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domingo, 10 de junho de 2018

Os microssapinhos menores que uma moeda e típicos do Brasil - e que ainda estão sendo descobertos

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Pesquisador da Unicamp acaba de descrever a 22ª espécie do tipo, e estima-se que haja mais uma dezena de novos tipos a serem identificados; eles vivem em grandes bandos e, pelo menos aparentemente, não são excessivamente afetados pelo desmatamento.

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BBC
Por BBC 


Pseudopaludicola florencei, recém-descoberta na Chapada Diamantina, cabe dentro de uma moeda de R$ 1 (Foto: Divulgação)Pseudopaludicola florencei, recém-descoberta na Chapada Diamantina, cabe dentro de uma moeda de R$ 1 (Foto: Divulgação)

De sua mais recente expedição a campo, em Andaraí (BA), na Chapada Diamantina, em novembro de 2016, o pesquisador Felipe Andrade regressou a seu laboratório na Unicamp (SP) com a 23ª espécie documentada de microssapinhos tipicamente sul-americanos - que proliferam sobretudo no Brasil e que ainda não são plenamente conhecidos dos cientistas.

A nova espécie é descrita pela primeira vez em artigo prestes a ser publicado no periódico científico Zootaxa, e Andrade descobriu que ela se difere das demais de seu gênero por ter pernas mais curtas, uma quantidade diferente de pares de cromossomos, um canto de notas mais rápidas e um tamanho ainda mais diminuto do que muitas de suas "colegas": os machos têm entre 12,8 mm e 14,8 mm, ou seja, são menores do que uma moeda de R$ 1.

Algumas espécies chegam a ter tamanho inferior a uma unha do dedo mindinho humano.
As pseudopaludicolas - como é chamado esse gênero de sapos minúsculos - despertaram nos últimos anos a atenção de pequenos grupos de cientistas por serem uma fauna tipicamente brasileira parcialmente inexplorada: é possível que existam pelo menos dez espécies ainda não documentadas, esperando para serem descobertas.

"Só nos últimos oito anos, foram encontradas 12 novas espécies, o que é muito surpreendente", diz Andrade, que já prepara, em sua tese de doutorado, a descrição de mais duas espécies e analisa os dados de uma terceira, para confirmar se ela é, de fato, nova.

Isso se deve tanto ao maior interesse dos cientistas quanto aos avanços tecnológicos na análise.

"A princípio, conseguia-se fazer só a análise da morfologia (aparência e tamanho) desses animais", explica Ariovaldo Giaretta, professor-associado da Faculdade de Ciências da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

"Hoje, conseguimos também gravar os cantos (dos sapos para estudo acústico) com equipamentos digitais, fazer uma análise molecular cada vez mais rápida e barata e integrar essas três bases de dados para identificar novas espécies. A maior limitação atualmente é tempo e dinheiro para viagens. Mas não será surpresa se chegarmos a um número de 30 ou 35 espécies identificadas de pseudopaludicolas."
As pseudopaludicolas, que é o nome desses sapos minúsculos, despertaram a atenção de pequenos grupos de cientistas por serem uma fauna tipicamente brasileira parcialmente inexplorada. (Foto: Divulgação)As pseudopaludicolas, que é o nome desses sapos minúsculos, despertaram a atenção de pequenos grupos de cientistas por serem uma fauna tipicamente brasileira parcialmente inexplorada. (Foto: Divulgação)

Áreas abertas
As pseudopaludicolas costumam habitar áreas abertas, como pastos, em vez de florestas fechadas. É um gênero que surgiu e se diversificou exclusivamente na América do Sul, principalmente no Brasil, por causa do tamanho do país e da diversidade de biomas adequados para esses bichinhos - particularmente a Caatinga, o Cerrado, os Pampas sulistas e algumas áreas do Pantanal.

Os sapinhos provavelmente preferem essas áreas porque a ausência de coberturas florestais densa permite que o sol bata diretamente sobre as poças de águas rasas que eles habitam - as quais, mais quentes, acabam tendo mais algas para alimentar os girinos das espécies.
Curiosamente, essa preferência de habitat talvez esteja ajudando a preservar as espécies de pseudopaludicolas.
Pseudopaludicola murundu encontrada em Poços de Caldas (MG) (Foto: Divulgação)Pseudopaludicola murundu encontrada em Poços de Caldas (MG) (Foto: Divulgação)

"Por serem animais de áreas abertas, eles ficam menos suscetíveis (ao desmatamento)", explica Luis Felipe Toledo, professor do Departamento de Biologia Animal da Unicamp, especialista em extinções de anfíbios no Brasil e orientador de Andrade.

Mas, como o estudo aprofundado dessas espécies é relativamente recente, serão necessárias mais pesquisas para ter certeza disso.

