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sábado, 14 de março de 2026

Análise: Sete motivos pelos quais Trump não venceu a guerra com o Irã

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Fechamento do Estreito de Ormuz e consequências militares apresentam desafios estratégicos para os EUA em meio à escalada do conflito
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Stephen Collinson, da CNN
14/03/26 às 08:00 | Atualizado 14/03/26 às 08:00
Postado em 14 de Março de 2.026 às o8h30m
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Ilustração com modelo em miniatura de Donald Trump e bandeiras dos EUA e Irã  • Reprodução/Reuters

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está caminhando para um dilema problemático no Irã. Ele não pode declarar vitória, parece estar perdendo o controle de uma guerra em expansão, mas as consequências estratégicas e econômicas de desistir da guerra seriam mais desastrosas do que as de permanecer.

Trump ainda não está enfrentando o dilema terrível de presidentes como Lyndon Johnson e George W. Bush, que prolongaram conflitos que já estavam perdidos. Mas os sinais de perigo estão por toda parte.

Um capítulo específico dessa guerra de quase duas semanas exemplifica como Trump está perdendo controle da expansão do conflito: o fechamento do Estreito de Ormuz pelo Irã, uma importante rota marítima de exportação de petróleo.

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A postura desafiadora do regime mostra que, embora os EUA desfrutem de enorme superioridade militar, nem tudo pode ser resolvido com violência, apesar da retórica da administração.

O fechamento do Estreito apresenta a Trump um enigma militar que será extremamente perigoso para a Marinha dos EUA , apesar do Irã estar em desvantagem militar. É também a mais recente consequência de uma guerra que Trump iniciou baseado em um "sentimento" e não em planejamento. Afinal, autoridades americanas passaram décadas entendendo como o Irã responderia a um ataque.

"Não se pode ter vitória se não sem o Estreito de Ormuz", disse à CNN o capitão aposentado da Marinha dos EUA Lawrence Brennan. "O Estreito de Ormuz precisa ser reaberto ao comércio internacional e isso é algo difícil, se não impossível, de fazer nas circunstâncias atuais."

Brennan, que serviu no porta-aviões USS Nimitz durante a crise dos reféns iranianos de 1979-81, acrescentou: "Por mais que eu aprecie o otimismo do presidente... declarar vitória após o primeiro ou segundo dia simplesmente não é a coisa certa a fazer. Isso vai continuar por muito mais tempo do que qualquer um de nós espera."

A reação em cadeia vai além dos preços do petróleo. A perda de um avião-tanque com seis militares americano sobre o Iraque na quinta-feira (12), descrita pelas autoridades como um acidente, ressaltou os custos das mobilizações militares em massa, assim como a morte de sete americanos no conflito.

Nos Estados Unidos, ataques violentos na Virgínia e em Michigan na quinta-feira também destacaram a possibilidade de repercussões domésticas de uma guerra do outro lado do mundo

Não está claro se esses casos estão definitivamente ligados à guerra no Oriente Médio. Mas em meio à tensão elevada e ameaças intensificadas, o ataque a tiros na Virgínia está sendo tratado pelas autoridades como ligado ao terrorismo. O FBI, por sua vez, descreveu a colisão proposital de um veículo em uma sinagoga em Michigan como um "ato direcionado de violência contra a comunidade judaica."

O clima tenso contradiz as garantias da Casa Branca de que o conflito já aumentou a segurança dos americanos ao eliminar a possibilidade de uma bomba nuclear iraniana e destruir o programa de mísseis balísticos do país.

"A situação com o Irã está avançando muito rapidamente. Está indo muito bem. Nosso Exército é insuperável. Nunca houve nada igual", disse Trump na quinta-feira.

