Em entrevista ao g1,
o cientista climático Richard Seager, do centro de pesquisa Lamont
Doherty Earth Observatory da Universidade de Columbia, explica que as
mudanças do clima são apenas um dos fatores em jogo nessa crise que ele
descreve como severa.
Em primeiro lugar, Seager explica que temos um La Niña em curso, um fenômeno chave no sistema climático da Terra.
Durante a época do La Niña, há um resfriamento das águas do Oceano Pacífico e isso faz com que os chamados ventos alísios
(ventos que sopram de leste a oeste no Equador) se intensifiquem. Com
essa intensificação, uma mudança na circulação do ar atmosférico
acontece e a distribuição de chuvas muda (veja infográfico abaixo).
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Efeitos do La Niña — Foto: Arte/g1
O especialista em secas e mudanças hidroclimáticas destaca, porém, que
geralmente o La Niña resulta em zonas de alta pressão em latitudes
médias, que causam menos precipitações entre junho e agosto
principalmente em uma grande área ao sul do Pacífico. Mas às vezes - e
este é o caso deste ano - essas zonas circulam pelo globo.
"Isso
vem acontecendo durante todo o ano de 2022 e essas zonas de alta
pressão de latitude média desviam os fluxos de jatos e as trilhas de
tempestade em direção aos polos da Terra e trazem condições secas para,
por exemplo, a América do Norte, Europa, o Mediterrâneo e o Oriente
Médio", detalha.
Em julho, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) afirmou que a seca em curso no Chifre da África, como é conhecido o nordeste africano, carregou neste ano justamente as influências desse atual La Niña.
"Os La Niña dos últimos invernos provavelmente tiverem o maior efeito sobre a atual seca no sudoeste dos Estados Unidos", diz ao g1 o climatologista americano Benjamin Cook.
Ela conta que as tempestades de inverno que trazem grande parte da
umidade para esta região são deslocadas para o norte por causa do
fenômeno e, por isso, a região enfrenta secas.
Agravando esse cenário, a Administração Oceânica e Atmosférica Nacional
dos Estados Unidos prevê que esse atual La Niña persistirá durante o
outono e o início do inverno no Hemisfério Norte.
Se isso acontecer de fato, esse seria o terceiro La Niña consecutivo que se tem registro - um fenômeno raro visto apenas duas vezes no século passado e que pode agravar episódios climáticos extremos.
Na Europa, em julho, temperaturas sem precedentes foram registradas
durante uma onda de calor generalizada e duradoura que causou não apenas
secas, como incêndios florestais e mortes.
No mesmo mês, o g1 mostrou que a principal causa desse fenômeno, que pode ter resultado provavelmente na pior seca em 500 anos no continente, foi justamente um sistema de alta pressão atmosférica bastante intenso que diminuiu as chances de chuva e a umidade do ar.
Associado a esse evento, veio também a influência de ventos do Norte da
África, do Deserto do Saara, que tornam o ar cada vez mais seco e
quente.
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Onda de calor na Europa: impactos de ventos do Saara — Foto: g1
"Secas como as que estamos vendo nessas regiões são normalmente
causadas por pelo menos vários meses de chuvas baixas ou ausentes. No
entanto, elas também podem ser amplificadas por essas temperaturas mais
altas, que aumentam a evaporação e a perda de água da superfície,
tornando as coisas ainda mais secas", pontua Cook.
Apesar desses ciclos naturais, a OMM destaca que todos esses eventos
climáticos estão sendo atualmente agravados pela mudança climática
induzida pelo ser humano, "que aumenta a temperatura global, deixa o
clima mais extremo e impacta os padrões sazonais de precipitação e
temperatura".
“A
série de ondas de calor europeias neste verão foi causada por padrões
climáticos específicos, mas as temperaturas experimentadas foram mais
quentes do que seriam por causa das mudanças climáticas” afirmou
Samantha Burgess, vice-diretora do Serviço de Mudanças Climáticas
Copernicus (C3S) da União Europeia.
O climatologista Richard Seager também põe em evidência esse ponto e
acrescenta que as secas atuais no Hemisfério Norte mostram quão severas
as condições podem ser devido à essa combinação de ciclos climáticos
naturais (como o La Niña) e o aquecimento global em curso, que está aumentando a quantidade de umidade que a atmosfera pode reter e sugando a água dos solos, vegetação e córregos.
"É isso que está piorando a situação em termos de seca, caso tivéssemos apenas o La Niña", diz.
Já Cook, que também contribui em estudos do clima para a Nasa, acredita que ainda é muito cedo
para afirmarmos com precisão que as mudanças climáticas estão afetando
de fato esses eventos, mas ressalta que os cientistas já esperavam um
aumento da gravidade da seca e do risco de aquecimento excessivo nessas
regiões da Europa, Estados Unidos e Ásia.
O fato é que o planeta está aquecendo e que as mudanças climáticas causadas pelos seres humanos levaram a um aumento de 1,07ºC na
temperatura do planeta, algo que, segundo o Painel Intergovernamental
sobre Mudanças Climáticas (IPCC, sigla em inglês), causou mudanças
recentes no clima sem precedentes.
