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domingo, 26 de outubro de 2025

Como viagem de Lula à Ásia para rebater efeito Trump pode acabar selando paz entre os dois

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Expectativa do governo brasileiro é que o encontro entre Trump e Lula aconteça no domingo (26), às margens de cúpula na Malásia.
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TOPO
Por Mariana Schreiber, Julia Braun

Postado em 25 de Outubro de 2.025 às 07h00m
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Lula trata como certa reunião com Trump na Malásia e lista pontos que pretende negociar
Lula trata como certa reunião com Trump na Malásia e lista pontos que pretende negociar

Desde que Donald Trump retornou à Casa Branca no início de 2025, o Brasil vem apostando na diversificação de suas rotas comerciais, em busca de caminhos alternativos diante de uma provável deterioração nas relações com Washington.

A viagem de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para o Sudeste Asiático, com passagem pela Indonésia e Malásia, foi marcada justamente como parte dessa estratégia, segundo fontes do governo brasileiro.

Mas a possibilidade cada vez mais real de que um encontro cara a cara entre Trump e Lula aconteça às margens da cúpula da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean), em Kuala Lumpur, está mudando totalmente as expectativas em relação à viagem.

Expectativa do governo brasileiro é que o encontro entre Trump e Lula aconteça no domingo (26/10), às margens da cúpula da Asean na Malásia — Foto: Getty Images
Expectativa do governo brasileiro é que o encontro entre Trump e Lula aconteça no domingo (26/10), às margens da cúpula da Asean na Malásia — Foto: Getty Images

Os dois líderes se cruzaram brevemente durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, em setembro, e Washington e Brasília vêm mantendo contato próximo desde então.

A reunião na Malásia, porém, deve ser o primeiro encontro presencial formal entre os chefes de Estado desde a implementação de tarifa de 50% sobre a maioria dos produtos exportados pelo Brasil em agosto e a consequente deterioração das relações.

Além das tarifas, o USTR, escritório do representante comercial dos EUA, abriu em julho uma investigação contra o governo brasileiro por supostas práticas desleais de comércio. A Casa Branca também adotou restrições de vistos a autoridades brasileiras e sanções financeiras contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e sua mulher, Viviane Barci de Moraes, em resposta ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A reunião bilateral com Trump não havia sido confirmada oficialmente até a manhã desta sexta-feira (24/10), mas a expectativa do governo brasileiro é que o encontro aconteça no domingo (26/10), às margens da cúpula da Asean.

Mesmo com a perspectiva de um encontro para tentar selar a paz, os dois líderes têm dado sinais de que não pretendem recuar de suas posições.

Na quarta-feira (22/10), Trump afirmou que os pecuaristas americanos "estão indo bem" graças à tarifa imposta sobre o gado de outros países, como o Brasil.

"Os pecuaristas, que eu adoro, não percebem que a única razão pela qual estão indo tão bem — pela primeira vez em décadas — é porque impus tarifas sobre o gado que entra nos Estados Unidos, incluindo uma tarifa de 50% sobre o Brasil", escreveu em sua rede social.

O republicano acrescentou que, se não fosse por ele, os criadores de gado americanos "estariam na mesma situação dos últimos 20 anos", que classificou como "péssima".

Já Lula, na quinta, voltou a defender alternativas ao dólar no comércio global. Durante a visita que faz à Indonésia, o presidente afirmou que tanto o Pix quanto o sistema de pagamentos indonésio têm potencial para facilitar o intercâmbio entre os dois países e entre os membros do Brics.

"O século 21 exige que tenhamos a coragem que não tivemos no século 20", disse Lula, ao defender "uma nova forma de agir comercialmente, para não ficarmos dependentes de ninguém", sem citar diretamente os Estados Unidos.

A defesa de moedas alternativas à americana, reforçada pelo Brasil durante a cúpula dos Brics em julho, foi apontada por Trump como um dos motivos para a imposição das tarifas às exportações brasileiras.