Chamar a Operação Epic Fury de um fracasso épico seria prematuro. Não há dúvida de que o ataque aéreo conjunto EUA-Israel é um sucesso operacional e pode ter destruído a capacidade do Irã de projetar ameaças fora de suas fronteiras; atrasado sua capacidade de substituir seus mísseis e drones destruídos; e danificado ativos usados pelo brutal aparato de segurança do regime para impor repressão. Além disso, o ritmo dos ataques com mísseis iranianos contra aliados dos EUA no Golfo diminuiu.

Embora cada morte em combate seja trágica, as perdas americanas ainda não se comparam às mortes de militares dos EUA durante as ocupações do Iraque e do Afeganistão — cenas que Trump prometeu não repetir.

E embora a nomeação de um novo líder supremo iraniano tenha destruído as esperanças de que o regime pudesse cair, o fato de Mojtaba Khamenei não ter aparecido em público até agora prejudica a sensação de permanência.

A guerra é sempre caracterizada por fortes emoções e é difícil de julgar em tempo real. "Avaliações que você faz hoje ... podem não ser necessariamente verdadeiras em 5 de abril, e certamente podem não ser verdadeiras em 10 de novembro", disse Ray Takeyh, pesquisador sênior do Conselho de Relações Exteriores.

"Eu sempre digo às pessoas durante este período específico: 'Você precisa ser um relojoeiro.' Você tem que se desmontar e se remontar todos os dias, porque esta é uma situação dinâmica, e requer um profundo grau de flexibilidade intelectual", afirmou Takeyh.

Trump abomina esse tipo de lógica de contenção. "Deixe-me dizer, nós vencemos", ele disse no Kentucky na quarta-feira (11)

"Sabe, não é bom dizer muito cedo que venceu. Nós vencemos. Nós vencemos, na primeira hora já tinha acabado, mas nós vencemos", disse Trump.

Mas uma análise objetiva dos eventos sugere que os Estados Unidos ainda não venceram. Uma complexidade crescente desafia a narrativa politicamente conveniente de vitória.

A crise do Estreito de Ormuz

O bloqueio efetivo do Estreito pelo Irã, um ponto de passagem para cerca de um quinto do petróleo mundial, e ataques a petroleiros no Golfo fizeram os preços do petróleo - e da gasolina nos postos - dispararem. A Marinha dos EUA, consciente do risco de mísseis antinavio e drones marítimos e aéreos, resiste em entrar nessa rota marítima fundamental. As taxas de seguro para embarcações também aumentaram drasticamente.

Não há uma solução militar clara para abrir rapidamente o Estreito. E mesmo que Ormuz se torne transitável, isso exigiria missões constantes de escolta que poderiam estar além das capacidades das marinhas ocidentais, já sobrecarregadas e diminuídas. Uma opção melhor seria uma solução política com o Irã. Mas Trump está exigindo rendição incondicional, e Teerã se recusa.

"O problema é que realmente não há uma boa maneira de abrir o Estreito de Ormuz à força, dado o fato de que os iranianos podem mantê-lo fechado com apenas um pequeno número de drones realmente baratos", disse Jennifer Kavanagh, diretora de análise militar da Defense Priorities.

"Este é o argumento que muitos de nós apontamos antes mesmo da guerra começar, que os desafios que o Irã apresentava são desafios políticos que precisam de uma solução política. A infraestrutura de mísseis balísticos do Irã, programa nuclear, estas são coisas que requerem uma solução política. E é o mesmo com esta questão", disse Kavanagh. "Não há solução militar para isso, porque mesmo que você abra o Estreito agora, o que o mantém aberto?"

O problema do líder supremo

O assassinato do aiatolá Ali Khamenei nos primeiros ataques da guerra transformou o conflito em uma tentativa direta de impor mudança de regime - mesmo que autoridades dos EUA tenham diminuído a ênfase nesse objetivo depois que ficou claro que o regime sobreviveu. Assim, a substituição de Ali Khamenei por seu filho Mojtaba prejudica a narrativa de sucesso de Trump

Isso permite que os Democratas retratem a Operação Epic Fury como um sucesso militar, mas um fracasso tático. O deputado democrata Jake Auchincloss, veterano do Corpo de Fuzileiros Navais, disse à CNN esta semana que o novo líder supremo é "ainda mais extremista, ainda mais linha-dura que seu pai."

