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segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

O ano que escapou a todas as previsões: veja o que se esperava para a economia em 2020 - e o que de fato aconteceu

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A crise decorrente da pandemia do coronavírus fez a economia fugir de todas as previsões feitas para este ano. Veja, em dez gráficos, o que se esperava para alguns indicadores e como eles se comportaram.  
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Por Laura Naime, G1  
14/12/2020 05h01 Atualizado há 4 horas
Postado em 14 de dezembro de 2020 às 09h15m


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Todos os anos, economistas dentro e fora do governo fazem estimativas para o desempenho da economia brasileira. Algumas vezes acertam. Muitas outras erram. O ano de 2020, no entanto, fez troça de quase todas as previsões.

No final de 2019, a visão era de um otimismo moderado: com a reforma da Previdência aprovada, as contas públicas caminhavam para um cenário mais favorável; a inflação, apesar de acima da meta, permanecia sob controle, permitindo que a taxa básica de juros alcançasse o menor patamar da história.

O PIB, mais uma vez, terminava o ano de forma decepcionante - mas, ainda assim, com crescimento pelo terceiro ano consecutivo. O desemprego, ainda que lentamente, arrefecia, encerrando 2019 no menor patamar em quase quatro anos. Na bolsa, os investidores acabavam de encerrar mais um ano de recorde.

Mas aí veio a pandemia.

E com a chegada do vírus, as previsões todas fizeram água.

Os primeiros abalos foram sentidos ainda antes de o coronavírus fazer suas primeiras vítimas no país: com os isolamentos decretados na Ásia e na Europa, o comércio exterior desacelerou - e a balança comercial brasileira teve seu pior primeiro trimestre desde 2015.

Com a chegada maciça da doença ao Brasil, o caldo entornou de vez. O isolamento necessário para conter a propagação do vírus fechou escolas, comércios, empresas. A paralisação repentina da atividade econômica derrubou a arrecadação, os mercados; fez subir o desemprego e o dólar; levou a inflação ao menor patamar em 22 anos.

Nesse cenário, as perspectivas para o ano passaram a mostrar um cenário de crise profunda, com algumas estimativas projetando um tombo de mais de 9% para o PIB, o maior em 120 anos.

O decorrer dos meses, com a reabertura da economia e o impulso do Auxílio Emergencial, passou a indicar uma crise ainda muito grave - mas menos avassaladora. Sem um fim para a pandemia à vista, no entanto - e com o Auxílio no fim -, as previsões para 2021 mais uma vez podem encontrar dificuldades de serem concretizadas.

Veja abaixo, em 10 gráficos, o que se esperava para a economia brasileira este ano - e o que de fato aconteceu.

Comércio

As vendas do comércio chegaram ao final de 2019 com alta de 1,8%, no terceiro ano seguido de crescimento - mas ainda sem recuperar as perdas de 2015 e 2016.

A recuperação já mostrava desaceleração no final do ano mas, ainda assim, o setor esperava um 2020 mais positivo: a estimativa da Confederação Nacional do Comércio (CNC) era de uma alta de 3% no ano que, se realizada, apontaria o melhor resultado desde 2013.

O ano, no entanto, já começou fraco. Em março, com os primeiros casos da Covid, o setor começou a sentir o baque. E em abril, mês em que grande parte do comércio fechou as portas, veio o tombo - e a previsão de encerrar o ano com uma queda de 8,7%.

Mas a reabertura nos meses seguintes zerou as perdas do ano: no acumulado até setembro, último dado divulgado pelo IBGE, o varejo passou a apresentar estabilidade. E um horizonte mais azul, com uma previsão de fechar o ano com alta de 1,9%.

Retrospectiva economia - comércio  — Foto: Arte G1
Retrospectiva economia - comércio — Foto: Arte G1

Serviços

Depois de três anos de resultados ruins, o setor de serviços fechou 2019 com alta, ainda que modesta, de 1%. Com a recuperação, as estimativas para 2020 eram do maior crescimento desde 2014, de 1,9%, segundo a CNC.

Mas, dependente em sua quase totalidade de atendimento presencial, o setor de serviços foi seriamente afetado pela pandemia. Após dois meses de desempenho satisfatório, em março começou a queda: com o setor quase paralisado, a atividade começou a cair - movimento que se intensificou em abril e só começou a perder força em maio, com o relaxamento das medidas de restrição.