Para Fernanda Nanci Gonçalves, professora de Relações Internacionais na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), o momento é de melhora no clima político.

Segundo a cientista política, a recente ligação entre Trump e Lula e o primeiro encontro entre os chanceleres do Brasil e dos EUA realizado em Washington na semana passada são indícios de que "há espaço para um diálogo pragmático, mesmo com divergências ideológicas."

"Claro que é preciso ter cautela porque a reversão de tarifas e a retomada de uma 'agenda positiva' dependem de ações concretas, especialmente em temas como comércio, energia e segurança das cadeias produtivas. Mas, sem dúvidas, o clima político melhorou", diz a especialista.

O ex-secretário de Comércio Exterior do governo brasileiro e consultor Welber Barral faz uma avaliação semelhante.

"Seguramente não vai ser tudo resolvido nessa reunião. Há vários temas complexos [que precisam ser negociados], como tarifas específicas, regulamentação e as várias reclamações americanas que têm caráter muito técnico", diz.

"Mas eles devem pelo menos colocar sobre a mesa os temas que serão negociados."

Da diversificação à reaproximação

Uma fonte próxima à Presidência descreveu a viagem de Lula ao Sudeste Asiático como um capítulo de uma estratégia maior de resposta à eleição de Donald Trump nos EUA.

Segundo o interlocutor, o governo brasileiro já previa que a volta do republicano à Casa Branca pudesse abalar as relações antes mesmo da posse e, por isso, vem tentando reforçar outras rotas comerciais desde novembro do ano passado para reduzir a dependência do mercado americano.

Os países membros da Asean são parte importante dessa busca. A organização regional que promove a cooperação econômica entre seus dez países membros do Sudeste Asiático soma atualmente mais de 680 milhões de habitantes com PIB [Produto Interno Bruto] agregado de cerca de US$ 4 trilhões.

Se fosse um único país, a Asean seria o quinto principal parceiro comercial do Brasil, atrás da China, União Europeia, dos Estados Unidos e da Argentina.

Por tudo isso, a possibilidade de uma reunião com Trump é vista como um "fator adicional de acerto" comercial durante a passagem de Lula pelo Sudeste Asiático.

Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Londres e Washington D.C., diz que os últimos acontecimentos indicam certo otimismo sobre o futuro da relação entre Brasil e EUA.

"O encontro abriu a porta para as negociações comerciais que vão ser positivas porque atendem aos interesses do setor privado norte-americano", diz o diplomata, que atribui a mudança de postura do governo Trump a "gestões de companhias americanas e brasileiras afetadas pelas restrições comerciais".

O ministro Mauro Vieira participa de reunião com o Secretário de Estado dos Estados Unidos da América, Marco Rubio — Foto: Freddie Everett/US. Department of State
O ministro Mauro Vieira participa de reunião com o Secretário de Estado dos Estados Unidos da América, Marco Rubio — Foto: Freddie Everett/US. Department of State

Na semana passada, o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e o secretário de Estado americano, Marco Rubio, se reuniram por uma hora na Casa Branca, em Washington.

Em uma breve declaração à imprensa, o chanceler brasileiro disse que encontro foi "muito produtivo, num clima excelente de descontração e de troca de ideias e posições de uma forma muito clara e muito objetiva".

Segundo Vieira, houve "muita disposição para trabalhar em conjunto para traçar uma agenda bilateral de encontros para tratar de temas específicos de comércio".

Pelo lado americano, Rubio e o representante de comércio dos EUA, Jamieson Greer, disseram em um comunicado conjunto que tiveram com o ministro brasileiro "conversas muito positivas sobre comércio e as questões bilaterais em curso".

Segundo a nota, os três "concordaram em colaborar e conduzir discussões em múltiplas frentes no futuro imediato e estabelecer um plano de ação".

