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sábado, 17 de janeiro de 2026

China. A nova superpotência no saber

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Durante décadas acreditámos que as universidades eram espaços protegidos da lógica do poder. O ranking Leiden 2026 desmonta essa ilusão: a China ocupa oito das dez primeiras posições do mundo. A USP, no 17º lugar é a única de língua portuguesa entre as cem melhores
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Robô humanoide sendo fabricado em indústria da China
Robô humanoide sendo fabricado em indústria da China  • Reprodução/CCTV

O dado parece técnico, mas é político. O CWTS Leiden Ranking mede produção científica, impacto de citações e colaboração internacional. Não mede liberdade académica, pluralismo intelectual ou influência cultural. Mede eficiência. E eficiência, hoje, é sinónimo de alinhamento entre ciência, Estado e projeto nacional.

A China entendeu isso antes. Integrando universidades, política industrial e financiamento público, transformou produção científica em instrumento de soberania. Não há improviso. Há coordenação, escala e persistência. O resultado é visível: domínio nos rankings, presença global e influência crescente na definição do que conta como excelência científica.

O custo desse modelo raramente é discutido. Não é imediato, mas estrutural: quando a ciência passa a responder sobretudo a métricas e prioridades estratégicas, o espaço para dissenso, curiosidade radical e pensamento crítico tende a encolher. Ainda assim, do ponto de vista do poder, o sistema funciona.

O Brasil aparece nesse cenário como exceção isolada. A USP é um caso virtuoso, sustentado por décadas de investimento e massa crítica. Mas está sozinha. Não representa um sistema nacional integrado, e sim um ponto fora da curva. Portugal nem sequer aparece — o que expõe a fragilidade do espaço lusófono como plataforma científica global.

O contraste com a União Europeia é claro. A UE construiu um ecossistema científico integrado, capaz de transformar diversidade nacional em escala continental. O Mercosul, ao contrário, permanece preso à lógica da exceção heroica. Ciência, aqui, ainda é tratada como assunto doméstico, vulnerável a ciclos políticos curtos.

O resultado não é apenas um mau desempenho em rankings. É dependência estrutural. Quem não produz ciência em escala importa tecnologia, narrativas e futuro. Essa é a assimetria silenciosa que os números revelam — e que insistimos em ignorar.

E esta virada chinesa é uma verdadeira mudança de paradigma. O conhecimento deixou de ser consequência do desenvolvimento para se tornar sua condição prévia. Quem organiza ciência em escala organiza o futuro; quem não o faz passa a viver de decisões tomadas noutro lugar.

A China compreendeu isso e agiu. A Europa institucionalizou. O Mercosul hesita. E a lusofonia observa. Não se trata de admiração nem de medo, mas de lucidez histórica.

Em um mundo governado por dados, tecnologia e ciência aplicada, não investir seriamente no saber é aceitar, por antecipação, um lugar subordinado na ordem que já está em formação.

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