manhã e, em seguida, a Agência Europeia de Medicamentos aprovou a vacina contra o coronavírus da Moderna para uso na UE, o que melhorou o sentimento otimista", disse David Madden, analista de mercado da CMC Markets em Londres.

Os bancos, economicamente sensíveis, tiveram alta de 5,5%, registrando seu melhor pregão em dois meses, com os papéis do britânico HSBC, do espanhol Santander e o francês BNP Paribas fornecendo os maiores ganhos.

As principais petrolíferas, como BP, Royal Dutch Shell e Total, tiveram alta de quase 6,5%, já que os preços do petróleo atingiram seus maiores níveis desde fevereiro de 2020 após a promessa da Arábia Saudita de cortar a produção em uma reunião com produtores aliados.

Em LONDRES, o índice Financial Times teve alta de 3,47%, a 6.841 pontos.
Em FRANKFURT, o índice DAX ganhou 1,76%, a 13.891 pontos.
Em PARIS, o índice CAC-40 valorizou-se 1,19%, a 5.630 pontos.
Em MILÃO, o índice Ftse/Mib teve alta de 2,4%, a 22.734 pontos.
Em MADRI, o índice Ibex-35 registrou alta de 3,2%, a 8.350 pontos.
Em LISBOA, o índice PSI20 ganhou 3,19%, a 5.168 pontos.

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Mais de 14 milhões de famílias vivem na extrema pobreza, maior número desde 2014

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País tinha mais de 14 milhões de famílias em situação de extrema pobreza inscritas no Cadastro Único em outubro de 2020, com renda per capita de até R$ 89.  
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Por Marta Cavallini, G1  
06/01/2021 12h55 Atualizado há 4 horas
Postado em 06 de janeiro de 2021 às 16h55m


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Aumentou o número de famílias em extrema pobreza no Brasil — Foto: Sergio Amaral/Ministério da Cidadania
Aumentou o número de famílias em extrema pobreza no Brasil — Foto: Sergio Amaral/Ministério da Cidadania

O país tinha mais de 14 milhões de famílias em situação de extrema pobreza inscritas no Cadastro Único em outubro de 2020, segundo último balanço divulgado pelo Ministério da Cidadania. Esse total de famílias equivale a 39,99 milhões de pessoas com renda per capita de até R$ 89 que vivem na miséria no Brasil.

O número de famílias em extrema pobreza no Brasil em outubro de 2020 - 14.058.673 - é o maior desde dezembro de 2014, quando eram 14.095.333. Além disso, houve um salto de 1.308.005 de famílias em condição de miséria desde o início do governo Jair Bolsonaro, entre janeiro de 2019 e outubro de 2020 – veja no gráfico abaixo:

Famílias em situação de extrema pobreza cadastradas no CadÚnico — Foto: Economia G1
Famílias em situação de extrema pobreza cadastradas no CadÚnico — Foto: Economia G1

Já o número de famílias em situação de pobreza, com renda per capita de R$ 89,01 a R$ 178, ficou em 2.877.099 em outubro - maior número registrado desde agosto de 2019 (3.005.580) - veja no gráfico abaixo:

Famílias em situação de pobreza cadastradas no CadÚnico — Foto: Economia G1
Famílias em situação de pobreza cadastradas no CadÚnico — Foto: Economia G1

Naquele mês, 29.734.614 de famílias estavam inscritas no Cadastro Único. Desse total, 47% estavam em situação de extrema pobreza. Veja abaixo:

  • Renda per capita de R$ 0,00 até R$ 89,00: 14.058.673 (47%)
  • Renda per capita de R$ 89,01 até R$ 178,00: 2.877.099 (10%)
  • Renda per capita de R$ 178,01 até 1/2 salário mínimo (R$ 522,50): 6.265.934 (21%)
  • Renda per capita acima de 1/2 salário mínimo (R$ 522,50): 6.532.908 (22%)

Quando são analisados os números referentes às pessoas inscritas no Cadastro Único, do total de 77.463.767 em outubro, 52% estavam em situação de extrema pobreza. Veja abaixo:

  • Renda per capita de R$ 0,00 até R$ 89,00: 39.990.357 (52%)
  • Renda per capita de R$ 89,01 até R$ 178,00: 8.848.751 (11%)
  • Renda per capita de R$ 178,01 até 1/2 salário mínimo (R$ 522,50): 17.793.063 (23%)
  • Renda per capita acima de 1/2 salário mínimo (R$ 522,50): 10.831.596 (14%)

O Cadastro Único é um conjunto de informações sobre os brasileiros em situação de pobreza e extrema pobreza e abrange as famílias de baixa renda que ganham até meio salário mínimo por pessoa ou até 3 salários mínimos de renda mensal total.

Essas informações são utilizadas pelo governo federal, Estados e municípios para implementação de políticas públicas. Além disso, diversos programas e benefícios sociais do governo utilizam o Cadastro Único como base para seleção das famílias, em especial o Bolsa Família.

Fim do Auxílio Emergencial

De acordo com o Ministério da Cidadania, 95% das famílias do Bolsa Família migraram para o Auxílio Emergencial, pelo fato de o valor ser mais vantajoso para os beneficiários. De acordo com dados de novembro de 2020, 12,4 milhões de famílias, do total de 14,2 milhões cadastradas no Bolsa, estavam recebendo o Auxílio.