Apesar das conversas em Washington não terem abordado temas ou conclusões específicas, Welber Barral afirma que não ficaria totalmente surpreso se algo relevante fosse anunciado já após a reunião entre os chefes de Estado em Kuala Lumpur.

"Trump sempre quer anunciar alguma coisa após suas reuniões", diz o ex-secretário de Comércio Exterior. "Poderia anunciar algo que ressoe com a base eleitoral dele."

O que o Brasil pode oferecer aos EUA?

Para Fernanda Gonçalves, da UERJ, o Brasil pode buscar construir com os EUA uma relação estratégica mais ampla, e não apenas comercial, a fim de criar condições políticas mais favoráveis para a redução gradual das tarifas e uma reaproximação econômica duradoura.

Entre as contrapartidas que poderiam ser oferecidas a Washington citadas pela especialista estão a adoção de cotas tarifárias específicas e a instalação de mecanismos de transparência comercial que reduzam o argumento de "segurança nacional" usado pelos americanos para implementar as tarifas sobre o aço e o alumínio.

"O governo também pode propor cooperação em minerais críticos e energia limpa, reforçando cadeias de valor regionais e biocombustíveis, e ampliar parcerias em ciência, tecnologia e inovação", afirma a cientista política.

Rubens Barbosa, por sua vez, defende uma abordagem menos proativa por parte do Brasil nas negociações.

"O governo brasileiro tem de defender os interesses das empresas nacionais e aguardar as demandas do lado americano para poder reagir a elas. Não deve oferecer nada", avalia.

Os especialistas afirmam, porém, que para garantir que as conversas fluam é importante manter fora da pauta assuntos mais delicados, como o endurecimento do governo Trump em relação à Venezuela.

Forças dos EUA já realizaram pelo menos nove ataques a barcos suspeitos de transportar drogas no Caribe, perto da costa venezuelana, nas últimas semanas. A Casa Branca afirma estar comandando um esforço para reprimir o narcotráfico na região e acusa o presidente venezuelano Nicolás Maduro de liderar o Cartel de los Soles, grupo classificado como organização narcoterrorista.

"É um ponto sensível e como o Brasil busca equilíbrio e diálogo regional deve evitar que a divergência de visões sobre a Venezuela contamine a pauta comercial", diz Fernanda Gonçalves.

Lula poderia, no máximo, oferecer sua atuação como negociador neutro para superar a crise, caso fosse pertinente, opina Barbosa.

Em busca do Sudeste Asiático

Lula desembarcou em Jacarta, na Indonésia, na quarta-feira (22) e foi recebido com honras militares pelo presidente Prabowo Subianto no Palácio Merdeka na manhã de quinta-feira (23). Os dois tiveram um encontro privado e assinaram acordos de cooperação nas áreas de energia, mineração, agricultura, ciência, tecnologia, estatística e comércio.

Segundo destacou o embaixador Everton Frask Lucero, que é diretor do Departamento de Índia, Sul e Sudeste da Ásia do Palácio Itamaraty, em conversa com jornalistas antes do início da viagem, a Indonésia é um importante destino das exportações do agronegócio brasileiro.

"Os contatos de alto nível entre o Brasil e a Indonésia têm ganhado momentum e têm se intensificado nos últimos anos", disse o diplomata.

Em declaração à imprensa em Jacarta, Lula e Subianto disseram ainda disseram ter visões e posicionamentos comuns com relação à situação em Gaza, à necessidade de reforma do Conselho de Segurança das Nações Unidas e a defesa dos interesses do sul global.

O líder indonésio afirmou também que o comércio entre os dois países tem potencial para chegar a US$ 20 bilhões nos próximos anos e que, a fim de "cultivar essa relação", incluirá o português entre as línguas prioritárias do sistema educacional da Indonésia.

Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante fotografia oficial e assinatura do livro de visitas, no Palácio Merdeka. — Foto: Ricardo Stuckert/PR
Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante fotografia oficial e assinatura do livro de visitas, no Palácio Merdeka. — Foto: Ricardo Stuckert/PR

Após a passagem por Jacarta, Lula segue para a Malásia e participa na capital Kuala Lumpur de encontros bilaterais e eventos com empresários, antes da reunião de cúpula da Asean.

Com o governo malaio, um dos grandes interesses do Brasil é a expansão do comércio de microprocessadores. Há a expectativa de que um acordo para o setor seja assinado por Lula e o primeiro-ministro malaio, Anwar Ibrahim.

Segundo Lucero, há também uma aproximação política com a Malásia, diante de "uma coincidência de posições em questões globais" entre Lula e Ibrahim. Segundo o diplomata, os dois líderes já conversaram no passado e mostraram visões semelhantes em relação a temas como a questão da Palestina e a guerra na Ucrânia.

A expansão das parcerias comerciais com os demais membros da Asean também está na pauta da viagem. Além de Indonésia e Malásia, fazem parte da associação Brunei, Camboja, Laos, Mianmar, Filipinas, Singapura, Tailândia, Vietnã e Timor Leste – este último participa da cúpula pela primeira vez como membro oficial da aliança.

Para Fernanda Nanci Gonçalves, da UERJ, aprofundar os laços com a Asean não é apenas uma alternativa à relação com os EUA, mas uma estratégia de diversificação de riscos e fortalecimento da autonomia comercial brasileira.

"É um mercado em franca expansão para produtos agroindustriais, energia limpa, biocombustíveis e tecnologia, setores em que o Brasil possui vantagens comparativas consolidadas. Além disso, a relação comercial com os países do Sudeste Asiático é altamente superavitária, o que se explica tanto pela forte demanda regional por commodities agrícolas e energéticas e pela presença crescente de empresas brasileiras em segmentos como mineração, papel e celulose, tabaco e biotecnologia", diz a especialista.

Segundo uma fonte do governo, a cúpula em Kuala Lumpur está sendo vista ainda como uma "pré-COP" de luxo, em que as autoridades brasileiras poderão discutir de forma mais particular alguns dos temas preferenciais para a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP-30), marcada para novembro em Belém.

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sábado, 25 de outubro de 2025

Brasil e Malásia assinam acordo de comércio e investimentos; confira o discurso completo de Lula

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Na visita à Malásia, Lula destacou os acordos de cooperação na área de ciência e tecnologia e lamentou que nenhum presidente brasileiro esteve no país nos últimos 30 anos.
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Por Redação g1

Postado em 25 de Outubro de 2.025 às 05h00m
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Na Malásia, Lula diz que conselho da ONU não funciona mais
Na Malásia, Lula diz que conselho da ONU não funciona mais

Em visita histórica à Malásia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o primeiro-ministro Anwar Ibrahim assinaram atos de cooperação com o objetivo de intensificar e diversificar o comércio e os investimentos entre os dois países.

O foco são setores estratégicos como energia, ciência, tecnologia e inovação. A visita marca a primeira presença de um presidente brasileiro na Malásia em 30 anos e eleva a relação bilateral a um novo patamar.

Durante a cerimônia, Anwar Ibrahim destacou a amizade pessoal com Lula e a afinidade de valores entre os dois países. Segundo o primeiro-ministro, Lula é um líder que representa a classe trabalhadora, cuida dos pobres e desprivilegiados e tem coragem de se opor aos horrores do mundo com dignidade.

Ibrahim elogiou a liderança do presidente brasileiro e ressaltou que o encontro consolida a parceria entre Brasil e Malásia fortalece a parceria entre os dois países em comércio, tecnologia, educação e cultura.

“Este é um encontro entre amigos que compartilham convicções e ideias. Tenho certeza de que nossos países vão trabalhar juntos como parceiros em diferentes áreas”, disse Anwar Ibrahim.

Ele também agradeceu a hospitalidade do Brasil em fóruns internacionais, como o BRICS, e reafirmou a importância da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30) ser realizada no país.