Israel pararia de lutar?

Se Trump chegar a um ponto em que deseje encerrar a guerra por razões políticas, não há garantia de que Israel — que está muito mais adaptado à possibilidade de guerras perpétuas devido à sua posição geográfica — concordaria em acabar com o conflito. Já houve sinais de que os objetivos estratégicos dos EUA e de Israel podem divergir, depois que Israel bombardeou infraestrutura petrolífera iraniana.

Trump disse no domingo (6) que seria o fim da guerra seria uma "decisão mútua" entre ele e o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. O comentário gerou preocupações de que uma nação estrangeira tenha influência indevida sobre as decisões militares de um comandante-chefe dos EUA. As guerras e ações militares frequentes de Israel — em lugares como Gaza, Líbano, Irã e Síria — mostram que o país vê a segurança regional como uma missão contínua, e não como uma operação com data para acabar.

Sem narrativa clara de guerra

A confusão e as contradições nas descrições do governo Trump sobre seus objetivos de guerra também podem impedir o estabelecimento de uma narrativa coerente de vitória — especialmente se os eventos no Oriente Médio continuarem escapando do controle de Trump.

A questão nuclear

Trump afirma ter destruído ainda mais o programa nuclear do Irã, que ele já tinha dito ter "eliminado" em ataques aéreos no ano passado. Mas se Teerã mantiver seus estoques de urânio altamente enriquecido, poderá preservar a possibilidade de reiniciar seu programa nuclear no futuro.

Houve especulações esta semana de que Trump poderia ordenar uma operação de forças especiais para extrair o material radioativo. Mas isso exigiria uma força terrestre enorme e uma missão de risco extremo. A agência de vigilância nuclear da ONU acredita que ainda há cerca de 200kgs de urânio altamente enriquecido na usina nuclear de Isfahan. Sem eliminar esses estoques, Washington nunca pode ter certeza sobre as aspirações nucleares do Irã.

Estagnação política do Irã

Trump começou a guerra dizendo aos iranianos "que a hora da liberdade está próxima", e que eles tinham uma oportunidade única na vida para se rebelar contra a autocracia teocrática

Até agora, no entanto, não houve sinais públicos dessa revolta. Muitos analistas acreditam que o cenário mais provável é outra repressão brutal por parte do regime quando os bombardeios dos EUA e de Israel pararem. Embora Trump ainda possa reivindicar uma vitória estratégica se a ameaça do regime ao Oriente Médio for neutralizada, esse cenário de repressão ficaria muito aquém da retórica inicial de guerra proferida pelo presidente dos EUA.

A situação política americana

Autoridades estão garantindo aos americanos que o aumento nos preços do petróleo causado pela guerra é temporário e uma dor necessária de curto prazo para um ganho de longo prazo.

Mas a perspectiva de uma bomba nuclear iraniana — que ainda não existia quando a guerra começou — está muito mais perto de Israel, onde é uma potencial ameaça existencial, do que dos distritos eleitorais decisivos das eleições de meio de mandato nos EUA.

Enquanto os americanos lamentam a perda de militares e veem seus orçamentos já apertados sendo ainda mais pressionados pelo aumento dos preços da gasolina e custos subsequentes ao consumidor, é improvável que compartilhem do canto de vitória de Trump.

O fim das guerras raramente é tão claro e inequívoco quanto a vitória dos EUA sobre o nazismo e o Japão Imperial em 1945. Pode-se argumentar que o país perdeu muito mais guerras do que venceu desde então.

Mas Trump está enfrentando a consequência inevitável de uma guerra por escolha. Ele precisa sair com uma vitória antes que a vantagem inicial do poderio militar diminua e um adversário mais fraco possa criar um teste final de resistência.

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