Trump ainda
não está enfrentando o dilema terrível de presidentes como Lyndon
Johnson e George W. Bush, que prolongaram conflitos que já estavam
perdidos. Mas os sinais de perigo estão por toda parte.
Um capítulo
específico dessa guerra de quase duas semanas exemplifica como Trump
está perdendo controle da expansão do conflito: o fechamento do Estreito
de Ormuz pelo Irã, uma importante rota marítima de exportação de
petróleo.
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A postura
desafiadora do regime mostra que, embora os EUA desfrutem de enorme
superioridade militar, nem tudo pode ser resolvido com violência, apesar
da retórica da administração.
O fechamento
do Estreito apresenta a Trump um enigma militar que será extremamente
perigoso para a Marinha dos EUA , apesar do Irã estar em desvantagem
militar. É também a mais recente consequência de uma guerra que Trump
iniciou baseado em um "sentimento" e não em planejamento. Afinal,
autoridades americanas passaram décadas entendendo como o Irã
responderia a um ataque.
"Não se pode ter vitória se não sem o Estreito de Ormuz", disse à CNN o
capitão aposentado da Marinha dos EUA Lawrence Brennan. "O Estreito de
Ormuz precisa ser reaberto ao comércio internacional e isso é algo
difícil, se não impossível, de fazer nas circunstâncias atuais."
Brennan, que
serviu no porta-aviões USS Nimitz durante a crise dos reféns iranianos
de 1979-81, acrescentou: "Por mais que eu aprecie o otimismo do
presidente... declarar vitória após o primeiro ou segundo dia
simplesmente não é a coisa certa a fazer. Isso vai continuar por muito
mais tempo do que qualquer um de nós espera."
A reação em
cadeia vai além dos preços do petróleo. A perda de um avião-tanque com
seis militares americano sobre o Iraque na quinta-feira (12), descrita
pelas autoridades como um acidente, ressaltou os custos das mobilizações
militares em massa, assim como a morte de sete americanos no conflito.
Nos Estados
Unidos, ataques violentos na Virgínia e em Michigan na quinta-feira
também destacaram a possibilidade de repercussões domésticas de uma
guerra do outro lado do mundo
Não está
claro se esses casos estão definitivamente ligados à guerra no Oriente
Médio. Mas em meio à tensão elevada e ameaças intensificadas, o ataque a
tiros na Virgínia está sendo tratado pelas autoridades como ligado ao
terrorismo. O FBI, por sua vez, descreveu a colisão proposital de um
veículo em uma sinagoga em Michigan como um "ato direcionado de
violência contra a comunidade judaica."
O clima
tenso contradiz as garantias da Casa Branca de que o conflito já
aumentou a segurança dos americanos ao eliminar a possibilidade de uma
bomba nuclear iraniana e destruir o programa de mísseis balísticos do
país.
"A situação
com o Irã está avançando muito rapidamente. Está indo muito bem. Nosso
Exército é insuperável. Nunca houve nada igual", disse Trump na
quinta-feira.
Chamar a Operação Epic Fury
de um fracasso épico seria prematuro. Não há dúvida de que o ataque
aéreo conjunto EUA-Israel é um sucesso operacional e pode ter destruído a
capacidade do Irã de projetar ameaças fora de suas fronteiras; atrasado
sua capacidade de substituir seus mísseis e drones destruídos; e
danificado ativos usados pelo brutal aparato de segurança do regime para
impor repressão. Além disso, o ritmo dos ataques com mísseis iranianos
contra aliados dos EUA no Golfo diminuiu.
Embora cada
morte em combate seja trágica, as perdas americanas ainda não se
comparam às mortes de militares dos EUA durante as ocupações do Iraque e
do Afeganistão — cenas que Trump prometeu não repetir.
E embora a
nomeação de um novo líder supremo iraniano tenha destruído as esperanças
de que o regime pudesse cair, o fato de Mojtaba Khamenei não ter
aparecido em público até agora prejudica a sensação de permanência.
A guerra é
sempre caracterizada por fortes emoções e é difícil de julgar em tempo
real. "Avaliações que você faz hoje ... podem não ser necessariamente
verdadeiras em 5 de abril, e certamente podem não ser verdadeiras em 10
de novembro", disse Ray Takeyh, pesquisador sênior do Conselho de
Relações Exteriores.
"Eu sempre
digo às pessoas durante este período específico: 'Você precisa ser um
relojoeiro.' Você tem que se desmontar e se remontar todos os dias,
porque esta é uma situação dinâmica, e requer um profundo grau de
flexibilidade intelectual", afirmou Takeyh.
Trump abomina esse tipo de lógica de contenção. "Deixe-me dizer, nós vencemos", ele disse no Kentucky na quarta-feira (11)
"Sabe, não é
bom dizer muito cedo que venceu. Nós vencemos. Nós vencemos, na
primeira hora já tinha acabado, mas nós vencemos", disse Trump.
Mas uma
análise objetiva dos eventos sugere que os Estados Unidos ainda não
venceram. Uma complexidade crescente desafia a narrativa politicamente
conveniente de vitória.
A crise do Estreito de Ormuz
O bloqueio efetivo do Estreito pelo Irã, um ponto de passagem para cerca de um quinto do petróleo mundial, e ataques a petroleiros
no Golfo fizeram os preços do petróleo - e da gasolina nos postos -
dispararem. A Marinha dos EUA, consciente do risco de mísseis antinavio e
drones marítimos e aéreos, resiste em entrar nessa rota marítima
fundamental. As taxas de seguro para embarcações também aumentaram
drasticamente.