  • 🔎 O Brics é um grupo de países emergentes que inclui Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Emirados Árabes Unidos, Egito, Arábia Saudita, Etiópia, Indonésia e Irã.
Trump confirma que vai se encontrar com Lula na Malásia
Trump confirma que vai se encontrar com Lula na Malásia

Anwar reforçou a intenção de compartilhar conhecimento e parcerias em setores como energia, tecnologia, educação e cultura, além de ampliar a importação de produtos brasileiros. "Este não é um encontro diplomático ordinário. É um encontro de amigos que compartilham ideais", disse.

Para Lula, a visita também teve caráter estratégico global. Ele criticou o protecionismo e destacou a importância de paz, livre comércio e humanismo. "A relação do Brasil com a Malásia muda de patamar a partir de hoje. Temos possibilidade de mudar o mundo e fazer com que as coisas sejam melhores, de mostrar que o humanismo não seja derrotado pelo político", afirmou.

O presidente brasileiro também falou sobre sua trajetória pessoal e o compromisso com políticas sociais: "Quando assumi em 2003, tínhamos 54 milhões de pessoas passando fome. Em 2014, o Brasil saiu do Mapa da Fome. Retornei ao governo e, em dois anos e meio, conseguimos reduzir novamente a fome. Cuidar dos pobres é a coisa mais barata e fácil de se fazer", disse.

Lula criticou a falta de governança global e a ineficácia de instituições multilaterais diante de guerras recentes e crises humanitárias, como o conflito em Gaza. Ele também destacou a urgência das questões climáticas e a necessidade de instrumentos globais de governança.

“Como vamos evitar que o planeta seja destruído, se sabemos o que o destrói e não tomamos atitude? A COP30, em Belém, será a COP da verdade”. Segundo Lula, os líderes precisam pensar no planeta e adotar instrumentos de governança global eficazes.

O presidente brasileiro afirmou que um dos principais problemas do mundo é a falta de lideranças capazes de conter guerras e combater a fome. “Na ausência de lideranças, tudo que é de pior pode acontecer”, avaliou.

O presidente destacou ainda que o comércio bilateral precisa crescer, atualmente limitado a apenas US$ 6 bilhões. "Precisamos juntar nossas preocupações, identificar similaridades e fortalecer a transferência de tecnologia e conhecimento entre os países", disse.

O encontro foi descrito pelos líderes como um encontro de amigos e não apenas diplomático, com o compromisso de transformar a relação Brasil-Malásia em um pilar estratégico de comércio, investimentos, política e cultura, além de abordar questões globais como governança, direitos humanos e mudanças climáticas.

A visita à Malásia também teve caráter estratégico bilateral. Os dois países assinaram atos de cooperação com foco em energia, ciência, tecnologia e inovação, com o objetivo de intensificar e diversificar o comércio e os investimentos, atualmente na casa de US$ 5,8 bilhões por ano.

Lula enfatizou que a parceria vai além do interesse comercial: “Temos possibilidade de mudar o mundo, de fazer com que as coisas sejam melhores. Precisamos de mais comida e menos armas, de paz e não de guerra, de livre comércio e não de protecionismo”.

O presidente também destacou o papel do Estado no cuidado com os mais pobres: “Governar é fazer escolhas. Para um governante, andar de cabeça erguida é mais importante que um Prêmio Nobel. Cuidar das pessoas mais humildes é quase uma missão bíblica.”

O presidente brasileiro ainda será homenageado com o título de doutor honoris causa pela Universidade Nacional da Malásia, em cerimônia prevista para este sábado (25).

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva em evento com o primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim. — Foto: Reprodução/X
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva em evento com o primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim. — Foto: Reprodução/X

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva em evento com o primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim. — Foto: Reprodução/X
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva em evento com o primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim. — Foto: Reprodução/X

Veja a íntegra da declaração à imprensa do presidente Lula durante visita à Malásia

"É com muita alegria que eu estou nessa querida cidade, Kuala Lumpur. Eu tenho na minha cabeça a ideia de que a relação entre seres humanos é uma coisa muito química. Quando a gente encontra um ser humano, a gente gosta ou não gosta da pessoa à primeira vista.