"Até recentemente, (muitos biólogos) preferiam mais de estudar animais maiores, mais coloridos e carismáticos, em vez desses sapinhos marrons parecidos entre si. Agora, com mais tecnologia e gente interessada, é que estamos descobrindo sua variedade e encontrando-os em serras, pastos, litorais", prossegue Toledo. 

"Mas a gente ainda mal conhece a distribuição desses bichinhos. Não temos ideia se as populações estão declinando ou se estão estáveis, então é difícil bater o martelo sobre seu status de conservação."

Importância ecológica
Microssapinhos ajudam a controlar populações de insetos e servem de alimento para muitos animais maiores. (Foto: Divulgação)Microssapinhos ajudam a controlar populações de insetos e servem de alimento para muitos animais maiores. (Foto: Divulgação)

O que os cientistas já sabem é que esses minissapinhos têm papéis relevantes em seus ecossistemas, a começar pela cadeia alimentar.
"Eles comem besouros, aranhas e insetos, fazendo um controle populacional de mosquitos, por exemplo", explica Andrade.

No sentido contrário da cadeia, eles servem de alimento para uma gama de animais vertebrados maiores - até mesmo outros sapos.
"E são importantes conversores de nutrientes: como vivem na água, incorporam nutritentes aquáticos e os devolvem à terra ao morrerem", diz Giaretta.

Sua predileção pela água também tem ajudado em projetos de preservação, explica André Pansonato, pesquisador na Universidade Federal do Mato Grosso, que também é autor de tese de doutorado sobre as pseudopaludicolas. "Uma espécie pseudopaludicola em particular, a ameghini, é presente em áreas de nascentes de água. Ao identificarmos locais de incidência da espécie, também identificamos áreas de nascentes a serem protegidas", explica.

O próprio Pansonato já participou da identificação de mais de cinco novas espécies desse gênero, e, ainda que advogue cautela no meio científico para que não haja banalização na atribuição de novas espécies, vê potencial tanto científico quanto turístico nas pseudopaludícolas.

"Acho que muitas pessoas bloqueiam seu interesse por sapos por os associarem a algo asqueroso, de bruxaria. Mas isso é desconhecimento. Há espécies com um canto espetacular, muito distinto. Daria para fazer expedições noturnas de turismo para escutá-los."

É o caso da nova espécie, a recém-identificada por Andrade e seus colegas - Isabelle Haga, da UFU, Mariana Lyra e Célio Haddad, da Unesp Rio Claro, Felipe Leite da UFV Campus Florestal, e o alemão Axel Kwet, com financiamento da Fapesp - e que tem um canto bem particular: uma espécie de "pocotó", semelhante ao andar do cavalo, mas em ritmo rápido.

Outra curiosidade sobre as pseudopaludicolas é que algumas espécies desses sapinhos, por serem tão pequeninas, não andam sozinhas.
"Quando você acha um, acha uma centena em uma área de 10 m²", diz Toledo.

Giaretta confirma que já foi surpreendido, em pesquisas de campo, por "nuvens de sapinhos, como se fossem gafanhotos".

"Nem todas as espécies vivem em bandos tão grandes, mas no Pantanal, às vezes você pisa em uma poça e dezenas de sapinhos saem pulando", agrega Pansonato. 
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sábado, 9 de junho de 2018

Indígenas do Xingu falam sobre mudanças climáticas em documentário precioso

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Por Amelia Gonzalez, G1 
Documentário "Antes da Chuva" (Foto: Reprodução) 

"Antes da chuva", o documentário realizado pelo Instituto Socioambiental (ISA), dirigido por Otávio Almeida, que acaba de estrear em plataformas digitais, dá espaço para os indígenas falarem. Mas eles não estão, desta vez, reclamando seus direitos sobre as terras que lhes são devidas. As câmeras captam, neste filme, a triste constatação de jovens indígenas de que o meio ambiente está sofrendo por causa dos abusos cometidos pela humanidade. O filme revela o olhar dos xinguanos a este impacto e deixa possível uma leitura da distância entre esta vivência sensorial e o conhecimento científico sobre o fenômeno das mudanças climáticas.

A primeira cena, impactante e de uma beleza extraordinária, já deixa muito clara esta experiência peculiar. Nela aparece uma mãe indígena com um bebê no colo enrolado em manta e, ao lado, no chão, outro filho, já mais velho. Venta forte e o grupo está na porta de sua oca, feita de palha e madeira, tentando espantar o vento e a chuva que virá, com uma vassoura nas mãos. A vulnerabilidade dos três chega a ser emocionante. Assim como fica aparente a intimidade que eles têm com fenômenos naturais.