A retomada, no entanto, foi insuficiente para reverter as perdas da pandemia. Até setembro, o setor registrava queda de 6% em 12 meses (o maior foi de 5% em 2016) - e caminhava para o pior resultado anual da série histórica do IBGE, que tem início em 2011.

Retrospectiva economia - serviços — Foto: Arte G1
Retrospectiva economia - serviços — Foto: Arte G1

Desemprego

As projeções do FMI apontavam para mais um ano de queda suave no desemprego, que deveria chegar ao final de 2020 em 10,8%. Já o Ministério da Economia estimava acrescentar mais até 1 milhão de vagas formais ao estoque.

O estrago causado pela Covid no mercado de trabalho foi em parte contido por medidas tomadas pelo governo, que permitiram a redução de jornada e salário e a suspensão de contratos de trabalho. Mas, para os informais - mais de 40% dos ocupados -, as medidas não tiveram efeito.

O desemprego subiu com força. Mas a medida da crise foi sentida pelo desalento: o número de brasileiros que desistiram de procurar trabalho bateu recordes sucessivos e chegou a 8,9 milhões em setembro.

Retrospectiva economia - desemprego — Foto: Arte G1
Retrospectiva economia - desemprego — Foto: Arte G1


Retrospectiva economia - vagas — Foto: Arte G1
Retrospectiva economia - vagas — Foto: Arte G1

PIB

Ao final de mais um ano de crescimento modesto, o último boletim Focus (relatório produzido pelo Banco Central que compila estimativas de analistas de bancos) de 2019 mostrava que a economia brasileira deveria crescer 2,3% este ano. Ainda que não fosse uma alta espantosa, seria a maior desde os 3% de 2013.

O resultado do primeiro trimestre, que abrangeu apenas o início da pandemia, já mostrou que a atividade seria duramente afetada. No segundo, quando a atividade chegou ao fundo do poço, a queda bateu recorde: -9,6%.

As avaliações mais pessimistas chegaram a apontar uma queda de quase 10% no PIB ao final de 2020. Mas a reabertura das atividades, aliada ao Auxílio Emergencial - que repassou mais de R$ 260 bilhões a informais e desempregados -, frearam o tombo. No terceiro trimestre, frente a uma base mais fraca, o PIB cresceu 7,7% em relação ao trimestre anterior.

No início de dezembro, a previsão já era um pouco menos sombria: uma queda de 4,4% no PIB fechado de 2020.

Desempenho do PIB em 2020 — Foto: Arte G1
Desempenho do PIB em 2020 — Foto: Arte G1

Dólar

A alta do dólar já havia começado a assustar em 2019, batendo novo recorde histórico em novembro daquele ano. Mas as expectativas eram de que 2020 trouxesse um cenário mais estável para o câmbio, com os analistas dos bancos estimando que a moeda chegaria ao próximo dia 31 de dezembro a R$ 4,09.

Não demorou para as expectativas serem frustradas. Em março, o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que o dólar chegaria a R$ 5 se ele fizesse "muita besteira". Mas esse patamar não só foi alcançado como bastante superado, com cotação da moeda batendo recordes sucessivos.

Em maio, relatos sobre o vídeo da reunião ministerial do mês anterior apontaram para uma suposta interferência do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal - e a tensão que se seguiu nos mercados levou o dólar a R$ 5,90 - sua maior cotação da história.

Os meses seguintes trouxeram turbulência, e a cotação do dólar, embora não tenha voltado ao pico, está longe das previsões anteriores: a estimativa, agora, é que chegue ao final do ano a R$ 5,22.

Retrospectiva economia - dólar — Foto: Arte G1
Retrospectiva economia - dólar — Foto: Arte G1

Inflação

2019 fechou com a inflação a 4,31%, pouco acima da meta central do Banco Central - e o último boletim Focus daquele ano indicava um 2020 caminhando para uma trajetória semelhante, com o IPCA - a inflação oficial - a 3,60%. Já para o IGP-M, chamado de 'inflação do aluguel', a estimativa era de uma alta de 4,24% este ano.

Os primeiros meses do ano mostraram uma inflação em queda livre: com a população sem comprar, a pressão sobre os preços se desfez. Em maio, o IPCA registrou deflação de 0,38%, a menor taxa em 22 anos.