E desde a primeira vez que eu encontrei com o nosso querido companheiro Anwar Ibrahim [primeiro-ministro da Malásia] e nos cumprimentamos, eu tinha certeza de que eu estava diante de um amigo. De alguém que, como eu, tinha sido perseguido, de alguém que, como eu, tinha sido preso, de alguém que, como eu, tinha sido vítima de uma determinação de acabar com a sua carreira política. Isso aconteceu com Vossa Excelência, e isso aconteceu comigo. E cá estamos nós dois, você como primeiro-ministro da Malásia, e eu como presidente da República, para causar um pouco de raiva nos nossos inimigos.

É assim que as coisas acontecem no mundo. A relação do Brasil com a Malásia muda de patamar a partir de hoje. Eu não vim aqui apenas com o interesse de vender ou com o interesse de comprar. Eu vim aqui dizer ao primeiro-ministro Anwar Ibrahim que nós temos possibilidade de mudar o mundo. De fazer com que as coisas sejam melhores, de fazer com que o humanismo não seja derrotado pelos algoritmos. De dizer ao mundo que o mundo precisa de paz e não de guerra. De dizer ao mundo que nós precisamos de livre comércio e não de protecionismo.

De dizer ao mundo que nós precisamos de mais comida e de menos armas. Esse é o objetivo da minha visita à Malásia. E eu quero que o primeiro-ministro saiba que eu levo essas questões com muita seriedade.

Eu disse ontem numa entrevista e vou dizer agora: quando nós governamos um país, eu no meu Brasil não gosto de usar a palavra governar. Eu gosto de usar a palavra cuidar. Porque a nossa missão é cuidar do povo que nós representamos. E cuidar do povo significa cuidar das pessoas mais necessitadas. Aqueles que efetivamente precisam do papel do Estado são os mais necessitados.

Os ricos não precisam do Estado. Muitas vezes os ricos usurpam e usufruem de coisas do Estado que deveriam ser dedicadas às pessoas mais pobres. Então eu tenho uma obsessão, primeiro-ministro. Uma obsessão. Eu digo sem nenhuma vergonha que eu nasci numa cidade em que as pessoas morriam de fome antes de completar cinco anos de vida. E eu sobrevivi. Eu fui comer um pedaço de pão na minha vida pela primeira vez aos sete anos de idade. E eu sobrevivi. E isso me fez colocar a questão dos deserdados do mundo. Dos pobres que muitas vezes são chamados e cuidados como se fossem invisíveis. As pessoas não querem enxergar os outros pobres. Parece que eles não existem aos olhos do mundo.

Mas eles são milhões, milhões e milhões, que muitas vezes estão à espera de apenas um gesto. Estão à espera que uma pequena parcela do orçamento de cada país seja dedicada a eles. Para resolver problemas elementares: da comida, da educação, da moradia. Que custa tão pouco. Custa tão pouco, mas é tratado como se fosse impossível cuidar dos pobres. Eu nunca consegui entender.

No caso do Brasil, quando eu tomei posse em 2003, nós tínhamos 54 milhões de pessoas passando fome. Em 2014, a ONU reconheceu o Brasil como um país fora do Mapa da Fome. Eu fiquei fora do governo 15 anos. E quando eu votei, outra vez tinha 33 milhões de pessoas passando fome. Em apenas dois anos e meio, nós acabamos com a fome. Uma demonstração de que é plenamente possível. E eu digo sempre que a coisa mais barata, a coisa mais fácil de a gente fazer é cuidar dos pobres. Eles custam pouco. E muitas vezes no orçamento parece que é muito, porque eles são muitos. E como tem muita gente pobre, parece muito dinheiro no orçamento. Mas é pouco se a gente comparar com o dinheiro que vai para outras coisas.

