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Relatórios apontam para declínio de sistema político que sempre foi considerado exemplo a ser seguido
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Fernanda Magnotta
PhD
especializada em Estados Unidos. Professora da FAAP, pesquisadora do
CEBRI e do Inter-American Dialogue. Referência brasileira na área de
Relações Internacionais
Postado em 24 de Março de 2.026 às 16h00m
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Washington, capital dos EUA. • J. David Ake/Getty Images
Relatórios recentes de monitoramento democrático apontam não apenas para uma deterioração, mas para algo mais estrutural: a consolidação de um novo patamar inferior de qualidade democrática.
Um levantamento recente do projeto Bright Line Watch indica que a democracia norte-americana deixou de operar dentro dos parâmetros históricos que a caracterizavam, estabilizando-se em um nível mais baixo de desempenho institucional. A ideia de “estabilização”, neste caso, não é tranquilizadora: ela sugere que o declínio não é episódico, mas sim incorporado ao funcionamento cotidiano do sistema político.
Esse diagnóstico converge com o mais recente relatório do instituto V-Dem, que trouxe um dado ainda mais contundente: os Estados Unidos deixaram de ser classificados como uma “democracia liberal” e passaram à categoria de “democracia eleitoral”.
Em termos práticos, essa reclassificação é significativa. Ela indica que, embora eleições continuem ocorrendo, há déficits relevantes em dimensões como separação de poderes, Estado de direito e garantias civis, pilares que definem a qualidade substantiva de uma democracia.
Mais do que uma queda de posição em rankings, trata-se de uma mudança de natureza. A literatura contemporânea sobre “backsliding democrático” já alertava que democracias não colapsam necessariamente por rupturas abruptas, mas por erosões graduais, frequentemente conduzidas a partir de dentro das próprias instituições. Nesse sentido, o caso norte-americano reforça uma tendência global mais ampla: a chamada terceira onda de autocratização, marcada por processos incrementalistas e institucionalmente ambíguos.
O elemento mais perturbador, contudo, não reside apenas na deterioração dos indicadores, mas na sua normalização política. Pesquisas indicam que a percepção sobre a qualidade democrática nos Estados Unidos tornou-se profundamente polarizada, com avaliações divergentes conforme alinhamentos partidários.
Esse desalinhamento entre diagnóstico técnico e percepção social reduz a capacidade de reação institucional, criando um ambiente no qual práticas antes consideradas excepcionais passam a ser absorvidas como parte do jogo político.
A interseção entre política doméstica e projeção internacional amplifica esse problema. Historicamente, os Estados Unidos atuaram como um dos principais promotores globais de padrões democráticos. No entanto, a erosão interna fragiliza a legitimidade desse papel, abrindo espaço para alternativas normativas, inclusive de caráter autoritário, no sistema internacional.
Nesse contexto, o debate sobre democracia deixa de ser exclusivamente normativo e passa a ser também estratégico. A reconfiguração da ordem internacional não depende apenas da ascensão de novas potências, mas também da transformação interna das democracias estabelecidas. O que está em jogo não é apenas a posição dos Estados Unidos em rankings, mas a própria capacidade do modelo liberal de se sustentar como referência global.
Em última instância, o caso norte-americano revela um paradoxo central do nosso tempo: a democracia não está desaparecendo, mas está sendo redefinida, muitas vezes para baixo. E, como todo novo padrão que se estabiliza, tende a ser mais difícil de reverter do que de instaurar.



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