Mas essa situação durou pouco. Com a retomada das atividades a partir de maio, o início dos pagamentos do Auxílio Emergencial - e, principalmente, a alta do dólar e a procura por alimentos e commodities no mercado internacional -, a inflação voltou a assustar, afetando principalmente os preços dos alimentos e as famílias de renda mais baixa.

Em novembro, o IPCA atingiu a maior taxa mensal do ano. O IGP-M, mais fortemente influenciado pelos preços no atacado, subiu ainda mais, acumulando uma alta de 24,52% em 12 meses. Sem sinal de alívio, a inflação oficial caminha para encerrar o ano a 4,21%, enquanto a inflação do aluguel deve chegar a espantosos 24,09%, a maior taxa desde 2002.

Retrospectiva economia - IPCA — Foto: Arte G1
Retrospectiva economia - IPCA — Foto: Arte G1


Retrospectiva economia - IGP-M — Foto: Arte G1
Retrospectiva economia - IGP-M — Foto: Arte G1

Contas públicas

Ajudadas por uma arrecadação bilionária no leilão de petróleo conhecido como 'seção onerosa', as contas públicas chegaram ao final do ano com um déficit (arrecadação menos gastos) de R$ 61,87 bilhões. Era o sexto ano seguido de contas no vermelho, mas o melhor resultado desde 2014.

Para 2020, com a Reforma da Previdência aprovada e com uma recuperação econômica à vista - mas sem a previsão de arrecadação extra com leilões de petróleo -, o governo estabeleceu como meta fiscal um déficit de R$ 118,9 bilhões.

Os gastos extraordinários com a pandemia, aliados à crise econômica, jogaram por terra essa meta, que foi derrubada, de qualquer forma, pelo decreto de calamidade pública, que desobrigou o governo de cumpri-la.

Além das despesas com o Auxílio Emergencial e outras para mitigar os efeitos da pandemia, o governo se deparou com uma queda brusca na arrecadação, provocada pela paralisação econômica. E as contas devem chegar ao final deste ano com um rombo de cerca de cinco vezes o esperado.

Retrospectiva economia - contas públicas — Foto: Arte G1
Retrospectiva economia - contas públicas — Foto: Arte G1

Bovespa

Maior alta em 3 anos. Maior patamar da história. A bolsa encerrou 2019 com dados positivos e otimismo para 2020. Analistas viam o Ibovespa, principal indicador da bolsa, chegando ao final deste ano próximo aos 130 mil pontos, o que significaria uma alta de cerca de 12% no ano.

Mas o mercado financeiro foi o primeiro indicador a sentir os impactos do coronavírus. Já em março, diante da crise no exterior, a bolsa brasileira desabou. Ao longo daquele mês, o chamado 'circuit breaker', quando os negócios são interrompidos para frear uma queda brusca, foi acionado cinco vezes.

Ao longo dos meses seguintes, a bolsa recuperou as perdas, mas não voltou a bater recordes. Sem uma saída clara da crise à vista, e com os juros nas mínimas históricas reduzindo a atratividade do país, os investidores estrangeiros relutam em voltar com força à bolsa brasileira - que deve encerrar 2020 perto de onde começou: ao redor dos 115 mil pontos.

Desempenho do Ibovespa em 2020 — Foto: Arte G1
Desempenho do Ibovespa em 2020 — Foto: Arte G1

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domingo, 13 de dezembro de 2020

Enigma da pandemia: Os genes que ajudam a entender por que algumas pessoas ficam mais doentes que outras

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Estudo identificou genes que oferecem pistas sobre o que leva alguns a ficarem gravemente doentes com a Covid-19.
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TOPO
Por BBC

Postado em 13 de dezembro de 2020 às 13h45m


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A Covid-19 deixa algumas pessoas gravemente doentes, enquanto outras não apresentam nenhum sintoma. — Foto: SCIENCE PHOTO LIBRARY
A Covid-19 deixa algumas pessoas gravemente doentes, enquanto outras não apresentam nenhum sintoma. — Foto: SCIENCE PHOTO LIBRARY

Um dos maiores enigmas da pandemia é entender por que algumas pessoas com coronavírus não apresentam sintomas, enquanto outras ficam extremamente doentes.

Um estudo com mais de 2.200 pacientes de terapia intensiva publicado na revista Nature identificou genes específicos que podem trazer a resposta.