É apenas uma definição de prioridades. É apenas uma definição de escolha. Porque governar é fazer escolhas. Governar é decidir para quem você quer governar, de que lado você está, com quem você vai fazer relações. E eu sempre digo que a coisa mais fácil para um homem governar uma nação é você saber de onde você veio e você saber para onde você vai voltar. É você não esquecer a sua origem. É você não esquecer o seu berço. E não ter vergonha das coisas que você fez.

Para um governante, andar de cabeça erguida é mais importante que um Prêmio Nobel. Para um governante, cuidar das pessoas mais humildes é quase que uma obrigação bíblica. É um mandamento de Deus. Porque é para isso que a gente vem para governar.

E quando eu digo que um líder tem que fazer escolhas, é porque nós temos que decidir sempre. Toda decisão de um primeiro-ministro ou de um presidente da República, é para decidir para um lado ou para o outro lado. Para quem que você atender. E nós temos que fazer escolhas.

E uma das escolhas que a gente tem que fazer, é se a gente quer ser um líder respeitado. Ou temido. O líder respeitado, ele pode ser amado pelo seu povo. O líder temido, ele pode ser odiado pelo seu povo. Porque essa é a grande mensagem que a liderança tem que passar para o mundo. Quem é que se conforma com a duração da guerra entre a Ucrânia e a Rússia? Quem é que pode se conformar com o genocídio impetrado na Faixa de Gaza durante tanto tempo? E não só a violência dos tiros e das guerras e das bombas, mas a violência de utilizar a fome, a vontade de comer de uma criança, como forma de torturá-las.

Quando nós aceitamos isso como normal, nós não estamos sendo seres humanos. Estamos sendo outra coisa. Que eu possivelmente não sei o que seja. Mas seres humanos nós não somos quando aceitamos isso como normal.

E por que isso acontece? Porque as instituições multilaterais que foram criadas para tentar evitar que essas coisas acontecessem, pararam de existir. Hoje, o Conselho de Segurança da ONU e a ONU não funcionam mais. Não funcionam. Todas as guerras acontecidas nos últimos tempos foram guerras determinadas por gente que faz parte do Conselho de Segurança da ONU. E que não consultou, e que não aprovou em nenhum fórum.

Foi assim com a guerra do Iraque. O Bush [George W. Bush, ex-presidente dos Estados Unidos] não consultou a ONU. Foi assim com a invasão da Líbia, Inglaterra e França não consultaram o Conselho de Segurança. Foi assim, sabe, com a Rússia e a Ucrânia. A Rússia é membro fixo do Conselho de Segurança, mas também não consultou a ONU. E assim as coisas vão acontecendo, sem que haja nenhuma governança mundial capaz de dizer que não pode ser assim.

E entra a questão global. Entra a questão do clima. Ora, como é que nós vamos evitar que o planeta possa ser destruído se nós sabemos o que está destruindo o planeta e não tomamos atitude para evitar que ele seja destruído? Nós tomamos as decisões numa COP e quem é que vai cumprir essa decisão? O Protocolo de Kyoto até hoje não foi levado em prática. O Acordo de Paris muita gente não está respeitando. As decisões da COP no Brasil, da COP30, eu tenho dito que ela será a COP da verdade.

Ela será a COP em que a gente vai ter que dizer se a gente acredita ou não nas informações que a ciência está nos dando. O planeta corre ou não corre risco? As pequenas ilhas do Atlântico e do Pacífico correm ou não correm risco? E esse risco afeta mais as pessoas pobres que moram nas periferias das grandes metrópoles, que serão vítimas dos desastres climáticos: da seca, da chuva, do vento e do furacão.