"Portanto,
independentemente de como as mudanças climáticas estão afetando essas
secas específicas, esses são os tipos de eventos para os quais devemos
nos preparar à medida que continuamos nos movendo para um futuro mais
quente", destaca o cientista.
Fotos de satélite
Análise de imagens de satélite de áreas afetadas por essas estiagens
extremas mostram o impacto desse evento climático em diversas regiões do
globo. A comparação do antes e depois desses locais foi divulgada pela
Nasa e ESA, as agências espaciais dos Estados Unidos e Europa,
respectivamente e pelo serviço Copernicus da União Europeia. Veja abaixo
a análise das imagens.
Europa
- Rio Pó, Placência, Itália
Na primeira comparação de imagens de satélite, é possível ver o antes e depois do Rio Pó, na cidade italiana de Placência (veja mapa abaixo).
O rio é o maior da Itália e atingiu níveis recordes de baixa após meses
sem chuvas. Com a estiagem, o rio Pó, que era normalmente uma grande
extensão de água, secou e grandes faixas de areia foram expostas.
Em julho, durante a pior seca em 70 anos, a Itália declarou estado de emergência em cinco regiões do norte do país ao redor do rio.
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Rio Pó, Placência, Itália — Foto: Arte/g1
- Rio Reno, Colônia, Alemanha
O rio Reno é o segundo maior rio da Europa e uma importante rota para produtos comerciais no continente.
Na última semana, de acordo com um comunicado do governo alemão, o
Reno, que flui dos Alpes suíços até o Mar do Norte, viu seus níveis de
água caírem abaixo de 40 centímetros em algumas partes do seu leito.
Segundo a ESA, normalmente, os níveis de água mais baixos são
observados em setembro ou outubro no rio, mas esses níveis de agora
estão surgindo mais cedo do que o normal. Na imagem acima, é possível
ver uma porção do rio que cruza a cidade alemã de Colônia.
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Rio Reno, Colônia, Alemanha — Foto: Arte/g1
- Barragem do Alto Lindoso, Portugal
De acordo com o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA),
choveu quase metade do que seria esperado de outubro do ano passado a
agosto deste ano no país.
Fora isso, o governo estima que a maior parte do território de Portugal continental se encontra em uma seca severa (55,2%) ou extrema (44,8%),
com destaque para a região sul e parte do norte do país, como nas
próximidades da imagem acima, na Barragem do Alto Lindoso, que em julho
registrou apenas 15% de sua capacidade.
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Barragem do Alto Lindoso, Portugal — Foto: Arte/g1
- Rio Danúbio, Silistra, Bulgária
Com cerca de 2.800 km de extensão, o Rio Danúbio é o segundo rio mais
longo da Europa e serve de rota para o fluxo de embarcações no
continente.
Nesta imagem acima divulgada pelo programa Copernicus, o destaque é para um ponto do rio na cidade de Silistra, na Bulgária.
Embora nesse local alguns bancos de areia já estejam aparentes, esse
trecho permanece navegável, diferentemente de outras rotas do rio.
No começo de agosto, o nível da água em Tulcea, na Romênia, estava em 51 cm, 6 cm abaixo do valor mínimo para navegação.
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Rio Danúbio — Foto: Arte/g1
- Consequências na França e no Reino Unido
As imagens de satélite divulgadas pelo Copernicus também revelam que
não foi apenas a paisagem dos rios europeus que mudou por causa dessa
seca, a vegetação também sofreu bastante.
Na comparação acima, vemos que boa parte do território francês não está
mais tão verde como em julho de 2021, situação bastante semelhante da
registrada pelos satélites do programa nos arredores de Cambridge, no
Reino Unido (veja abaixo).
"Em todo o Hemisfério Norte, este verão é bastante excepcional em
comparação com os anos anteriores, em termos da área total afetada pela
seca e da gravidade de muitas dessas secas. Estes são eventos quase
recordes ou recordes", afirma Cook.
- Lago Mead, sudoeste do país
O Lago Mead é o maior reservatório de água dos Estados Unidos. Ele
abastece milhões de pessoas em mais de sete estados americanos e até
algumas regiões do norte do México.
Na imagem acima é possível ver como seus níveis de água estão baixos.
Com cerca de 27% da sua capacidade total, o reservatório está em seu
ponto mais baixo em 85 anos, quando o lago foi abastecido pela primeira
vez.
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Lago Mead — Foto: Arte/g1
No Lago Powell, a segunda maior reserva dos Estados Unidos, a situação também não é muito diferente.
O reservatório está com cerca de 26% de sua capacidade, seu menor nível desde 1967.
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Lago Powell, Utah — Foto: Arte/g1
O maior rio da China, o Yangtze, também está sofrendo os efeitos de uma forte seca.
Na imagem acima, a ESA fotografou, em dois períodos diferentes, o leito
do rio próximo à cidade de Chongqing, um município relativamente grande
no sudoeste do país. Na imagem de 2022, é possível ver bancos de areias
expostos.
De acordo com o Ministério de Recursos Hídricos da China, a bacia do
rio Yangtze registrou sua menor precipitação para um verão desde 1961.
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Rio Yangtze, Chongqing, China — Foto: Arte/g1