Eles tornam algumas pessoas mais suscetíveis aos sintomas graves de Covid-19.

As descobertas lançam luz sobre onde o sistema imunológico falha, o que pode ajudar a identificar novos tratamentos.

Os tratamentos continuarão a ser necessários mesmo com as vacinas sendo desenvolvidas, diz Kenneth Baillie, consultor em medicina da Royal Infirmary em Edimburgo, que liderou o projeto denominado Genomicc.

"As vacinas devem diminuir drasticamente o número de casos, mas é provável que os médicos ainda precisem tratar a doença em cuidados intensivos por vários anos em todo o mundo. Por isso existe uma necessidade urgente de encontrar novos tratamentos."

Ministro da Saúde diz que a pandemia do coronavírus não acabou
Ministro da Saúde diz que a pandemia do coronavírus não acabou

Células 'irritadas'

Os cientistas analisaram o DNA de pacientes em mais de 200 unidades de terapia intensiva em hospitais do Reino Unido.

Todos os pacientes tiveram análises minuciosas em seus genes, que por sua vez abrigam instruções para todos os processos biológicos - incluindo como combater um vírus.

Os genomas dessas pessoas foram então comparados com o DNA de pessoas saudáveis na tentativa de identificar diferenças. Algumas foram encontradas - a primeira delas em um gene chamado TYK2.

"Ele é parte do sistema que torna as células imunológicas mais irritadas e mais inflamatórias", explicou o Baillie.

Se o gene estiver imperfeito, essa resposta imune pode entrar em exaustão, colocando os pacientes em risco de séria inflamação pulmonar.

Um tipo de medicamento anti-inflamatório já usado para doenças como a artrite reumatóide tem como alvo exatamente esse mecanismo biológico. É o caso de um remédio chamado Baricitinib.

"Isso o torna esse remédio candidato muito plausível para novos tratamentos", disse Baillie. "Mas, é claro, precisamos fazer testes clínicos em grande escala para descobrir se isso se confirma ou não."

Fábrica da Pfizer despacha primeiros lotes da vacina nos EUA
Fábrica da Pfizer despacha primeiros lotes da vacina nos EUA

Pouco 'interferon'

Diferenças genéticas também foram encontradas em um gene chamado DPP9, que desempenha um papel em inflamações, e em um gene chamado OAS, que ajuda a impedir que o vírus se multiplique.

Além disso, variações em um gene chamado IFNAR2 também foram identificadas nos pacientes de terapia intensiva.

O IFNAR2 está ligado a uma molécula antiviral potente chamada interferon, que ajuda a ativar o sistema imunológico assim que uma infecção é detectada.

Acredita-se que a produção de pouco interferon pode dar ao vírus uma vantagem inicial, permitindo que ele se replique rapidamente, levando a quadros mais graves.

Dois outros estudos recentes publicados na revista Science também relacionaram o interferon a casos de Covid, por meio de mutações genéticas e um distúrbio autoimune que afeta sua produção.

O professor Jean-Laurent Casanova, que realizou a pesquisa, da Universidade Rockefeller em Nova York, disse: "[Interferon] foi responsável por quase 15% dos casos críticos de Covid-19 registrados internacionalmente segundo nosso estudo."

O interferon poderia ser administrado como tratamento, mas um ensaio clínico da Organização Mundial da Saúde concluiu que ele não ajudou pacientes em estado grave. No entanto, o professor Casanova diz que o contexto é importante.

Ele explicou: "Eu espero que, se administrado nos primeiros dois, três, ou quatro dias de infecção, o interferon funcione, porque ele essencialmente forneceria a molécula que o [paciente] não produz por si mesmo".

Alemanha fecha escolas e comércio de 16 de dezembro a 10 de janeiro
Alemanha fecha escolas e comércio de 16 de dezembro a 10 de janeiro

'Quando as coisas dão errado'

Vanessa Sancho-Shimizu, uma geneticista do Imperial College de Londres, disse que as descobertas genéticas oferecem uma visão sem precedentes sobre a biologia da doença.

"É realmente um exemplo de medicina de precisão, no qual podemos realmente identificar o momento em que as coisas deram errado para aquele indivíduo", disse ela à BBC News.

"As descobertas desses estudos genéticos nos ajudarão a identificar caminhos moleculares específicos que podem ser alvos de intervenção terapêutica", disse ela.