E nós, líderes políticos, é que temos que tomar decisão: O que fazer? Não cada um pensando no seu país ou na sua pátria. Chega o momento em que a gente tem que pensar no planeta. E aí é que é preciso ter instrumentos de governança global. E é isso que nos faz falta hoje. Faz falta para a Malásia, faz falta para o Brasil e faz falta para o mundo.

Por isso, meu querido amigo, eu digo sempre que a gente não escolhe pai. A gente não escolhe mãe. A gente não escolhe, sabe? Amigo a gente escolhe. E eu quero lhe dizer que você, meu caro amigo Anwar Ibrahim, eu considero como meu amigo. Pelo seu passado, pela sua luta e pela sua tenacidade de enfrentar adversidades.

Eu quero que os ministros brasileiros e as ministras saiam daqui com a certeza de que essa visita de hoje é extremamente importante. Primeiro, pela amizade do primeiro-ministro de nos convidar para participar da ASEAM. Nós somos o primeiro país da América Latina a ser convidado para participar. Não é pouca coisa. E isso só pode acontecer quando existe um grau de confiança entre as pessoas. E eu espero que a participação do Brasil amanhã e depois da manhã, na segunda-feira, seja bastante relevante.

Não se esqueça de que eu faço aniversário na segunda-feira. Não se esqueça de que você prometeu que eu ia completar o aniversário aqui na Malásia. Então é importante lembrar.

E eu queria terminar, eu nem li o meu discurso aqui porque eu acho que a reunião foi tão importante entre os nossos ministros. Eu acho que há tanta confluência entre os nossos pensamentos que basta agora a gente fazer com que as nossas pessoas trabalhem de forma, sabe, com muito afinco para que possa acontecer nos próximos anos aquilo que não aconteceu em tantos outros anos. Porque não é possível que Malásia e Brasil tenham um fluxo comercial de só 6 bilhões. Não é possível. Alguma coisa está errada, sabe, no nosso comportamento. Alguma coisa está errada no nosso governo. Alguma coisa está errada nos nossos empresários. Alguma coisa está errada. Porque nós precisamos ter consciência de que um dos problemas que o mundo tem hoje é a ausência de lideranças. E na ausência de lideranças, tudo que é de pior pode acontecer.

Então, meus queridos companheiros ministros da Malásia e ministros brasileiros, nós vamos sair daqui com a missão. E a nossa missão é muito responsável. Nós precisamos da Malásia e a Malásia precisa do Brasil. E quem tem que cuidar disso somos nós. Ninguém está preocupado com a Malásia como vocês. Ninguém está preocupado com o Brasil como nós. Então, nós temos que juntar nossas preocupações. Saber o que nós temos de similaridade.

O que a Malásia pode vender para o Brasil. O que a Malásia pode transferir de tecnologia para o Brasil. O que o Brasil pode vender para a Malásia ou transferir tecnologia, transferir conhecimento. Até a dança carioca, a dança do Rio o primeiro-ministro pode aprender com muita facilidade. É só deixar um pouco de disponibilidade na sua agenda, porque só agenda de trabalho não dá certo.

Então, eu quero terminar essa entrevista aqui dizendo o seguinte: os acordos que foram firmados estão firmados. Nós vamos voltar para o Brasil com a certeza de que há 30 anos não vinha um presidente brasileiro na Malásia. Há 30 anos. O que é impensável, porque já faz muito tempo que a Malásia é tida e vendida aos olhos do mundo como lugar de extraordinário crescimento e desenvolvimento. E a gente poderia ter vindo aqui muito mais vezes.

Mas sempre tem a primeira vez. E eu quero terminar dizendo ao meu amigo, primeiro-ministro Ibrahim: esteja certo de que essa viagem vinha à Malásia, e esse carinho com que você está nos convidando para a viagem mudará a história da relação Brasil-Malásia.

Muito obrigado."

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva em evento com o primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim. — Foto: Reprodução/X/ricardostuckert
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva em evento com o primeiro-ministro da Malásia, Anwar Ibrahim. — Foto: Reprodução/X/ricardostuckert

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