É assim, também, quando a câmera acompanha jovens coletoras de sementes pela floresta. Os protagonistas do documentário fazem parte da Associação Rede de Sementes Xingu, uma rede de trocas e encomendas de sementes de árvores e outras plantas nativas das regiões do Xingu e Araguaia, a maior rede de sementes nativas do Brasil. A facilidade com que tais jovens pegam sementes, com que vão desfolhando os mistérios do ambiente que os cerca, é aparente. Muito, muito diferente do conhecimento adquirido em livros e sites que norteiam pesquisas e relatórios de cientistas e outros especialistas em meio ambiente reunidos em fóruns e conferências do meio ambiente. Não estamos em tempo de menosprezar nenhum saber, portanto a comparação não é preconceituosa. Trata-se de uma constatação.

Está mais do que na hora de ouvir os indígenas para que eles possam mostrar os sinais, cada vez mais claros, das mudanças do clima. E para que eles possam ajudar a desenvolver políticas que, quem sabe, ainda nos poupem de piores fenômenos do que a seca que lhes invade os dias.

Tawa, da Rede de Sementes, põe em palavras o que tem observado quando se lança em campo para fazer a coleta:

"Antigamente a gente seguia os sinais, mas não é mais como era", diz ele.
O jovem Oreme Ikpeng, da aldeia Moygu concorda:
"Quando a gente percebia que ia chover, a gente queimava a roça e, no dia seguinte, já chovia. Hoje a gente segue esses sinais, mas a chuva não vem. Queremos seguir as regras antigas, mas o tempo não acompanha essas regras. Ou eu sigo a cultura tradicional, como é, ou eu me adapto à nova cultura e aqueles sinais ficam só na história. Isto, para mim, é triste", diz Ikpeng.

Já estive em algumas aldeias indígenas a trabalho, como repórter e, em todas elas, procurei fazer perguntas sobre as alterações climáticas. Para minha frustração, o que conseguia eram respostas evasivas ou muito ensaiadas. E fiquei com a sensação de que os índios não gostam de falar a respeito. Foi, portanto, uma grata surpresa ouvir os depoimentos no documentário.

Dannyel Sá, que junto com Danilo Urzedo e Raíssa Ribeiro (todos da Rede de Sementes) concebeu o projeto e a pesquisa, aceitou minha provocação para refletir sobre esta minha percepção:
"A dificuldade é fazer a ponte com a linguagem acadêmica, de base racional, das observações feitas, por exemplo, pelos cientistas do IPCC. O que existe é uma incompatibilidade de linguagem porque os indígenas notam mais do que todo mundo. Os sinais que eles usam são a própria referência do tempo. A floração de uma espécie indica que vai estar na época do pracajá, uma estrela tal que aparece avisa que é época de queimar. Todos esses sinais estão completamente desregulados, não tem mais equivalente. Fazer uma tradução para nossa linguagem de forma que dialogue com o nosso sistema é que é o ponto. O filme teve objetivo de mostrar isso, explicando pela observação deles. Eles sabem que tem algo errado, mas não sabem que tem uma discussão ampla, global, falando de motivos para isso acontecer. Ou seja, essa dificuldade de eles falarem das mudanças climáticas pode ser dificuldade de diálogo, de perspectivas, de cosmologia", disse Dannyel, por telefone.

O território indígena do Xingu fica no coração do Brasil e foi a primeira grande terra indígena demarcada pelo governo federal há 57 anos.

"São 2,8 milhões de hectares, oito mil pessoas que compõem uma sociobiodiversidade única em uma região de transição entre Cerrado e Amazônia, diz o site do ISA, organização que está com o povo xinguano desde 1994. O território está preservado, mas há muita destruição em volta causada, basicamente, pelo agronegócio, que provoca sérios impactos nos cerrados e nas florestas, intensificando as mudanças climáticas e dificultando a produção agrícola dos indígenas.

Num dos trechos do documentário, a câmera dialoga com índias coletoras de sementes. Elas não têm dúvida de que o homem branco é que está causando tanto mal à floresta, tanto desmatamento:
"Estamos sofrendo com a falta de alimentos que nós mesmos causamos e que os brancos também estão causando e com isso o sol está mais quente", diz uma das mulheres.
O Rio Xingu, que garante a sobrevivência daquele povo, cuja história está imbricada com a dos indígenas, agora também está mudado. O canoeiro que transporta as sementes coletadas conta que antigamente ele gastava menos combustível em seu pequeno barco porque o caminho era mais direto, não precisava fazer tantas curvas.
"Antigamente o rio era mais cheio e não precisava fazer curvas. Mas agora mudou tudo, está diferente, o rio está muito seco. As viagens noturnas são muito perigosas", diz ele.
São detalhes preciosos que fazem parte de uma vivência que não deve, não pode ser desprezada.

O documentário em curta-metragem foi premiado como melhor fotografia no Festival dos Sertões e selecionado para mostras no Cinecipó – Festival do Filme Insurgente e VI Congresso Latino-americano de Agroecologia. A ideia do pessoal do ISA é que sejam criados grupos de pessoas interessadas no tema para assisti-lo, gerando com isso um debate construtivo.
INSTITUTO SOCIOAMBIENTAL 
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