Mas o genoma ainda guarda alguns mistérios.

O estudo Genomicc - e vários outros - revelou um grupo de genes no cromossomo 3 fortemente ligado a sintomas graves. No entanto, a biologia por trás disso ainda não é compreendida pelos cientistas.

Mais pacientes serão convidados a participar da pesquisa.

"Precisamos de todos, mas estamos particularmente interessados ​​em recrutar pessoas de grupos étnicos minoritários que aparecem de maneira mais ampla na população gravemente doente", afirmou Baillie.

Ele acrescentou: "Ainda há uma necessidade urgente de encontrar novos tratamentos para esta doença e temos que fazer as escolhas certas sobre os próximos tratamentos, porque não temos tempo para cometer erros".


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sábado, 12 de dezembro de 2020

Como a pandemia 'bagunçou' a economia brasileira em 2020

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Entenda os efeitos da crise trazida pelo coronavírus no consumo, inflação, desemprego, dívida pública e nos setores produtivos.  
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Por Darlan Alvarenga, Luiz Guilherme Gerbelli e Raphael Martins, G1  
12/12/2020 08h09 Atualizado há 4 horas
Postado em 12 de dezembro de 2020 às 12h15m


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Movimento na região da Rua 25 de Março, no centro de São Paulo, em imagem de novembro. — Foto: CRIS FAGA/ESTADÃO CONTEÚDO
Movimento na região da Rua 25 de Março, no centro de São Paulo, em imagem de novembro. — Foto: CRIS FAGA/ESTADÃO CONTEÚDO

A pandemia de coronavírus derrubou a economia global em 2020 – e o Brasil não ficou imune ao abalo provocado pelas restrições impostas à atividade econômica, pela queda na renda das famílias e pelos adiamentos de investimentos e projetos empresariais e pessoais.

Veja abaixo as principais consequências da crise no Produto Interno Bruto (PIB), no mercado de trabalho, nas contas públicas e em outros indicadores da economia brasileira:

Impactos na indústria, comércio e serviços

A necessidade de isolamento social para conter o avanço da Covid-19 fez os principais setores da economia entrarem em queda livre. A princípio, a indústria foi mais prejudicada, pois somou uma redução brusca de demanda com a paralisação da produção.

Mas, a partir do ponto mais crítico da crise, entre abril e maio, cada setor teve uma retomada em dinâmicas diferentes. Com as políticas de incentivo fiscal e preservação do emprego criadas pelo governo federal, beneficiaram-se a indústria e o comércio de bens. O grande vencedor foi o comércio eletrônico, que registrou altas recordes de faturamento mês a mês e a adesão de novos clientes em ambiente digital.

Evolução da indústria, comércio e serviços em 2020 — Foto: G1 Economia
Evolução da indústria, comércio e serviços em 2020 — Foto: G1 Economia

Já o setor de serviços ficou para trás — caso de bares, restaurantes, turismo e tantas outras atividades que demandam a presença do consumidor.

"A mudança de padrão de consumo das famílias fez da recuperação muito desigual. O varejo atingiu níveis muito maiores que o pré-pandemia e deve cair quando houver segurança para consumir serviços", afirma Juan Jensen, economista e sócio da 4E Consultoria.

Para Jensen, a chegada da vacina deve reposicionar as curvas de cada setor mais ao centro, já que não haverá uma ampliação da massa salarial em 2021. Conforme a economia se normaliza, haverá uma queda inicial do comércio e alta mais vigorosa dos serviços.

Consumo

As principais medidas de resgate tomadas pelo governo durante a crise focaram no incentivo ao consumo. Além do Auxílio Emergencial, que despejou sozinho mais de R$ 300 bilhões na economia, houve a permissão de saque do FGTS emergencial, que tentou recompor as perdas de renda da população com a pandemia.

Pelos cálculos da 4E Consultoria, ainda haverá queda da massa efetiva de renda da ordem de 4,9% em relação ao ano passado. Mas, não fossem as medidas de incentivo, a redução seria de 12,6%.

Com auxílio emergencial, poupança tem saldo recorde no ano
Com auxílio emergencial, poupança tem saldo recorde no ano

As medidas foram fundamentais para resultados tão positivos como os do comércio. Como houve restrição mais severa do consumo de serviços, surgiram dois efeitos: maior concentração de gastos em itens básicos e crescimento da taxa de poupança.

