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Estados Unidos não conseguiram atingir seus maiores objetivos durante a guerra e presidente viu sua popularidade cair para os níveis mais baixos desde o primeiro mandato
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Américo Martins Especialista em jornalismo internacional e fascinado pelo mundo desde sempre, foi diretor da BBC de Londres e VP de Conteúdo da CNN; já visitou mais de 70 países
Postado em 11 de Abril de 2.026 às 06h00m
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O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa no Salão Cruzado da Casa Branca • Getty Images
Trump acabou tendo que pagar um preço altíssimo para conseguir a paz, ainda que temporária, com o regime iraniano. É fato que os ataques dos norte-americanos e israelenses destruíram boa parte das capacidades militares e de defesa do Irã, que viu a sua Marinha e a sua Força Aérea serem praticamente desmanteladas.
Houve grande destruição de infraestrutura e a morte de cerca de 3.600 pessoas, segundo a Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos do Irã, sediada nos Estados Unidos.
Do ponto de vista militar tradicional, o Irã tomou, de fato, uma surra. Teve dezenas de líderes militares e políticos mortos e, ao final, já não conseguia se defender dos ataques aéreos.
O regime, no entanto, usou com eficiência táticas de guerra assimétrica e a geografia a seu favor. Esses fatores aumentaram a pressão sobre Trump, que também acabou sofrendo consequências profundas com a guerra.
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Para começar, os norte-americanos não conseguiram atingir seus principais objetivos políticos. Apesar da morte do líder supremo Ali Khamenei, o regime islâmico continua no poder em Teerã.
Agora sob a liderança formal do filho e sucessor Mojtaba Khamenei, mas também com o claro fortalecimento da linha dura, sob controle da temida e brutal Guarda Revolucionária Islâmica.
Não houve, portanto, mudança de regime nem a tomada do poder pela população civil iraniana, como chegou a defender Trump no início do conflito.
Além disso, o Irã ainda mantém pelo menos 450 quilos de urânio enriquecido a 60%, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica.
Esse material poderia, com enriquecimento adicional, ser utilizado para a produção de uma arma nuclear. Isso mostra que o conflito não deixou o mundo mais seguro, como afirma Trump.
Por fim, os norte-americanos também não conseguiram acesso ao petróleo iraniano, como desejava o presidente.
Pelo contrário. Ao fechar o estratégico Estreito de Ormuz, os aiatolás impediram exportações de outros países do Golfo e provocaram uma forte crise no setor de energia, com alta nos preços globais de combustíveis e gás.
Isolamento internacional
O conflito também deixou o governo americano mais isolado no cenário internacional. Com a óbvia exceção de Israel, nenhum aliado foi consultado sobre os ataques iniciais.
Muitos classificaram o conflito como “ilegal”, por não ter autorização do Conselho de Segurança da ONU nem estar associado a uma ameaça iminente.
O isolamento se aprofundou com a crise na Otan, que recusou apoiar os Estados Unidos na tentativa de reabrir o Estreito de Ormuz.
Os europeus,
cada vez mais, discutem formas de garantir sua própria defesa e já
consideram até um cenário sem participação americana na aliança.
Grandes rivais dos Estados Unidos, como Rússia e China, saíram fortalecidos.
Moscou se
beneficiou da alta nos preços do petróleo e da flexibilização parcial de
sanções, o que pode ampliar sua capacidade de financiar a guerra na
Ucrânia.
Pequim, por sua vez, buscou se apresentar como um ator mais “estável e
responsável”, reforçando a narrativa de que os Estados Unidos são uma
fonte de instabilidade global.
Impacto na política interna
Mas foi dentro dos Estados Unidos que os efeitos mais imediatos apareceram.
A guerra nunca foi popular entre os eleitores, nem mesmo entre parte da base de Trump tradicionalmente contrária às chamadas “guerras sem fim”. Aliados políticos chegaram a deixar o governo, alegando falta de justificativa para o conflito.
Ao mesmo
tempo, o fechamento de Ormuz elevou rapidamente os preços dos
combustíveis nos postos norte-americano, aumentando o desgaste do
presidente.
Durante o conflito, sua popularidade caiu para o nível mais baixo desde o primeiro mandato.
Apenas 31% aprovaram sua gestão econômica, segundo pesquisa da CNN divulgada na semana passada.
Dois terços dos americanos afirmaram que suas políticas pioraram a economia, um aumento de 10 pontos percentuais desde janeiro.
A aprovação no combate à inflação caiu para 27%, bem abaixo dos 44% registrados um ano antes.
Houve também erosão dentro do próprio Partido Republicano: a aprovação do presidente entre seus apoiadores caiu de 52% para 43% em apenas dois meses.
Tudo isso passou a preocupar Trump, especialmente diante das eleições de meio de mandato, em novembro.
Diante desse
cenário, o presidente passou a intensificar as ameaças contra o Irã, ao
mesmo tempo em que buscava uma saída para o conflito.
Qualquer saída. E a qualquer preço.
Os iranianos, também interessados em encerrar a guerra, ofereceram um acordo precário, prontamente aceito pela Casa Branca. Trump vai continuar dizendo que venceu a guerra, mas isso não deve colar a não ser entre os seus aliados mais fervorosos.
Resta saber se Trump terá tempo para reverter o prejuízo até as eleições de novembro.


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