Não há uma
solução militar clara para abrir rapidamente o Estreito. E mesmo que
Ormuz se torne transitável, isso exigiria missões constantes de escolta
que poderiam estar além das capacidades das marinhas ocidentais, já
sobrecarregadas e diminuídas. Uma opção melhor seria uma solução
política com o Irã. Mas Trump está exigindo rendição incondicional, e Teerã se recusa.
"O problema é
que realmente não há uma boa maneira de abrir o Estreito de Ormuz à
força, dado o fato de que os iranianos podem mantê-lo fechado com apenas
um pequeno número de drones realmente baratos", disse Jennifer
Kavanagh, diretora de análise militar da Defense Priorities.
"Este é o
argumento que muitos de nós apontamos antes mesmo da guerra começar, que
os desafios que o Irã apresentava são desafios políticos que precisam
de uma solução política. A infraestrutura de mísseis balísticos do Irã,
programa nuclear, estas são coisas que requerem uma solução política. E é
o mesmo com esta questão", disse Kavanagh. "Não há solução militar para
isso, porque mesmo que você abra o Estreito agora, o que o mantém
aberto?"
O problema do líder supremo
O
assassinato do aiatolá Ali Khamenei nos primeiros ataques da guerra
transformou o conflito em uma tentativa direta de impor mudança de
regime - mesmo que autoridades dos EUA tenham diminuído a ênfase nesse
objetivo depois que ficou claro que o regime sobreviveu. Assim, a
substituição de Ali Khamenei por seu filho Mojtaba prejudica a narrativa
de sucesso de Trump
Isso permite
que os Democratas retratem a Operação Epic Fury como um sucesso
militar, mas um fracasso tático. O deputado democrata Jake Auchincloss,
veterano do Corpo de Fuzileiros Navais, disse à CNN esta semana que o novo líder supremo é "ainda mais extremista, ainda mais linha-dura que seu pai."
Israel pararia de lutar?
Se Trump
chegar a um ponto em que deseje encerrar a guerra por razões políticas,
não há garantia de que Israel — que está muito mais adaptado à
possibilidade de guerras perpétuas devido à sua posição geográfica —
concordaria em acabar com o conflito. Já houve sinais de que os
objetivos estratégicos dos EUA e de Israel podem divergir, depois que
Israel bombardeou infraestrutura petrolífera iraniana.
Trump disse
no domingo (6) que seria o fim da guerra seria uma "decisão mútua" entre
ele e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. O comentário gerou
preocupações de que uma nação estrangeira tenha influência indevida
sobre as decisões militares de um comandante-chefe dos EUA. As guerras e
ações militares frequentes de Israel — em lugares como Gaza, Líbano,
Irã e Síria — mostram que o país vê a segurança regional como uma missão
contínua, e não como uma operação com data para acabar.
Sem narrativa clara de guerra
A confusão e
as contradições nas descrições do governo Trump sobre seus objetivos de
guerra também podem impedir o estabelecimento de uma narrativa coerente
de vitória — especialmente se os eventos no Oriente Médio continuarem
escapando do controle de Trump.
A questão nuclear
Trump afirma
ter destruído ainda mais o programa nuclear do Irã, que ele já tinha
dito ter "eliminado" em ataques aéreos no ano passado. Mas se Teerã
mantiver seus estoques de urânio altamente enriquecido, poderá preservar
a possibilidade de reiniciar seu programa nuclear no futuro.
Houve
especulações esta semana de que Trump poderia ordenar uma operação de
forças especiais para extrair o material radioativo. Mas isso exigiria
uma força terrestre enorme e uma missão de risco extremo. A agência de
vigilância nuclear da ONU acredita que ainda há cerca de 200kgs de
urânio altamente enriquecido na usina nuclear de Isfahan. Sem eliminar
esses estoques, Washington nunca pode ter certeza sobre as aspirações
nucleares do Irã.
Estagnação política do Irã
Trump
começou a guerra dizendo aos iranianos "que a hora da liberdade está
próxima", e que eles tinham uma oportunidade única na vida para se
rebelar contra a autocracia teocrática
Até agora,
no entanto, não houve sinais públicos dessa revolta. Muitos analistas
acreditam que o cenário mais provável é outra repressão brutal por parte
do regime quando os bombardeios dos EUA e de Israel pararem. Embora
Trump ainda possa reivindicar uma vitória estratégica se a ameaça do
regime ao Oriente Médio for neutralizada, esse cenário de repressão
ficaria muito aquém da retórica inicial de guerra proferida pelo
presidente dos EUA.
A situação política americana
Autoridades
estão garantindo aos americanos que o aumento nos preços do petróleo
causado pela guerra é temporário e uma dor necessária de curto prazo
para um ganho de longo prazo.
Mas a
perspectiva de uma bomba nuclear iraniana — que ainda não existia quando
a guerra começou — está muito mais perto de Israel, onde é uma
potencial ameaça existencial, do que dos distritos eleitorais decisivos
das eleições de meio de mandato nos EUA.
Enquanto os
americanos lamentam a perda de militares e veem seus orçamentos já
apertados sendo ainda mais pressionados pelo aumento dos preços da
gasolina e custos subsequentes ao consumidor, é improvável que
compartilhem do canto de vitória de Trump.
O fim das
guerras raramente é tão claro e inequívoco quanto a vitória dos EUA
sobre o nazismo e o Japão Imperial em 1945. Pode-se argumentar que o
país perdeu muito mais guerras do que venceu desde então.
Mas Trump
está enfrentando a consequência inevitável de uma guerra por escolha.
Ele precisa sair com uma vitória antes que a vantagem inicial do poderio
militar diminua e um adversário mais fraco possa criar um teste final
de resistência.