Os beneficiários do Bolsa Família receberam a última parcela do Auxílio Emergencial em 23 de dezembro. A partir de janeiro, esse público voltou a receber o Bolsa.

Essas famílias receberam no ano passado cinco parcelas de R$ 600 ou R$ 1,2 mil e quatro de R$ 300 ou R$ 600. O valor médio pago pelo Bolsa Família gira em torno de R$ 190. Ou seja, milhares de beneficiários receberam por nove meses em 2020 valores acima do que pagaria o Bolsa Família. Com isso, a tendência é que aumente ainda mais o número de famílias em situação de pobreza e extrema pobreza no país.

Segundo balanço da Caixa até o dia 28 de dezembro, o Auxílio Emergencial pagou R$ 291,8 bilhões a 67,9 milhões de beneficiários, incluindo os inscritos no CadÚnico e Bolsa Família e trabalhadores autônomos e desempregados.

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Juliano Moreira: o psiquiatra negro que revolucionou o tratamento de transtornos mentais no Brasil

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Cientista e professor baiano humanizou o tratamento de pacientes psiquiátricos no século 20 e lutou contra teses racistas que relacionavam miscigenação a doenças mentais no Brasil. 
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TOPO
Por BBC  
06/01/2021 12h14 Atualizado há 2 horas
Postado em 06 de janeiro de 2021 às 14h20m


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Homenagem feita pelo Google a Juliano Moreira no dia em que ele completaria 149 anos — Foto: Google via BBC
Homenagem feita pelo Google a Juliano Moreira no dia em que ele completaria 149 anos — Foto: Google via BBC

No início do século 20, ele "revolucionou o tratamento de pessoas com transtornos mentais no Brasil e lutou incansavelmente para combater o racismo científico e a falsa ligação de doença mental à cor da pele".

É assim que o Google apresenta o trabalho do psiquiatra brasileiro Juliano Moreira, ao homenagear o trabalho do cientista e professor baiano neste dia 6 de janeiro, quando o nascimento dele completa 149 anos.

Moreira nasceu em Salvador, em 1872, filho de uma mulher negra que trabalhava em uma casa de aristocratas na Bahia — algumas biografias apontam que ela mesma era escrava e outros relatos mencionam que ela era descendente de escravos. Só em 1888 o Brasil aprovaria a Lei Áurea, que determinava o fim da escravidão.

Os relatos sobre a vida de Moreira destacam a condição de pobreza na origem dele e o fato de que teve que vencer fortes obstáculos para entrar na Faculdade de Medicina da Bahia aos 13 anos. Com apenas 18 anos, ele estava formado e era um dos primeiros médicos negros do país, segundo a Academia Brasileira de Ciências.

Ali começava a carreira de Moreira, que viria a ser considerado o fundador da disciplina psiquiátrica no Brasil, como aponta artigo do Brazilian Journal of Psychiatry.

Moreira é um dos grandes nomes de estudiosos negros relevantes na história do Brasil e que muitas vezes são apagados de currículos escolares, em um exemplo de como a educação brasileira acentua desigualdade racial e dá menos atenção a heróis negros em diversas áreas.

Moreira entrou na faculdade de Medicina aos 13 anos e, aos 18 anos, já era médico — Foto: Domínio público via BBC
Moreira entrou na faculdade de Medicina aos 13 anos e, aos 18 anos, já era médico — Foto: Domínio público via BBC

Tratamento humanizado

Cinco anos depois de formado, Moreira se tornou professor de psiquiatria na Faculdade de Medicina da Bahia, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

Além da luta contra teses racistas que relacionavam a miscigenação a doenças mentais no Brasil, Moreira também é reconhecido por humanizar o tratamento de pacientes psiquiátricos.

Em 1903, assumiu a direção do Hospício Nacional de Alienados, no Rio de Janeiro. Lá, ele aboliu o uso de camisas de força, retirou grades de todas as janelas e separou pacientes adultos de crianças.

Moreira aboliu o uso de camisas de força, retirou grades de todas as janelas e separou adultos de crianças no Hospício Nacional de Alienados — Foto: Domínio público via BBC
Moreira aboliu o uso de camisas de força, retirou grades de todas as janelas e separou adultos de crianças no Hospício Nacional de Alienados — Foto: Domínio público via BBC

A Academia Brasileira de Ciências aponta que, graças aos esforços de Moreira, foi aprovada uma lei federal para garantir assistência médica e legal a doentes psiquiátricos. Ele também foi um dos fundadores da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, Neurologia e Medicina legal e da Academia Brasileira de Ciências, da qual foi presidente.

Quando era vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências, Moreira recebeu Albert Einstein em sua primeira visita ao Brasil.

Durante sua carreira, também participou de muitos congressos médicos e representou o Brasil no exterior, na Europa e no Japão.

Ele morreu em 1933, em Petrópolis, depois de ser internado para tratamento de tuberculose. Após o falecimento dele, um hospital psiquiátrico na Bahia foi batizado como Hospital Juliano Moreira.

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