"Para famílias mais pobres, o Auxílio Emergencial triplica a renda e valeu para intensificar compras no mercado, por exemplo. Para quem ganha um pouco mais, a flexibilização da circulação ajudou a aumentar a renda", afirma André Braz, economista do Instituto Brasileiro de Economia da FGV.

Pelos cálculos do Ibre/FGV, a procura por alimentos e a desvalorização cambial fez subir, em média, 67% dos custos de produtividade industrial, trazendo de volta as preocupações com a inflação. (leia mais abaixo)

"Não há estrutura produtiva que aguente. Temos visto um espalhamento maior do aumento de preço em bens duráveis, vestuário, eletrodomésticos etc.", afirma.

Inflação

O descompasso entre oferta e demanda, a desvalorização do real e a retomada econômica da China resultaram em uma combinação perversa para a inflação em 2020. Os analistas consultados pelo relatório Focus, do Banco Central, estimam que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) vai encerrar 2020 acima do centro da meta do governo, de 4%. No auge da crise, em junho, a projeção era pouco superior a 1,5%.

Com as medidas de distanciamento social, o Brasil enfrentou inicialmente uma crise de oferta, seguida por uma de demanda. As empresas tiveram de paralisar parte ou toda a produção, e a renda de boa parte da população foi interrompida.

Inflação: entenda o que está por trás da alta nos preços dos alimentos e aluguéis
Inflação: entenda o que está por trás da alta nos preços dos alimentos e aluguéis

Com o Auxílio Emergencial, o país conseguiu retomar a demanda, mas sem que a produção das empresas acompanhasse o mesmo ritmo — resultando em alta dos preços em vários grupos da economia, sobretudo em alimentos e bens industriais.

"Vários setores ficaram com uma oferta desbalanceada e com pouca capacidade de responder de forma rápida a uma volta da demanda, afirma o sócio e economista da Kairós Capital, André Loes.

Nesse cenário de descompasso, somaram-se ainda a desvalorização do real e a pressão de custo das matérias-primas, influenciadas pelo mercado doméstico e também por uma demanda crescente da China. O gigante asiático é um grande importador de commodities do Brasil — minério de ferro e soja, por exemplo —, e qualquer aumento de compra externa tem potencial para provocar uma alta de preços internamente.

"A retomada da China foi robusta e provocou uma 'minibolha' nos preços de commodities", afirma o CEO da Fator Administração de Recursos, Paulo Gala.

Além da crise sanitária, a perda de valor da moeda brasileira tem como pano de fundo as incertezas dos investidores com o rumo das contas públicas. O impacto dessa desvalorização fica evidente no IGP-M (Índice Geral de Preços - Mercado). Conhecido como a inflação do aluguel e muito sensível ao comportamento do dólar, o IGP-M deve terminar este ano com uma alta superior a 20%.

Mercado de trabalho

Mesmo com as medidas de auxílio lançadas pelo governo, a taxa de desemprego veio renovando recordes desde julho no país, à medida que os trabalhadores que perderam sua ocupação na pandemia passaram a buscar um emprego após o relaxamento das medidas de restrição e redução do valor do Auxílio Emergencial.

De acordo com o último dado oficial, o desemprego saltou para 14,6% no 3º trimestre encerrado em setembro, afetando 14,1 milhões de brasileiros, com uma perda de 11,3 milhões de postos de trabalho em 12 meses e com mais da metade da população em idade para trabalhar sem ocupação.

Evolução da taxa de desemprego — Foto: Economia G1
Evolução da taxa de desemprego — Foto: Economia G1

Entre os trabalhadores com carteira assinada que conseguiram manter os empregos, quase 10 milhões (cerca de um terço do total) tiveram redução de jornada e salário ou suspensão do contrato de trabalho.

Os mais afetados pela pandemia foram os informais. Em outubro, o país registrou o 4º mês seguido em que as contratações com carteira assinada superaram as demissões. No acumulado dos 10 primeiros meses deste ano, porém, houve a perda de 171.139 empregos formais.

Com a recuperação ainda tímida do mercado de trabalho, o rendimento médio do brasileiro correspondeu em outubro a 92,8% da renda média habitual, com os trabalhadores por conta própria sendo os mais atingidos pela queda de renda em razão da natureza da atividade, mais dependente de contato presencial e da retomada de uma rotina sem restrições.

Explosão da dívida pública

Os gastos federais anunciados para combater os efeitos da pandemia já somam R$ 615 bilhões, segundo o Tesouro Nacional. A resposta do governo para a crise garantiu algum alívio para empresas e trabalhadores que se viram, de uma hora para a outra, sem renda. Mas também provocou uma explosão da dívida pública, elevando as preocupações sobre a saúde das contas públicas e sustentabilidade fiscal do Brasil.

A dívida bruta do setor público, que no final do ano passado estava em 75,8% do PIB (Produto Interno Bruto), superou em 2020 a marca inédita 90% do PIB. E tende a continuar em trajetória de alta diante da perspectiva de recuperação lenta da economia e incertezas sobre a aprovação de reformas estruturais.

A pandemia foi um choque fiscal de tal magnitude que exigiria um choque de credibilidade e de atuação por parte do governo, que não foi visto e acho difícil de ver acontecer pela frente, diz Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, criticando a falta de um plano crível e executável de estabilização da trajetória da dívida.

Em relatório sobre o Brasil divulgado no começo de dezembro, o FMI (Fundo Monetário Internacional), projeta que a dívida pública bruta irá saltar para 100% do PIB e que continuará elevada no médio prazo.

Piora nas contas públicas — Foto: Economia G1
Piora nas contas públicas — Foto: Economia G1

No acumulado no ano até outubro, as contas do setor público consolidado apresentaram déficit primário de R$ 632,9 bilhões, caminhando para o pior ano já registrado na série histórica do Banco Central e o 7º ano seguido com as despesas do governo superando as receitas de impostos e contribuições. Pelas projeções atuais do mercado, o Brasil só deverá voltar a registrar superávits a partir de 2026.

Investimentos

A pandemia afetou o rumo dos investimentos no Brasil. Sem uma clareza de quando a crise sanitária vai ser plenamente superada e a economia vai poder retomar a sua plena capacidade, os empresários postergaram qualquer tipo de plano de expansão neste ano.

No terceiro trimestre, os investimentos até cresceram 11%, mas não conseguiram superar a queda de 16,5% no trimestre anterior. No acumulado do ano, a queda é de 5,5%.

A evolução da taxa Selic
Desde 2017, em % ao ano
131312,2512,2511,2511,2510,2510,259,259,258,258,257,57,5776,756,756,56,56,56,56,56,56,56,56,56,56,56,56,56,56,56,56,56,56,56,5665,55,5554,54,54,254,25332,252,25222222jan/17abr/17jul/17out/17fev/18mai/18ago/18out/18fev/19mai/19jul/19out/19fev/20mai/20ago/20out/2002,557,51012,515
Fonte: Banco Central

Há ainda a incerteza fiscal. Com a pandemia, o endividamento do governo deve se aproximar de 100% do PIB neste ano, um patamar considerado alto para uma economia emergente como a brasileira.

A principal dúvida na área fiscal é se o governo vai manter o teto de gastos, que limita o crescimento das despesas à inflação do ano anterior. Na leitura do mercado, uma eventual deterioração das contas públicas pode levar a uma fuga de investidores do país, o que provocaria uma depreciação do câmbio e um consequente aumento da taxa básica de juros – hoje em 2% ao ano.

Juros mais altos encarecem a tomada de crédito pelas empresas para realizar novos investimentos.

Governo não realiza nenhuma privatização

Paulo Guedes se diz 'bastante frustrado' por não ter conseguido vender estatais
Paulo Guedes se diz 'bastante frustrado' por não ter conseguido vender estatais

O baixo volume de investimentos no país em 2020 refletiu também a maior dificuldade do governo em avançar na sua agenda de privatizações e concessões, com muitos leilões sendo adiados e virando agora promessa para 2021 e 2022.

A lista de promessas frustradas no ano inclui, entre outros, o leilão do 5G, 22 aeroportos, 6 rodovias, 2 ferrovias e a venda de ao menos 6 estatais, incluindo a privatização da Eletrobras.

Em novembro, o ministro da Economia, Paulo Guedes, admitiu estar "bastante frustrado" por não ter conseguido concluir a venda de nenhuma estatal em 2 anos de governo.

A privatização mais aguardada continua sendo a da Eletrobras, que é avaliada em cerca de R$ 60 bilhões e depende de aval do Congresso para ter seu controle transferido para o setor privado.

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